Quarta-feira, Setembro 09, 2009

District 9 (2009 – Neill Blomkamp)

Escrevi algum tempo atrás, aqui mesmo nesse blog, que a chave interpretativa de um filme é seu final. O famoso The End não só é um indicativo temporal do término de um filme, mas também a mensagem: a partir daqui vocês podem avaliá-lo. Pois um filme não é algo que aconteça ao acaso, o filme termina por escolha deliberada. Se podemos perceber que muitos filmes são em si forçados, alguns outros se engrandecem justamente pela análise retrospectiva e sólida. E não me refiro às análises meramente tecnicistas ou de lógica interna, mas da substância que está para além do filme e que só acaba por perceber quem ali quer encontrar alguma coisa. Pois não há mensagem poética do mundo que consiga romper as barreiras da obtusidade da má vontade intelectual.

Se a primeira tarefa do sujeito que vai analisar o filme é captar a chave interpretativa, essa deve estar subordinada ao arco dramático. O filme começa e termina, onde começa? E onde termina? Vou utilizar um exemplo comparativo para demonstrar o que digo. Mas antes devemos notar que assim como a literatura, o cinema é um “sonho acordado dirigido”. Samuel Taylor Coleridge dizia que na experiência de fruição estética o sujeito há de entrar com uma suspension of desbelief. Essa suspensão de descrença há de entrar justamente na fruição de uma obra, a fim de, ao deixar o sonho acordado ser dirigido, obter o máximo proveito da experiência. Perceba que o leitor ou o espectador não deve pensar e fazer raciocínios sobre o que se passa no livro ou no filme, mas apenas perceber aquele algo que lhe é dado como dado bruto da realidade. Muitas pessoas acham que se a gente conclui isso ou aquilo de um livro ou filme é porque pensamos. É como se disséssemos, ao olhar uma árvore: “é, ela não é capaz de correr”, e isso fosse fruto de um pensamento e não da impressão primeira e imediata.

Se o autor conseguir incutir o elemento fantástico no drama humano verdadeiro, a direção do sonho conduzirá o espectador, ou o leitor, pelos caminhos mais aparentemente irreais ou fantásticos sem que ele se sinta desconfortável por ali. Dito isso, podemos começar a análise de District 9, em todos os níveis que ele nos apresenta algo de brilhante. Como disse, vou utilizar o método comparativo.

Quem já viu o filme Se eu Fosse Você sabe que no início estamos diante de um relacionamento conturbado onde parece imperar a confusão. Somos remetidos rapidamente e de forma automática ao problema central do casal. Sem nenhum cuidado para individualizar aquele problema o argumento prevê que aceitemos aquilo não só como problema específico do casal, mas como problema que é comum a todos os casais. Essa é a idéia universalizante proposta pelo filme, ao invés de retratar algo, pretende-se criar uma aceitação. Pela incompreensão entre o homem e a mulher, do que seja ser um homem ou uma mulher, que é sugerida pelo começo da estória – aceitando que um homem é incapaz intelectualmente de entender o que é o ser de uma mulher e vice versa – o roteiro encontra uma maneira muito curiosa de conduzir a trama, a troca de corpos. Se não fosse uma idéia batida e clichê, usada algumas vezes na filmografia americana, seria já algo de forçado, mas como devemos manter uma certa suspension of desbelief aceitamos a premissa e vamos em frente. Vamos ser devidamente conduzidos por situações em que imperam as gags físicas, ou seja, as piadas a partir de trejeitos dos atores e de situações armadas. Assim quando a mulher em corpo de homem vai depilar-se, a situação fica cômica.

E é através das várias situações cotidianas que o filme irá nos conduzir. Veja o que eu disse mais acima: o final é a chave interpretativa. Qual o final do filme Se eu Fosse Você? O homem e a mulher se entendem melhor, e por causa desse entendimento voltam aos seus corpos originais. Ou seja, O Fim ao dizer que com a troca de corpos os dois se entenderam melhor, nos garante porque aquilo foi necessário. Então podemos resumir a essência do filme no seguinte esquema: Casal que briga e se desentende é agraciado com a troca de corpos para no fim se entender melhor. Essa é a essência do filme. Que não discute nada de sério em relação à psicologia masculina ou feminina, mas somente situações idiotas cotidianas que não levam em nada a compreender melhor o mundo um do outro, como se depilar-se ou enfrentar um dia de cão no trabalho fossem as mais altas chaves para se entender a natureza masculina ou feminina. O filme nos diz com isso que é entretenimento fútil e qualquer pessoa que ali se deter para tentar entender realmente algo sairá prejudicado.

Voltemos agora ao District 9.

Obviamente que District 9 é um filme muito mais complexo e difícil de assistir. Ainda mais para o público preguiçoso e presunçoso de hoje em dia. Preguiçoso pois não se deixa conduzir na suspension of desbelief facilmente quando algo que é apresentado fuja dos padrões. E presunçoso pois não demora nem dois segundos para declarar que o filme é ruim, justamente porque não conseguiu acompanhar a direção do sonho acordado. Quando a sutileza de tratamento de certos elementos se dá, aí mesmo é que esses elementos se tornam inapreensíveis.

Primeiro, District 9 se apresenta como pseudo-documentário. Temos início com gravações simuladas de várias pessoas, e essas gravações se deram após o acontecimento do que o miolo do filme irá nos mostrar. Temos depoimentos especulativos sobre o que teria acontecido com o protagonista, o porquê aconteceu, ou o porquê de ter agido dessa ou daquela forma. Não vou esclarecer alguns pontos logo no começo para não entregar muitas coisas importantes do filme, mas vou avisar quando isso não for mais possível.

Algo que fica patente pela escolha dos depoimentos é que não há consenso sobre o que ocorreu. Cada um vai apresentar seu ponto de vista, que carece de dados. Perceba o leitor que os dados referidos são constantemente parte do desenrolar do filme, como as câmeras de segurança e vigilância. As imagens supostamente recebidas dessas câmeras se intercalam ao longo do filme com as cenas que vemos com exclusividade.

Esse é o segundo plano de estrutura narrativa do filme. Primeiro temos o plano do documentário que especula sobre o que aconteceu, nesse plano as pessoas puderam ter acesso às câmeras de segurança e vigilância. Mas nós, espectadores temos acesso ao resto do material, pois vemos o desenrolar do acontecimento que não chega ao conhecimento público de nenhuma maneira.

O protagonista, Wikus Van de Merwe (interpretado brilhantemente pelo ator Sharlto Copley), é um operativo de uma organização chamada Multi-National United (MNU), empresa contratada para manter os aliens dentro de um campo de concentração. Esses aliens chegaram por acaso à Terra e foram encontrados subnutridos e horrivelmente desestruturados dentro de sua imensa nave mãe, estacionada pairando em cima de Joanesburgo, África do Sul. A MNU pretendia ter lucros enormes explorando a tecnologia alienígena, mas para seu desespero as armas só funcionavam com o DNA dos aliens. Com esse impasse, sem melhoras algumas e aumentando o conflito entre nativos da cidade e o mega campo de concentração, a empresa decide mover os mais de um milhão de aliens para outra instalação a 200 quilômetros dali. O operativo encarregado de chefiar o processo é Wikus, que parte em missão para dentro do campo de concentração a fim de conseguir o assentimento dos aliens, para a transição, já que esta é exigida pela lei do local.

Aí temos uma breve introdução do problema. Perceba o leitor que sem isso é impossível entender o filme. Mas também deverá notar que essas informações todas não são ditas e explícitas, mas fazem parte organicamente dos depoimentos e das cenas mostradas. Lembremos que é um pseudo-documentário.

O filme começa realmente quando Wikus se envolve em um acidente ao vasculhar um dos barracos dos alienígenas. Toda a parte anterior ao acidente é meramente a construção do ambiente, apresentação dos personagens, dos aliens... É justamente nisso que serve a introdução: apresentar-nos os aliens como coisas nojentas e repugnantes. E para isso o filme não recusa do grafismo cru. Se um alien há de estourar um ser humano que explodirá em pedacinhos, fique certo que isso acontecerá. Ali há uma certa dose de indiferença perante esses acontecimentos, como acontece com qualquer violência em um campo de concentração onde os habitantes estão totalmente degradados. É nesse momento que podemos ver o abismo entre os depoimentos dos experts e a real situação dos aliens no guetto.

Apelidados de Camarões os aliens são incompreensíveis. Ninguém domina sua linguagem e por isso há uma boa dose de dificuldade de entendê-los, coisa que só vai acontecer pelo caso raro do protagonista. Se o filme brasileiro tratava do problema da incompreensão entre homem e mulher e resolve trocar os corpos a fim de resolver suas picuinhas através das gags diárias do cotidiano, District 9 vai utilizar do mesmo artifício, mas de maneira muito mais engenhosa, e perturbadora. Ali a troca de corpo não tem benefícios fáceis, se realmente há algum. E o risco da empreitada é mortalmente sério.

[A partir daqui alguns dados serão fornecidos sobre o filme que poderão comprometer a fruição do mesmo, aconselho a assistir o filme antes de ler o que vai abaixo]

Perceba que Wikus é um ser humano normal. Contente com seu casamento e feliz pelo cargo a que é promovido, ele tenta se empenhar ao máximo no seu trabalho, mas nem por isso chega a ser uma pessoa maravilhosa. É ao ser infectado que percebemos suas maiores fraquezas. Pois nem ele, nem nós, sabemos da possibilidade de cura daquela infecção. E acompanhamos o drama do personagem de ser infectado e descobrir-se dono de uma mutação bisonha. Agora metade alien metade humano ele passa a ser alvo de cobiça dos pesquisadores de armamento, pois passa a ser capaz de manusear as armas apreendidas dos aliens, verdadeiros utensílios de destruição muito superiores às armas terrestres.

Aprisionado pelos ex-colegas da MNU ele passa a ser uma cobaia de experimentos. E é a partir de sua fuga do complexo que se verá sozinho com seu problema. Não poderá contar com ninguém, já que sua foto é espalhada por toda a cidade. E acaba concluindo o óbvio, o único lugar a que pode recorrer para não ser capturado é o District 9.

Chegando ao local ele percebe que sua transformação está em andamento. E por conta disso vamos perceber outra coisa, agora do lado dos aliens. Devido à incompreensão entre humanos e aliens eles nunca se entenderam. Os vinte anos passados desde sua chegada à Terra e a criação do campo de concentração nada adiantaram para esse entendimento. E se a maioria é sempre medíocre é assim mesmo que funciona com os Camarões, a maioria dos seus vive para procurar comida e tentar sobreviver. Mas temos os elementos mais inteligentes da raça, que se empenharam durante os vinte anos de conseguir reunir os elementos necessários para religar a nave mãe e retirar seu povo daquele inferno. É justamente quando conseguem obter o necessário para seu intuito que trava-se o contato com o despejo. Acuados perante os humanos esses três aliens vão esconder seu precioso artefato no barraco onde tentam montar sua fuga. É achando esse artefato que Wikus vai ser infectado, por acaso.

Quem acha que o filme se trata da tentativa de Wikus de se curar e de ajudar o alien, que lhe promete a cura caso consiga acessar a nave mãe, não pesca a dica do início e o final que lança a chave interpretativa. Vamos com calma por essa parte.

Ao saber que pode ser curado, Wikus decide lutar com todas as forças por essa alternativa. E não mede esforços para isso. Até mesmo passar por cima dos aliens que o ajudam. Seu egoísmo é patente. Chega a colocar tudo em risco por causa de seu egoísmo. Tentando alcançar a nave mãe sozinho, raptando com isso o filho do alien que lhe ajuda, causa mais dano que benefício a si mesmo, pois com a nave de acesso abatida não consegue fazer nada mais que ser preso. É preso e leva o alien que o ajuda à iminência de morte. Revendo sua posição no último momento possível consegue oferecer a possibilidade de fuga ao companheiro alien, que nessa hora não se sabe se é companheiro de interesse ou de raça, já que Wikus encontra em estágio avançado de mutação.

Elevando os eventos do filme ao brilhantismo o roteiro não se curva de recair na realidade para fechar a trama. Ajudado a chegar à nave mãe, o alien promete voltar em no máximo três anos, retornando com reforços a fim de libertar seu povo e curar Wikus. Que nessa altura já se resignou à possibilidade, ou de morte ou da condição de sua mutação. O que vemos pelo pseudo-documentário, que volta a nos dar o panorama do início do filme, o alien, passados vários anos, não retorna e permanece a incógnita no ar. E esse não retorno é um dos elementos essenciais para o entendimento do filme, já que com isso o roteiro nos diz que o retorno ou não do alien não importa, pois o filme trata de outro problema.

Mas só vamos ter idéia do arco dramático realmente na última cena.

A penúltima cena nos mostra a mulher de Wikus dizendo que recolheu em frente à sua porta uma flor. Esta feita de metal, e divaga sobre ter vindo ou não de Wikus. A última cena nos mostra Wikus, já transformado completamente em Camarão, finalizando a feitura dessa mesma flor. E finda o filme.

O que isso quer dizer? O que isso nos quer mostrar?

Que é um final aberto ninguém pode duvidar, mas algumas coisas são concretas. Pois se começamos o filme vendo os Camarões como seres repugnantes, incompreensíveis, terminamos vendo um Camarão, totalmente de acordo com todos os outros, e tão indiscernível quanto, mas agora sabemos que ali reside uma personalidade. Se ainda é humana.. não sabemos, mas sabemos que é capaz de se lembrar de uma flor, de fabricar uma flor e de deixá-la à pessoa que mais amou na vida, seu “anjo branco”. Então temos o problema real da aparência versus a essência. Somos confrontados com o real desconforto de sabermos que o que vemos é um ser humano, mas transformado em Camarão. Teriam sido transformados todos os outros? Mas caso tivessem sido transformados, a incompreensão ainda continuará. A falta, ou a impossibilidade, de diálogo entre as duas raças é a notável causa do problema. Se uma impossibilidade física real de comunicação, já que os sons proferidos pelos aliens são impossíveis de entendimento humano, pode nos tornar incompreensíveis, que difere isso da incompreensão de línguas humanas? É realmente a intransponibilidade lingüística uma deformação visual para que não consigamos entendermo-nos? Todas essas perguntas pululam ao final do filme. Toda a densidade da transformação, da luta pela sobrevivência, da cura, do amor à amada, se condensa na essência humana atrás da casca da raça alienígena.

Assim apreendida a chave interpretativa podemos nos remeter à toda trama novamente. Desde os primeiros depoimentos, da falta de informação, até a impossibilidade de entendimento entre raças. O filme não trata do diálogo entre raças no nível grupal, mas da visão individual sobre cada ser do grupo. E a troca de corpo é permanente. No fim Wikus ficou encarcerado dentro do novo corpo alienígena. Ligamos para ele estar no campo de concentração? Ou ligamos por estar inacessível aos humanos? O filme é a tentativa de entender uma situação, a situação do incompreensível, uma situação que resvala em preconceitos, impossibilidades, e talvez em caso que seja realmente impossível de transpor. E por isso o final é aberto, a direção do sonho acordado nos leva até onde pode ir e deixa o resto do serviço para o espectador, que acostumado a ter tudo mastigado e digerido se incomoda com um final que lhe leva a pensar: ué mas acaba aí? Tão ávido que está para receber notícias da nave mãe, ou do retorno do alien, da cura de Wikus... que deixa de perceber a subtileza da questão, pois quer deformar o filme para tentar fazê-lo se encaixar nas suas formas mentais ordinárias. Se Se eu Fosse Você deixa o espectador no mesmo lugar de onde saiu, mas com certa dose de satisfação, District 9 deixa o espectador no limite do dizível e por isso da condição humana, mas isso é insatisfatório para quem quer sempre o conforto, Se eu Fosse Você é para o preguiçoso e o presunçoso, District 9 é para aquele cuja sensibilidade corajosa e humilde o permite chegar mais perto da realidade, mesmo que seja através de um alien artesão de flores de metal, que nada mais é que um ser humano, preso pelas circunstâncias do momento à incompreensão. Esta serve apenas para trazer mais compreensão ao espectador, aquela, do filme brasileiro, serve apenas para manter a dose de incompreensão.

Sexta-feira, Julho 24, 2009

De Brasília à Tropicália, por Ana Queiroz [Tradução, comentário e adaptação por leandroDiniz]

Texto original em:

http://www.utopiadamodernidade.com.br/exposicao_debrasilia.html

Nota Introdutória: Venho por meio dessa tentativa resgatar a inutilidade e o grande dispêndio de recursos que se deu na elaboração, montagem e divulgação desse monstro. Como a antiga lenda de Tiamat, a cada cabeça que cortamos outra surge, mais veroz, mais mortífera e que acaba ganhando pela força. Como seu combatente infatigável li até o fim. Reli. Comentei, traduzi, esclareci a mixórdia imponderável que é esse texto semi-analfabeto, escrito certamente por analfabeto funcional. Sem mais por enquanto, aproveitem o texto, se isso for possível.


Parte 1 – A Exposição

A exposição A Utopia da Modernidade: de Brasília à Tropicália traça um caminho representativo e abstrato da arte no nosso país. Ainda que o projeto não esteja perto de se completar, pois deve-se aumentar a representação dos artistas para os deslocamentos sucessivos, a mostra interpreta Brasília como um aglomerado humano protagonista de um novo tempo e insere a cidade no contexto das utopias, convidando cada visitante a pensar a história da busca do lugar para ser feliz. Nela se releva o mesmo desejo há muito latente e imemorial que acompanha os homens desde sempre e que até hoje constrói sonhos e desencadeia migrações e diásporas.

[Comentário: Como traduzir nomes não é de bom feitio deixemos de lado essa tentativa. Esse primeiro parágrafo é uma coisa extraordinária. Pois Brasília foi construída claramente sem intenção alguma de ser um lugar utópico e jamais foi pensada para ser um lugar para o visitante ser feliz. Pelo contrário, a transferência para lá foi forçada e obrigatória. As pessoas não fizeram migração alguma e tampouco diásporas (diásporas? Meu deus do céu!). Que as pessoas possam interpretar o que quiserem à sua maneira é uma possibilidade do real, mas... isso é descabido e ilusório.]

Há quase 50 anos, Brasília nasceu de um conceito de cidade ideal, a Cidade Moderna ligando em seu surgimento o tipo da cidade prometida. No mapeamento de sua construção, razão, utopia e mito se entrecruzaram [??] e é nessa conjuntura que desenvolvemos o nosso argumento: cidade, arte e cultura são parte de um só contexto.

[Comentário: Brasília nasceu de um conceito de estratégia, exploração e proteção. A idéia da transferência da capital para o interior já existia muito antes da primeira constituição republicana de 1891, que criou o dispositivo para a transferência da capital do Rio de Janeiro. Foi somente bem depois que São João Bosco teve lá seu sonho premonitório, como se esse sonho transformasse Brasília num paraíso. Brasília nada teve a ver com o sonho de São João Bosco. Nem teve a ver com utopia alguma. Suas diásporas (sic) e migrações foram forçadas. Constatando-se que o Brasil se concentrava majoritariamente no litoral, criou-se Brasília, também, para forçar as rotas pro interior. Migração forçada vale?]

Desde o seu primeiro traço a capital configura e expõe a mescla dos nossos Brasis. Iventiva, se reinventa. Recria-se a cada instante, terra brasílica. A aglomeração traduz e decifra duas estéticas que, ilustradas na sua Arquitetura e recriadas nos seus vãos, parecem desiguais, mas participam do mesmo espaço. A nossa exposição lança esse olhar e propõe a reflexão: a estética nacional, ordenada, concreta versus a estética da mescla, irônica e fazendo perder o caráter sagrado instaurada nos procedimentos polifônicos da Tropicália.

[Comentário: Confesso que o final desse parágrafo requer um nível muito bom de abstração. Primeiro, comecemos do começo. Quais são os nossos Brasis a que se refere o texto? Ainda mais, quais são esses Brasis representados por Brasília? Creio que o objeto que o texto se refere é inexistente. Mas que diabos! Como pode uma cidade de concreto se reinventar? Oras, ou se fala do concreto ou das pessoas, as pessoas se reinventam o concreto não, e muito menos o desenho. Brasília é conhecida como cidade morta. Ela não cresceu espontaneamente como o Rio, com sua configuração única de favelas e bairros ricos. Brasília é a mostra clara do estéril controle, da construção acabada que não deixa brechas à metamorfose. Mas parece que isso foi completamente invertido. Que dizer de “terra Brasília”? Nada. Detalhe para a solução textual totalmente equivocada: “A aglomeração traduz e decifra duas estéticas que, ilustradas na sua Arquitetura e recriadas nos seus vãos, parecem desiguais, mas participam do mesmo espaço.” Ou seja, elas são efetivamente desiquais, nada torna nada igual a nada só porque compartilha o mesmo espaço, ou é só eu que entendo assim? Agora a maior graça está por vir. Que raio de estética nacional, ordenadora e concreta é essa? Só pode ser a estética de Brasília, mas se é de Brasília não pode ser nacional, oras ela representa tudo que o Brasil não era na época. Como pode uma cidade forçada e construída na marra com os requintes mais farsescos ilustrar a estética nacional? E como é que pode uma estética inexistente se contrapor a uma tal “estética da mescla”? Desde quando a estética nacional, se existia alguma, era algo de sagrado? O lance todo é o seguinte. A Tropicália com sua total vacuidade, teve que criar um contraponto ideal e inexistente para se contrapor e lançar todo seu sensualismo destruidor na praça. Essa polifonia tropicaliana nada mais foi que mera embromação de revoltados que com sua revolta só queriam destruir e nada puseram no lugar. O que propõe a exposição é o seguinte: pegue a estética inexistente e contraponha com a estética que existiu em contraposição ao que não existiu. É isso? Não obrigado!]

Ambientações, videoinstalações, recortes cenográficos, releituras de alta temperatura inventiva conversam com o visitante propondo o diálogo e a interação. ENTRE é um convite e a palavra chave: entrequadras, entre décadas, entre tantos mundos. Na pequena sala arquitetada pelos designers da exposição, obras originais elaboram referências temáticas sobre a Capital e dialogam com as projeções de distintas cidades. O cenário do Eixo Monumental é apropriado na composição do projeto museográfico elaborando uma nova geografia na esplanada dos Ministérios. A Tropicalização criativa do grupo N.O.I.S. inspirou-se numa tese de doutorado [???] e, neste caso, a mostra transforma-se em projeto coletivo [sic], em tese viva para ser refletida, questionada e, especialmente, vivenciada.

[O que raio é “alta temperatura inventiva”? Conversam? Creio que uma obra não conversa com ninguém, expõe, se obriga, se impõe. Como é que eu vou conversar com um quadro? Só se estiver maluco. Aliás, todo esse papo de interação e conversa com a obra de arte nada mais é do que a total incompreensão do que seja obra de arte. Tu discutes com a Monalisa? Nem eu. O show de nonsense está aí: “referência temáticas”, “elaborando uma nova geografia”, “Tropicalização criativa” etc. Tudo isso não quer dizer nada. Um conjunto curioso de nadas. Agora a melhor: uma tese de doutorado se transforma em projeto coletivo? Hã? “Tese viva” é o zênite da loucura transformada em texto.]

Para finalizar a primeira parte eu vou tentar transcrever num único parágrafo a loucura dos quatro acima. Ou seja, uma tradução e adaptação:

Temos um projeto, incompleto, que tenta traçar um símbolo da cultura nacional, que para se completar pretende ser itinerante. A mostra confunde urbe com Brasília. E do sentimento de ser feliz de todo homem, ou as suas utopias, ainda hoje vemos migrações e diásporas por conta disso, ou seja, movimento sem destino algum. Queremos transformar Brasília em modelo de cidade ideal, que nasceu da mistura de razão, utopia e mito. E por isso propomos, sem saber muito o porquê, que cidade, arte e cultura fazem parte de um só contexto. Cremos que existem muitos Brasis. Cremos que a arquitetura dessa cidade traduz e esclarece duas estéticas, que mesmo desiguais habitam o mesmo local. Concreta versus a mesclada. Ou seja, contrapomos ordem e razão à polifonia da Tropicália. Como se mescla, ironia e dessacralização não fossem projetos racionais. Ou seja, propomos a ordem concreta e sólida, que até agora não identificamos em canto algum, contra uma desordem e caótica estética, que surge do desejo destrutivo de alguns. Criamos uma parafernália lingüística e material para confundir o espectador e conseguir impor nossa nova visão do todo, de um projeto que sempre dialoga, e dá vida a teses de doutorado. Boa sorte ao sujeito que se meter nessa encrenca.

Parte 2 – A Idéia e a Criação [ou, embromação alto nível]

Observação: Como essa parte está infectada de muitas distorções os comentários virão frase a frase, dentro dos colchetes.

A idéia sempre parte de um pensamento, sonho ou desejo que enfim buscamos materializar. [Ou seja, foi-se a realidade. Todas as idéias que temos partem do nosso gutural desejo, do nosso descabido sonho ou de um pensamento qualquer. Pra que realidade nesse caso?] A Utopia da Modernidade: de Brasília a Tropicália, antes de ser exposição, foi tese trabalhada na árdua tarefa de conectar hipóteses, observar, ler, pesquisar, construir argumentos. [Ai ai. Obra de arte agora virou trabalho acadêmico, ou vice versa, o que dá no mesmo. Querem mais prova de que o vácuo acadêmico invade qualquer campo da cultura?] Nesse processo, elaboramos um mosaico de vozes, e escrever, apesar de exercício solitário, passou a ser uma polifonia de diálogos. [Eita! De tese de doutoramento solitária passou-se a um grupo de diálogos, uma polifonia. Ou seja, além de um insano que pretendendo provar o que desejava, pois as idéias nascem das profundezas do ser, e seu esforço descomunal de conectar hipóteses e construir argumentos, passou-se a um bando de lunáticos que entraram na mesma dança.]

Materializar uma estrutura teórica em iconografia expositiva é, digamos, não mais uma tarefa árdua, mas uma experiência de intensidade. [Uma iconografia expositiva (??) montada arduamente a partir de uma estrutura teórica... é o projeto insano a que estamos sendo apresentados. E ia ficar aturdido se isso não fosse realmente uma experiência intensa.] Envolve uma série de pessoas que agregam novos conteúdos em um projeto coletivo do qual participam muitos autores. [Tautologia pra que?] Na argumentação da criação iconográfica da tese, a nossa idéia foi, então, descrever de maneira instigante a história de um período da arte no Brasil. [O que seria exatamente uma “argumentação da criação iconográfica”?] A história de utopias que se instauram nos procedimentos artísticos que desejam levantar questões, reinventar caminhos, suscitar leituras do mundo. [“história de utopias que se instauram nos procedimentos artísticos”, falta dizer que raio de utopias eram essas e quais os procedimentos artísticos. Pois até onde entendo a história de nossa arte real não abraçou utopia alguma como procedimento, nem como meio, nem como fim.]

O desafio é contar Brasília e ressaltar a intercomunicação de dois procedimentos aparentemente distintos: a Brasília concreta, ordenada, objetiva, elegante e racional em contraste com a estética caleidoscópica do Tropicalismo, expondo, também, as incongruências da nossa modernidade. [Clara confusão de objeto, “contar Brasília” o que é isso? O que isso significa? E se os dois procedimentos parecem aparentemente distintos, é porque são realmente, não se interligando em nada. A não ser nas idéias surgidas do fundo do desejo do grupo de diálogo polifônico. E por último Brasília... elegante? Sem mais.] Nesse roteiro, estabelecemos contatos com diversas linguagens estéticas, como o concretismo, a poesia concreta, o neoconcretismo, e aludimos à linguagem do cinema novo até a eclosão do que hoje conhecemos como procedimentos da Tropicália. [Ou seja, através da força descabida, os sujeitos arrumaram um ponto de contato entre concretismo, o cinema novo e uns tais “procedimentos da Tropicália”, cabe saber que esse ponto de contato é mental, totalmente subjetivo e em nada resvala na realidade] Uma história da arte recontextualizada por meio de uma criação. [Isso quer dizer o seguinte: nós pegamos uma tese, a transformamos em criação, e depois reformulamos uma pretensa história da arte criada por nós em outra história da arte criada por nós, e achamos isso lindo]

As instalações e as peças colocadas na área externa do Museu transformam não só o perfil e a atmosfera urbana do Complexo Cultural da República, mas, igualmente, a experiência de seus visitantes que, interagindo com as obras, desenvolvem poéticas de fruição brincantes. [Nós pegamos uma tese, a transformamos em criação, fizemos um mega parque de entretenimento, para as pessoas interagirem através da brincadeira, pois somos todos crianças grandes e pra que algo sério, que toque a profundidade do ser humano? Por isso subvertemos a palavra “poética” e a transformamos em brincadeira. Se nós não conseguimos levar a arte a sério, fazemos com que todos também não a levem.] É o aspecto da arte como atividade lúdica, aberta à interferência e ao inusitado jogo das novas formulações em que se engendra uma multiplicidade de gestos, imagens e movimentos. [Para uma arte transformada em retórica nada melhor que o movimento ao invés da contemplação. Novamente estamos diante de nosso eterno playground, e insistimos ferrenhamente que arte é brincadeira, dá a chupeta pro neném não chorar! Se o sujeito quiser entrar no jogo, as regras estão dadas, veladas, mas estão lá.]

As imensas e esculturais letras alusivas ao título da exposição foram projetadas especialmente para ser inseridas como elemento da monumentalidade. [Ou seja, sem mais o que ter a apresentar, fizemos algo muito grande para parecer que é importante.] São letras convertidas em clara referência ao concreto e que provocam a reflexão sobre a nossa Utopia, inaugurando o conteúdo do criativo conjunto de objetos que se apropria de toda a Praça do Complexo Cultural para transformar o imponente Museu-OCA em um dos elementos da Mostra. [Ou seja, como fizemos a coisa com as letras grandes para parecer que são importantes, tivemos que criar uma desculpa para fazer isso, uma desculpa que se adéqüe ao linguajar acadêmico da tese em que retiramos a nossa “criação”.] Nesse cenário, os coloridos vendedores ambulantes, personagens paradoxais da cidade modernista, que aí circulam tentando vender suas bugigangas, dão o tom tropicalista. [Sem que nós conseguíssemos achar como inserir algo dos “procedimentos da Tropicália”, achamos melhor é dizer qualquer coisa. Os coitados vendedores, que estão lá suando e enfrentando dias inteiros em pé para ganhar o pão de cada dia, foram instantaneamente transformados em merda de artista. Eu não disse artista de merda, mas merda de artista. Isso porque é a primeira vez que o bom senso aflora no texto. Explico. Eles compararam a Tropicália em sua mais tenra forma aos vendedores ambulantes. E é justamente isso, só isso e não mais. Com a diferença que uns são úteis e honestos os outros destrutivos e maléficos.] É a interação com o cotidiano da cidade incorporada ao ambiente criado pela concepção museológica. [Queremos falar bonito! Se o leitor visse tudo como é, leria algo assim: “Não temos mais o que dizer, nem fazer, estamos aqui ao léu, então resolvemos jogar a culpa da coisa pro cotidiano da cidade, e transformá-la em fraseologia acadêmica nonsense.]

As releituras da estética concreta, como Revolvento, inspirada na obra Movimento (1951), de Waldemar Cordeiro; Geografia Construtiva, na Composição (1952) de Luiz Sacilotto, e o Portal, que faz menção ao cartaz da 1ª Bienal (1951) de Antonio Maluf, revisitam os elementos gestálticos do concretismo ao mesmo tempo em que se inserem na dinâmica de desintegração do quadro elaborada pelos neoconcretistas. São trabalhos que fomentam um campo de cogitações interconceituais. [A coisa começa a ficar mais engraçada ainda. Antes se o concretismo tinha uma proposta bem clara e efetiva. Tudo que fazem agora é uma mera alusão à obra concreta. Saca aquele filme americano de comédia escroque em que aparece um sósia o Stallone com luvas de boxe e calções...? Então nesse filme, paródia de 300, os diretores sabem muito bem da total idiotice do público alvo e não contentes com a “referência” ainda focam a câmera no cinturão que esclarece de vez o já óbvio com a palavra Rocky. Então, esse parágrafo é exatamente a cena da paródia de Rocky na paródia de 300.]

Em outra vertente, Arqui-Tetos traz a inventividade entronizada na improvável vivenda concebida na Vila Estrutural. A insólita reutilização de materiais da reinstalação produz o impacto dialógico entre o engenho plasmado no precário e a magnitude da arquitetura monumental. Ao lado, Reflexos Míticos, a bucólica Ermida colocada em um espelho d´água, lembra a narrativa do mito de Dom Bosco, anunciando que ali seria a nossa terra prometida, onde jorraria leite e mel. [Se esse parágrafo fosse colocado lá como obra numa folha A4 de papel reciclado (pra ser politicamente correto), seria a melhor obra de arte surrealista inconsciente da história. Mas como não é, vamos ao fato. No início temos uma tal inventividade, palavra que não quer dizer nada, logo depois temos um “improvável” e para ficar mais chirque ainda temos a palavra “vivenda”. Ou seja, traduzindo: Arqui-Tetos traz algo que não sabemos o que é, mas cremos estar entranhada no improvável ambiente que foi concebido na Vila Estrutural. E a coisa continua: Resolvemos inventar história colocando algo debaixo d’água, ou atrás, ou qualquer coisa que o valha. E no afã analfabeto conseguimos inverter o que pretendíamos dizer. Se queríamos dizer que lembra o mito narrado por Dom Bosco, invertemos completamente o sentido e transformamos o coitado no próprio mito.]

Em Beba-Oca, a trama de palavras e imagem desenhadas com garrafas pet homenageia a poesia concreta e improvisa, irreverente, a antropofagia do emblemático poema Coca-cola, em que Décio Pignatari denuncia a ideologia imperialista dos EUA e a tendência do caráter imitativo da nossa cultura, disposta a absorver os componentes identitários de tradições alheias aos nossos costumes. [Ai ai! Se o projeto revolucionário estava até agora latente, fez-se concreto. Tinha que ter algo comunista explícito. O coitado criador do refrigerante agora se transformou em ideólogo. Para essa caterva qualquer coisa que dê certo é ideologia, pois só conseguem ver o que sentem. Se quem idealizou o projeto soubesse algo da nossa cultura, veria que ela não tem quase nada de imitativa, a não ser no próprio seio de quem faz essa critica. E só para esclarecer “componentes identitários de tradições alheias aos nossos costumes” não quer dizer nada, nadinha.] A releitura Beba-Oca desprende-se livre, torna-se instalação e agencia o mesmo tema, compondo o anverso do poema original. A operação, a um só tempo, revela a crítica burlesca e afetiva do significado do Brasil profundo na sua arquitetura autóctone: a OCA. [Se antes o papinho todo girava em torno de concretismo, neoconcretismo e Tropicália, caímos agora no Romantismo meia boca. Oca? Arquitetura autóctone? E crítica burlesca? Ai meus saco!]

Relatos Suspensos é um labirinto de imagens icônicas que exibe as tantas brasílicas dos tantos brasis miscigenados nas fotos de Ivaldo Calvalcante, Leopoldo Silva e Mário Fontenelle, dialogando com o humor das fotos-montagem dos poetas de Brasília: TT Catalão e Luiz Turiba. [Essa aqui se resume em uma observação: é realmente um labirinto, aquele lugar infernal que só consegue sair os escolhidos. Adivinha quem são?] Como quem busca o fio de Ariadne [tinha que ter essa alusão, tinha!], o visitante pode desenvolver várias interpretações de sátiras e paródias por meio das múltiplas representações. [Ou seja, não existe um sentido naquilo. Cada um vai lá e diz o que achou e tudo isso tá valendo.] Em outro flanco [é realmente uma guerra], as ilustrações de Renan Cardoso revitalizam os signos que emaranharam picarescamente o tema dos trópicos e revisaram as relíquias do país do futuro. [“emaranharam picarescamente” > sem mais!] Relatos Suspensos forma uma contextura de imagens que reescreve ironicamente uma polifonia de leituras fragmentadas da história brasileira. [Contextura é o modo como estão ligadas as partes de um todo. Então vamos lá: Relatos Suspensos é um modo de ligar as partes com o todo, as imagens são as partes do todo, incrivelmente é a polifonia de leituras fragmentadas da história brasileira (entende-se aqui que cada leitura fragmentada é uma melodia, e que todas elas ao mesmo tempo formam uma polifonia, agora imagine isso com a história do Brasil oO). Ou seja, ligar um nada com coisa alguma.] Nele, cruzam-se as representações européias sobre os personagens da nossa formação étnica contextualizados em inúmeras paisagens. [Pegamos uns estereótipos europeus e brasileiros e colocamos em várias paisagens. O holandês no sertão, o francês na caatiga, o português no cerrado e assim por diante, se isso quer dizer algo, jamais saberemos.] No labirinto dos Relatos, também se destaca a horizontal arquitetura de Brasília em contraste com as das ex-capitais e os seus imaginários urbanos. Finalmente, é constituído um retrato provocativo de distintos tempos e territórios em um ambiente que estabelece a reflexão por meio da ironia. [Sem saber nada sobre o que é ironia o texto utiliza essa palavra a bel prazer. Pois contrastar uma arquitetura horizontal com um imaginário urbano não é irônico, mas, no mínimo, insano.]

Na obra homenagem Luz em Verso para Haroldo de Campos, o poema Nasce-Morre é estruturado em letras vazadas, escritas em um suporte geométrico que recorta a paisagem do entorno. A poesia passa a ser reescrita em movimento através do percurso da luz sol. Na composição, a nossa estrela-dia, o nosso sol singular torna-se, então, co-autor do poeta concreto, trançando em luminosidade as formas estabelecidas no desenho das palavras. A dimensão simbólica da mensagem é poeticamente ampliada e inserida no cenário da invenção de Brasília. [Ou seja, o Sol, coitado, que não tem nada de autor, e tem no máximo a participação de material de construção, passa a ser insultado como co-autor de uma obra desse calibre. A obra não quer dizer nada, mas só porque ela usa o Sol como meio de se concretizar é digna de nota. Total inversão da coisa toda. E ainda conseguem com isso fazer um malabarismo gramatical para tentar correlacionar a “obra” com a invenção de Brasília. Aff]

Em Plasti-Cidades, o conceito recorrente das moradas transitórias entronizadas nos vãos das urbes é retomado e traduzido em caixas de papelão por meio de conformações geométricas que formam um labirinto de entrecruzes, onde a terra vermelho-laranja protagoniza vestígios de impossíveis esquinas que a cidade não dispõe. [HÁ HÁ HÁ. Vejamos o que isso quer tentar dizer. Cremos que a terra vermelho-laranja pode protagonizar, ou seja, ser a protagonista, do vestígio (algo que dá a reconhecer algo que já ali esteve) de esquinas que a cidade não possui. Perceba o nonsense.]

Os recortes cenográficos que surpreendem o visitante na entrada do Museu trazem em tamanho real, por meio das peças de madeira, as emblemáticas fotografias do período da construção e da inauguração de Brasília. Nessa cenografia, o tema da mala é recursivo, passando a idéia da viagem, da partida, da procura e da chegada daqueles que se entregaram à aventura da busca do lugar para ser feliz. [Mala? Recursivo? Idéia de viagem? Se entregaram à aventura da busca do lugar para ser feliz? Céus!]

O painel de apresentação da exposição destaca as obras de Rubem Valentim, Viva Tupan, Morra Mamon, e de Lygia Pape, Ouro, que fizeram parte da emblemática mostra Armadilhas Indígenas (1991). Inseridas na nossa exposição, essas obras aportam uma clara referência ao ciclo minerador da região, aos negros trazidos como escravos para o garimpo e aos processos de conflitos com a população autóctone, lembrando a destruição, migração ou submissão e, finalmente, a trama das mesclas forjadas no planalto central. [Ou seja, as obras tinham um sentido intrínseco. Nós colocamos aqui na nossa exposição e queremos com toda a força que elas façam um outro sentido. Que o sujeito só pode entender quando lê o nosso parágrafo, e assim aceita a regra do jogo para brincar ludicamente com a polifonia tropicaliente da burrice autóctone.]

No salão de entrada, a instalação Com Um/Comum, de TT Catalão e Tarciso Viriato, introduz a poética do sonho dos candangos que se sentiram arraigados na história da construção de uma cidade que mudaria o país. [Os candangos tinham um sonho, bem real por sinal, pois deram um duro desgraçado para construir algo no meio do nada que parecia coisa de maluco. Esse sonho era de que aquele inferno acabasse e tivessem um minuto de paz. Dizemos que isso é uma “poética do sonho” e queremos que você acredite nisso.] A narrativa dessa saga é composta numa trilogia que envolve o poema, a coreografia do entusiasmo registrada na foto dos operários no dia da inauguração da cidade e, finalmenta, na densidade simbólica expressada através dos instrumentos pedreiros construtores de Brasília. [É isso mesmo? Transformaram os pedreiros construtores de Brasília em meros instrumentos? É mais um sinal de analfabetismo? O erro ortográfico a gente deixa quieto, mas o erro de significado é dose!]

No mesmo sentido da utopia, Rômulo Andrade em sua Brasília Vênus busca traduzir a cidade branca vista pelo olhar do poeta Pablo Neruda quando vislumbrou a capital nos anos 60 numa paisagem aérea de clara cintilância. O artista utilizou o mesmo material da sinalização de trânsito para revelar a idéia da capital luminosa. [O “artista” pegou material de sinalização de transito para revelar a idéia de capital luminosa? Porra! Era mais fácil colocar um filme da cidade à noite. Né não?]

Em Athuspoéticos ou Ascensão do Espírito Santo, a vivência do espectador dinamiza a poética de Athos Bulcão, e é o olhar do visitante que inaugura o movimento da instalação. As pombas ascendem, lembrando a transcendência do artista que, neste ano de 2008, partiu, deixando a herança de uma magnífica obra inserida na arquitetura da cidade. [Isso cansa! Nem na ignomínia eles são estimulantes. Imagina você, leitor, entrando num ambiente que possui “pombas em ascensão”, você vai convir que imediatamente isso te lembra da “transcendência do artista” não é?]

Nos Auscultárius I e II e no painel Figurações da Memória, o visitante é convidado a refletir sobre a atmosfera dos anos 60 no Brasil, em Brasília e no mundo. São retratos fragmentados da história, imagens em vídeo, ruídos e audioinstalações, colagens em estilhaços que falam da marcante década interconectada com as vanguardas internacionais. [Ou seja, para sentir o Zeitgeist agora não é mais preciso contextualização, informação, história ou conhecimento, basta pegar até, pasmem!, ruídos! Para você refletir sobre a atmosfera de um tempo perdido basta fragmentos de história... adivinha escolhidos cuidadosamente por quem?] São alinhados nessas peças acontecimentos nacionais e mundiais que tiveram ressonância na arte e nas idéias, evidenciando um período que marcou, transformou e influenciou várias gerações até os nossos dias. [Veja só a importante magnânima que a década de 1960 ganha... o melhor é o “influenciou várias gerações até os nossos dias”. Tsc]

Em Diálogos Imaginários, a idéia do não-lugar é contextualizada pelo procedimento de colagem que expõe os espaços de fraturas de um país desigual. [Eu li “não-lugar”? Li! Então eu automaticamente vou pular esse parágrafo...] Uma confabulação imaginária na qual discorrem os cineastas Glauber Rocha, Rogério Sganzerla e o brasiliense Bernardo Bernardes. As imagens iniciais do filme Terra em Transe narram a mítica alegórica do descobrimento do Brasil, enquanto, em Deus e o Diabo na Terra do Sol, é inaugurada a busca desesperada da terra prometida no sertão causticante. Nesse processo de criação, tomamos imagens de Rogério Sganzerla e nos apropriamos de sua colagem de ruínas do filme ícone do Tropicalismo, o Bandido da Luz Vermelha, conectando sua premonitória denúncia com a condição contemporânea. A partir daí, elabora-se a conexão desvendada na multi-étnica rodoviária de Brasília, e pelos recortes das poéticas do filme Viva Cassiano, de Bernardo Bernardes, são expressas a dúvida, a dor ou a loucura nos absortos rostos do povo brasileiro inseridos no Ponto Zero da cidade. São cenas de épocas e lugares distintos que se afinam em desumanas semelhanças e se mesclam com fotogramas e justaposição de idéias. Essas referências entrecortadas, uma vez alinhavadas, estabelecem inusitados diálogos que traduzem a montagem do Brasil não moderno.

A ambiência Mística Urbana leva o visitante a um espaço de imersão. Os brancos croquis ilustrados, ressaltados pela iluminação cênica no curvo e estreito corredor do Museu, inauguram a confabulação entre o racional e o místico: é a funcional cidade do urbanista Lúcio Costa, percebida pelo grande olho do Oscar Niemeyer, contrastando com as insígnias da Brasília mística. [sério, não dá pra comentar isso. Mas vou me esforçar pra tirar leite da pedra, que parece ser o cérebro de quem escreveu isso. Eles pressupõem que exista uma analogia, ou uma alusão, entre o racional e o místico, e dessa relação existente algo que seja identificável por ser reproduzido como luz cenográfica, corredor curvo e estreito... isso é doentio.]

Vale ressaltar que a linha da curadoria pretendia mostrar as obras do núcleo histórico relativo aos grandes nomes dos concretistas e neoconcretistas, bem como as obras emblemáticas dos anos 60, ilustrando o neofigurativo brasileiro além de inserir a geração dos artistas contemporâneos de Brasília. No entanto, no ajuste de adaptação da exposição ao patrocínio, a possibilidade foi adiada para a itinerância e procuramos trabalhar adequando-nos à realidade dos recursos iniciais. [Nós tínhamos um projeto insano muito grande, e tivemos que fazer um projeto insano muito menor, porque alguém de bom senso não deu tanto dinheiro pra gente como gostaríamos.]

Parte 3 - A Branca Sala

Na sala especialmente construída pelos designers da exposição para a apresentação das obras originais do Acervo da Casa da Cultura da América Latina-UnB/DEX, as colunas de madeira que lembram a arquitetura de Niemeyer desenham ogivas com suas sombras, enfocando cada quadro. O conceito de sacralização da obra de arte foi retomado nesse espaço, onde tudo é intocável, contrastando com as obras interativas que ocupam a área externa do Museu. [Ou seja, para o mentecapto analfabeto que tentou dizer algo com esse texto uma obra de arte é sacralizada quando você não pode tocar nela, quando pode é um diálogo polifônico imanente?]

A serigrafia de Rubem Valentim, que viveu em Brasília e deixou a marca da sua estética em alguns prédios da cidade, descreve uma geometria específica, espelhando no seu concretismo a raiz da raça negra. [Ou seja, o cara conseguiu incluir em quadrados, círculos, triângulos e proporções a raiz da raça negra, deve ter sido na hora de calcular a diagonal do quadrado.] Na outra extremidade da sala, o tcheco-brasiliense Milan Dusek apresenta a cidade em duas serigrafias, nas quais a arquitetura da cidade é evidenciada por meio do escuro céu numa aura de beleza misteriosa. [Até pouco tempo atrás a exaltação de Brasília como concreto, geométrico, frio era um fato, agora o escuro céu numa aura de beleza misteriosa passa a representar isso. Isso quer dizer o seguinte, que um escuro céu com uma aura misteriosa pode representar o geométrico, concreto e frio. Sabe-se lá como, mas pode.] A singela Pipa Piloto, de Stela Maris, refaz em expressão belamente lúdica o traço emblemático do urbanista Lúcio Costa aludindo à cidade aérea que remonta ao céu [cidade aérea que remonta ao céu?], enquanto, ao lado, Oscar Niemeyer afirma seu amor pela curva. O desenho original do arquiteto destaca a poesia: ‘Não é o ângulo reto que me atrai, nem a linha reta, dura, inflexível, criada pelo homem. O que me atrai é a curva livre e sensual, a curva que encontro nas montanhas do meu país. No curso sinuoso dos seus rios, nas ondas do mar, no corpo da mulher preferida. De curvas, é feito todo o universo, o universo curvo de Einstein’. [Vamos então abolir o quadrado, tomemos em seu lugar as belas bundas brasileiras e veremos quem consegue construir Brasília, ou colocar um prédio em pé.]

Athos Bulcão, em sua lírica geométrica, constrói vários espaços em matizes de amarelo. [Dá pra entender? O sujeito fez um quadrado e pintou de amarelo claro. É isso.] Sua diáfana geometria entre o círculo, o triângulo e esferas dessemelhantes articula instâncias em que novas formas são propostas. [É impressão minha ou o analfabeto confunde semelhança com simetria? Pois até onde lembro, qualquer esfera é semelhante a outra.]

Aloísio Magalhães, artista pernambucano que também viveu na cidade, revela-nos em seu Cartema um dos mais emblemáticos ícones da arquitetura de Brasília. Ele expressa a Catedral em um jogo de espelhamentos que se repetem articulados entre si, traduzindo uma visualidade que resvala em suave abstração do famoso monumento. [Traduzindo, temos uma visualidade, essa visualidade resvala em suave abstração da Catedral de Brasília, eis que o sujeito consegue aludir isso num jogo de espelhamento. Dá-lhe asbtração!]

A tela transparente é um recurso multimídia que oferece ao visitante a possibilidade de encontrar informações sobre as concepções utópicas de vários pensadores: de Platão, Thomas Morus, Santo Agostinho, Tommaso Campanella até Charles Fourrier, Goudin, Robert Owen, Le Corbusier, entre tantos outros que nos falam dessa constante aspiração na história do pensamento da humanidade. [O que é mais ou menos assim, o que poderia estar escrito num papel, a gente criou outra forma legalzinha de mostrar.] A mesma tela também destaca o mito da urbe do terceiro milênio e a utopia da construção de Brasília como cidade que resgataria o país do subdesenvolvimento. [Essa aí foi inventada na hora da escrita, pois nunca existiu.] Em frente, a cabine multimídia traça o percurso das artes plásticas dos anos 50 e 60, apresentando subsídios para a compreensão da história da arte do mencionado período, contemplando o perfil de arte-educação e formação do público presente na exposição. [Engodo, manipulação e subversão, isso que está descrito aí.]

A videoinstalação Diários Urbanos destaca-se na branca sala num sofisticado trabalho de projeção em volumes enfatizando os primeiros desenhos de Brasília do urbanista Lúcio Costa. As alvoradas, dias e noites reproduzem-se em uma marcha temporal, mostrando o percurso do desenvolvimento do plano piloto em contraste com outras cidades-satélites surgidas nos processos de invasões e que, implantadas nos não lugares, forjam o desejo de alcançar o espaço ideal lembrando geometrias amontoadas na paisagem horizontal do cerrado. [“não lugares” arg]

As jovens Yana Tamayo e Polyanna Morgana representam nesta mostra a mais nova geração de Brasília. Yana Tamayo, com seus Eclipses, constrói um procedimento peculiar sobre a relação cotidiana com o espaço urbano. A artista entroniza [mas que raio de palavra escrota, gostam muito dela] a reflexão sobre a arquitetura monumental e, especialmente nesse trabalho, alude ao símbolo do Museu como guardião de um possível acervo de obras valiosas, ironiza e questiona suas limitações e a beleza casta e ofuscante eclipsada por figuras do uso do cotidiano. [Ou seja, uma artista falando que faz arte quando ao mesmo tempo diz que arte não é nada. Alguém ouviu “paralaxe” aí?] A artista redimensiona o impacto do monumental com a banalidade dos objetos prosaicos e baratos das típicas lojas urbanas de R$1,99. A ironia expressa-se e desenvolve a pulsação dialética do atual papel do Museu e da Arquitetura Moderna. [“pulsação dialética”? É definitivamente eles sabem o que é ser cômico, irônico nunca.]

Em seu trabalho Mapa de percurso número 5: terceira tentativa, Polyanna Morgana tenta registrar a memória da sua flânerie. Reinterpreta a cidade como um andarilho em constante movimento. [Uma cidade? Comparada com um andarilho?] A artista delineia uma geografia incompleta e fragmentada, feita de percursos inacabados. É o que a autora chama de ‘caminhadas de performance ritual’. Os planos dos seus desenhos articulam-se numa gênesis poética da cidade, lúdicos, parecem brincar no espaço imaginado. [Só pode ser isso mesmo, brincadeira.]

No final da exposição, quase que isoladamente, Miguel Ferreira, outro jovem artista de Brasília, instaura por meio da sua obra a eterna metáfora da instabilidade e da impermanência. O trabalho alude a uma possível torre de metal que oscila num movimento prestes a deixá-la cair no surpreendente desmoronamento, confirmando a simbólica frase de que ‘tudo o que é sólido desmancha no ar’, inclusive as nossas utopias que mudam através dos tempos, mas insistem em permanecer. [O analfabetismo toma contorno sublimes aqui. Confunde-se material com transcendental. Confunde-se instabilidade e impermanência material, com ontológica, enfim, não poderíamos esperar nada mais que isso mesmo.]

Ana Queiroz é pesquisadora e doutora em História da Arte pela Universidade Complutense de Madrid. Atualmente está vinculada a Casa da Cultura da América Latina da Universidade de Brasília onde coordena programas de intercâmbio e ministra cursos de extensão. [Tradução: alguém que ganha bem para fazer nada de útil]

Segunda-feira, Maio 25, 2009

"Direito E Cultura Popular:
O Batidão Do Funk Carioca No Ordenamento Jurídico"

uma realidade demonstrada.

Observação: O texto que vai abaixo se refere aos trechos de Agradecimentos e Introdução do trabalho “acadêmico” Direito E Cultura Popular: O Batidão Do Funk Carioca No Ordenamento Jurídico. Os números entre parênteses ao longo do texto se referem às marcações feitas no próprio trabalho, que é reproduzido depois do fim do meu texto. Peço ao leitor para sempre se referir ao número, e consequentemente ao texto, depois de passar pela minha explanação. Se quiser o leitor pode ler o meu texto completo antes de se referir ao trabalho, mas acho que isso tirará muito da compreensão imediata da coisa. Fica a cargo do leitor como proceder.



Como venho dizendo, ao longo de todos os meus últimos posts, a função da linguagem, e conseqüentemente a consciência, ou seja, a racionalidade e o contato com o mundo real foram perdidos. Tudo a que se presta atualmente é um quid pro quo dos diabos. Se antes a função dos acadêmicos era compreender a realidade baseados no ferramental erigido pelas ciências sociais ao longo dos séculos (mesmo que esse ferramental ou trabalhos não tenham sido chamados de ciências sociais, mas é que hoje o termo parece abranger qualquer coisa que se escreva sobre qualquer tema que não possa ser classificado de “exatas”), atualmente a função do acadêmico brasileiro é prestar contas ou massagear seu ego com as mais discrepantes produções, com os mais variados desvios.

Eu nada ia escrever sobre essa deformidade que vai abaixo. Mas por um acaso um amigo meu é conhecido, ou estudou junto com o produtor dessa mixórdia. Eu havia parado a leitura de tal trabalho nos Agradecimentos. Mas como esse amigo meu falou que essa produção estava sendo elogiada (coisa que já me deixou mais desconfiado ainda) eu resolvi prosseguir a leitura. Pelos motivos óbvios mostrados abaixo eu parei no final da Introdução e tenho a certeza de que tudo o que vai escrito além dela pode ser queimado devidamente em um dia frio para acender uma lareira sem prejuízo algum para o conhecimento humano.

Eu tive a paciência de ler os Agradecimentos e a Introdução, enumerei alguns trechos em negrito para melhor ficar a explanação, ou o simples destrinchar do texto. Já que as pessoas não sabem mais ler, o trabalho daquele que entende minimamente da coisa deve ser o de mostrar aos que já vão viciados e cheios de cacoetes mentais, a que realmente se refere um escrito. É muito a contragosto que faço isso, mas alguém precisa fazer, pois se um trabalho como esse está sendo elogiado, é porque a queda se aproxima do fundo do poço. Mas antes de começar efetivamente a destruir analisar o pequeno trecho do seguinte trabalho, devo esclarecer algumas coisinhas para que o público, ou meus 4 leitores, consigam perceber a profundidade dos comentários que farei, pois eles certamente soarão superficiais ou “radicais” para todos aqueles que acham que tudo é válido.

Como eu tenho mostrado, estamos em uma época de decadência intelectual sem igual. Quando eu falo isso, não pego para mim o fato de ser o detentor desse conhecimento, nem o autor dessa idéia, mas depois de ler exaustivamente sobre o assunto percebe-se que isso não pode deixar de ser verdade. Uma vez estruturada a idéia é fácil colher exemplos no dia a dia que a comprovem exaustivamente. Aliás, essa é justamente a diferença entre aquele que elabora e esclarece e eu, que uma vez detentor das idéias elaboradas e esclarecedoras, faz um esforço desgraçado para introjetar a idéia de maneira decente para que ela faça parte do ferramental intelectual que possuo.

(1) Para se ter noção profunda do que eu falo, além de ler meus outros textos abaixo, o leitor deve atinar para o fato de que cada palavra possui um significado estrito, mas a moda é abranger subjetivamente o campo semântico de cada palavra de acordo com a vontade do freguês. Então ouvimos coisas como “pra mim educação não é isso...” e tudo o que o sujeito tem a dizer é uma mera impressão subjetiva que traduz isso em “conhecimento”. É justamente nessa base de operação que o indivíduo abaixo lê e interpreta a palavra agradecimento. Para ele não é necessário que o agradecimento seja devido a algo feito, mas o fato mesmo de agradecer é o que é importante. Se não vejamos. A inversão completa da realidade é que está em jogo, se devemos prestar contas de determos o conhecimento do passado para anteciparmos futuros possíveis e agirmos em relação a isso, agora virou o contrário, só porque o passado fica indiscriminadamente à mercê de nossa vontade e o futuro é um presente ainda não realizado, ou seja, antecipado como fato, é que o sujeito pode modificar à vontade tudo o que deseja, e a vida se transforma em uma militância sem igual.

Quem agradece, o faz por algum motivo, ou melhor por algum sentimento de dívida para com o outro. Se alguém me ajuda em determinada tarefa, eu o agradecerei por esse motivo mesmo. Mas quando vemos algo assim “A Milena, amigona do peito(!), mesmo que ela não tenha movido uma palha pra ajudar nesta tese. Agradeço mesmo assim, viu?” podemos concluir que os Agradecimentos de um trabalho de conclusão viraram meramente uma galhofa qualquer. Ali serve qualquer coisa, fazer piada, descontrair o público, ser cool. Mas o leitor poderá achar que isso é uma mera falha intelectual. Ao contrário, isso é uma das armas de retórica mais famosas. Amaciar o público para quando chegar no tempo devido introduzir na mente dele as atrocidades mais grotescas. Essa arma retórica não cola. E se os Agradecimentos de trabalhos acadêmicos se transformaram em meros artifícios retóricos, é que o que se segue não é um descortino da realidade, mas a imposição retórica de uma visão, de um achismo.

(2) Se já não estivesse demonstrado tim tim por tim tim que o marxismo domina todas as nossas faculdades seria impossível dizer isso sem que soasse estranho, mas a qualquer pessoa que seja minimamente honesta intelectualmente isso se torna claro. O marxismo atual que domina nossas universidades possui um único preceito. De uma premissa todas as outras podem ser conferidas. Não existe verdade objetiva, as únicas verdades que existem são aquelas que ajudam na revolução, ou na tomada de poder. É assim que no livro O Jardim das Aflições vemos uma citação do autor da teoria da PNL que diz exatamente assim: “Já que ignoramos como são realmente as coisas e não conhecemos senão a representação que fazemos delas, por que não representá-las de uma maneira que nos dê poder? Qualquer que seja o horror da situação, você pode sempre representá-la de uma maneira que lhe dê poder.(p. 124 da segunda edição revista, publicada pela É Realizações, e posteriores citação se referem à mesma edição)

Mudando o eixo de percepção do mundo, o marxista, ou revolucionário, não quer mais entender o mundo, mas mudá-lo. Tudo parte de uma vontade interior baseada numa visão torta e deformada do mundo. Esse processo só pode se dar quando o indivíduo já perdeu completamente a capacidade interior de ser um ser autônomo. A unidade da consciência de um indivíduo desses está rarefeita a ponto de sumir, e não é muito surpreendente que o autor ache consideravelmente que suas “elucubrações” são proveitosas quando ele está alheio de si (3). É justamente quando alheio de si, no sentido mais profundo do termo, que o indivíduo perde completamente a capacidade de enxergar o mundo verdadeiramente, e passa por um processo de inversão, achando que a realidade é, na verdade, o que ele acha dela. Marx é rei desse tipo de pensamento, e Gramsci é o pai da nova forma do marxismo. Afinal nada mais marxista do que uma dissertação que versa sobre o Estado opressor e o sistema jurídico maligno e a inocente manifestação do funk. Obviamente que toda a visão que permeia esse trabalho só pode estar enviesada e invertida, já veremos o porque disso. Cabe ainda mais uma citação para entendermos profundamente o trabalho do sujeito. Preciso esclarecer mais um ponto sobre Marx e seu legado de cinzas.

“Eis aí, já em Marx, a raiz da nietzscheização da esquerda, em que muitos teóricos, escandalizados, verão uma traição ao marxismo. A filosofia da praxis contém em seu bojo, oculta mas nem por isto menos potente, a negação do sentido da realidade, a apologia do absurdo. É óbvio que se trata de uma herança epicurista inconsciente, que veio a ser resgatada quando, após a crise mundial do marxismo, a intelectualidade de esquerda se entregou maciçamente a uma espécie de pseudo-heroismo do nonsense, orgulhando-se de continuar a defender ideais sociais que, num mundo sem sentido, só podem consistir numa afirmação nietzscheana da vontade de poder, num clinamen gratuito e arbitrário que o homem, por pedantismo ou desenfado, opõe ao arbitrário e gratuito clinamen dos átomos.” (Jardim das Aflições, p.117)

O Agradecimento chega ao nível mais lamentável ao se referir aos funkeiros que ousaram bater a bundinha até o chão mesmo sabendo que aquilo era uma coisa deplorável. (4) Ou seja, o que lemos ali é traduzido em termos lúcidos para: mesmo sabendo que o funk é uma coisa lamentável e deplorável, o autor agradece aos indivíduos que sobrepujaram esse preconceito, deformaram seu sentido de realidade a tal ponto que fossem capazes de continuar fazendo isso sem vergonha alguma. A exaltação do ego daqueles que são os piores elementos da sociedade é algo insano. Qualquer idiota ou burro hoje em dia exalta a própria burrice ou idiotice como se fosse um troféu. Em tempos em que ser imbecil é digno de orgulho, não podemos esperar mais nada. Mas ainda piora. Se Eric Voegelin disse em seu livro Memórias Autobiográficas:

“Em terceiro lugar, antes de avançar nessa questão, devo salientar que outra importante influência de Max Weber foi a abrangência de seus estudos comparados. No que me diz respeito, Weber comprovou de uma vez por todas que, no campo das ciências sociais e políticas, não se pode ser um acadêmico qualificado sem conhecer profundamente o assunto. Isso significa adquirir o conhecimento comparado das civilizações - não apenas da civilização moderna, mas também da medieval e da antiga, e não apenas do Ocidente, mas também do Oriente Próximo e do Extremo Oriente - e, em contato com as diversas especializações científicas, manter atualizado esse conhecimento. Quem assim não procede não tem o direito de dizer-se um cientista empírico, e decerto deixa a desejar como acadêmico da área.” (Memórias Autobiográficas, É Realizações, 2008)

Se Voegelin diz que “não se pode ser um acadêmico qualificado sem conhecer profundamente o assunto”, ao ler isso: (5)Ao homem-da-caverna primordial que descobriu que batucar dois pedaços de pau dava um som legal, chamou a galera e acabou dando nisso aqui.” torna-se impossível não parar de ler o texto aqui. Afinal esse sujeito leu alguma coisa na vida que fosse sobre a evolução do homem? Recomendo O Que Aconteceu na História do autor Gordon Childe. Basta ler esse livro para considerar esse término dos Agradecimentos insultuoso e pueril. Interpretada em qualquer sentido essa frase está não só errada como é uma afronta proposital ao bom senso. Novamente tudo ruma para a retórica em ação.

Mas tudo o que eu disse até agora serve de ilustração para a auto-declaração do autor do trabalho. Ele confessa veementemente que tudo o que foi escrito é o resultado de uma vontade, que conseguiu se transformar em tese acadêmica (6). Nada mais distante de uma realidade destrinchada do que a vontade do sujeito que conseguiu penetrar no ambiente acadêmico e transgredir todas as regras da práxis teórica. E não contente com isso ele ainda diz na mais lisa cara-de-pau, que o assunto tratado tem a qualidade atiçar e colocar em movimento as pessoas, se isso não é a declaração literal da qualidade retórica do trabalho, não sei o que pode ser (7). Ele ainda confessa abertamente que tinha juízo no começo e sabia que tudo era uma coisa grotesca (8), mas conseguiu transpor sua sensatez e “abraçar” a causa, no estilo mais claro e limpo da transformação marxista. E novamente caímos no buraco do orgulho da mediocridade auto-declarada. Só essa introdução serve como peça fundamental para entender todo o ambiente acadêmico que temos. E faço outra citação de Voegelin ao elucidar o problema da contaminação ideológica na Academia.

“Por conseguinte, os problemas partidários não têm importância nenhuma; pertencem à esfera das rixas internas entre os ideólogos. Mas, ao contrário do que se possa pensar, o fenômeno não é inteiramente novo. Quando estudei as disputas intelectuais na Reforma do século XVI, tive de observar que o mesmo problema estava presente naquele contexto. Resumi a questão da seguinte maneira: existem situações intelectuais em que todos estão tão errados que basta estar contra - e manter-se contra - para ter ao menos alguma razão. O estudo dessas estruturas nos ajuda a compreender melhor o fenômeno da `opinião pública`, mas é evidente que as estruturas mesmas nada têm de científico.

Por causa dessa atitude, fui chamado, por partidários desta ou daquela ideologia, de todos os nomes possíveis e imagináveis. Tenho em meus arquivos documentos tachando-me de comunista, fascista, nacional-socialista, liberal, neoliberal, judeu, católico, protestante, platônico, neo-agostiniano, tomista e, é claro, hegeliano; registre-se ainda que eu era, supostamente, muito influenciado por Huey Long. Dou grande importância a essa lista, pois os vários rótulos permitem identificar a bête noir do respectivo crítico e dão, assim, um retrato bastante fiel da corrupção intelectual que caracteriza o universo acadêmico contemporâneo. Entende-se por que eu nunca respondi a críticas desse tipo: seus autores podem ser objetos de estudo, mas jamais interlocutores em uma discussão.” (Memórias Autobiográficas. p. 80-81)

Em menos tempo do que o leitor incauto pode ter para analisar toda a profundidade da mixórdia ele já ataca de novo. Ele diz que o funk é uma manifestação cultural como qualquer outra. Desse assunto tratei no meu texto Funk uma "manifestação cultural popular", de fato! (http://leandrodiniz.blogspot.com/2008/12/funk-uma-manifestao-cultural-popular-de.html)

Cabe dizer aqui que o sujeito ignora completamente os vários sentidos do que venha a ser uma manifestação cultural. Ele ignora as interpretações: antropológica, sociológica, psicológica etc. E passa batido por isso sem definir qual dessas vertentes se baseia para afirmar tamanha impropriedade. Pois se num sentido a afirmação pode estar certa, nos demais está totalmente errada, e pelo claro sentido do texto vemos que ele se refere justamente as teorias que desmentem abundantemente sua idéia. (9)

Tudo isso para justificar o trabalho erigindo argumentos de segundo escalão ao nível da excelência. Ele associa a Academia com as “ações afirmativas” e o raio das cotas. Esse movimento que é justamente o de abolir todo e qualquer bom senso fomentando a discriminação de maneira a criar o problema que procura solucionar, para isso ver o texto de Demétrio Magnoli, Monstros Tristonhos. (10) (http://www.estadao.com.br/estadaodehoje /20090514/not_imp370515,0.php)

E finalmente nos dá um esclarecimento que é verdadeiro. Em (11) ele coloca adequadamente a situação. Uma vez que o desastre intelectual está em plena forma em nossas universidades nada mais digno do “conhecimento” do que um assunto torpe como esse. O rebaixamento do nível intelectual tem que procurar novos assuntos, que antes indignos de nota, tornam-se problemas fundamentais ao intelectualóide brasileiro.


Em (12) ele confirma explicitamente o que deixara implícito em (9). Ele termina por igualar o funk como expressão cultural às obras de Villa-Lobos. Se por um lado, da antropologia, todas essas manifestações podem ser objeto de estudo com o mesmo valor, ele destina seu comentário ao Estado que está longe de ter que compartilhar da objetividade antropológica, mas ter, necessariamente, que atuar em relação aos valores vigentes. O trabalho não tem a pretensão de descrever a realidade, mas de modificá-la. De destruir no indivíduo que lê qualquer bom senso que o autor confessa que tinha, mas que conseguiu suplantá-lo com uma idéia torta, marxista e revolucionária. Pois para a revolução nada tem validade se não está a serviço das mudanças que quer implementar. E nenhum dos intuitos é mais claro que terminar completamente com qualquer sentido moral ou juízo de decência da população. E ainda bate na tecla ao propor que o funk é música. Se Villa-Lobos é tão música quanto o funk está declarada a temporada do nonsense absoluto e estrito. E se é maluquice considerar o batidão como música, mais ainda como gênero musical. (13)

Enfim, escolhi somente essas citações, 13 no total, como forma de demonstrar o que ultimamente vim falando. Está aí demonstrado o que a perda total e completa do bom senso, do juízo e da consciência, pode trazer para nós. Se nesse trabalho podemos ver que aqueles que deveriam ter o máximo de presteza na elaboração intelectual são aqueles mesmos comprometidos com a retórica mais baixa e com a vontade de transformar o mundo à sua maneira, e se antes o ato de conhecer foi rebaixado ao ato de transformar, não podemos esperar mais nada dessa instituição que chamamos universidade.

***

Direito E Cultura Popular: O Batidão Do Funk Carioca No Ordenamento Jurídico

(1) Agradecimentos

Aos pais, pelo carinho incondicional, por não terem me batido tanto quanto mereci e terem, em vez disso, me enchido de letras desde cedo: até que acertaram bastante por linhas tortas. À irmã, por não ter reclamado da luz e bater incessante de teclas durante as madrugadas varadas. À avó Lília, por ter gerado a melhor família que eu poderia escolher, apesar de serem (quase) todos botafoguenses fictos. À Cleonice, essa fã do Romário que adoro, pelos deliciosos sandubas que me alimentaram durante toda a minha vida acadêmica e geraram inusitadas esculturas em papel-alumínio.

Aos amigos para a vida inteira da Federal de Química, companhias divertidas e agradáveis que topam qualquer parada. Como diria a chamada da Sessão da Tarde, “essa galerinha da pesada vai aprontar todas e arrumar altos agitos!”. Ao Balcão de Direitos, uma experiência de vida ímpar em todos os sentidos. A todos os amigos da UERJ, em especial aqueles gatos pingados que não perdiam um Plebeu. Aos Glamourosos, pregadores e operadores incansáveis do Direito das Galeras. Meu “boas noites” ao Dona Flor, este grupo gente boa que sempre encontrará abertas as portas do meu coração. À PGE, o estágio jovem por excelência, e seu gabinete de elite.

A Milena, amigona do peito(!), mesmo que ela não tenha movido uma palha pra ajudar nesta tese. Agradeço mesmo assim, viu?

A Fabio Peixoto, amigo de valiosas opiniões, sugestões e revisão da tese, fora as idas no Carro do Funk e no Messias aos lugares mais improváveis para fazer “pesquisa de campo” (era o que eu contava em casa quando chegava com o sol a pino).

(2) A Diana “Didi” Neves, essa adorável comunista subversiva que acaba me convencendo muitas das vezes, como fez com este trabalho.

A Juliana Lessa, pela enorme ajuda durante a confecção desta, eterna disposição e empolgação sem fim com o nosso funk, sobretudo aqueles mais sujos que ninguém ousava tocar na jukebox da Caverna do Bin.

A Paulo Neves, parceiro velho, nem sei por que, e seu inesquecível hamster de aquário Horácio (in memoriam) – mais uma pobre vítima da violência nesta cidade (tá bom, esse agradecimento era só pra falar do Horácio, confesso).

A Daniel Guimarães, homem-de-letras que muito contribui estilisticamente (aspas com os dedos, por favor) para minha compleição literária.

A Fernando Laplace, que me diverte incondicionalmente. A única pessoa capaz de sacrificar tudo, absolutamente tudo, pela piada. Te agradeço-lhe-te!

Ao orientador Sérgio Verani, que tão gentilmente me acolheu e esteve à vontade com um tema não propriamente comum.

Às linhas de ônibus da cidade (menos a Amigos Unidos, eca. Dedetizem as baratas!) que ligam meu itinerário e à vista do Aterro do Flamengo, inspiradoras de (3) boa parte das elucubrações aqui expostas em texto. Afinal, não há momento em que me alheie mais de mim do que em um ônibus.


(4) A todos os camaradas funkeiros que, ao longo destes anos, ousaram bater bundinha até o chão ao som do pancadão mesmo sabendo que estavam fazendo uma coisa maldita e malvista por boa parte da sociedade e Estado.

(5) Ao homem-da-caverna primordial que descobriu que batucar dois pedaços de pau dava um som legal, chamou a galera e acabou dando nisso aqui.

1 Introdução

(6) O desenvolvimento deste projeto é uma vontade acalentada há muito que, de mera possibilidade, brincadeira quase jocosa, tomou força e conseguiu se transmudar em tese acadêmica (de como será recebida, ainda a conferir). Durante o acidentado percurso de confecção desta, o autor viveu a grata experiência de (7) perceber como a temática aqui exposta e destrinchada tem o condão de inflamar ânimos e expor facetas por vezes radicais, quiçá inconciliáveis, de pessoas que julgaríamos ponderadas e esclarecidas; recebeu conselhos que vão da simples desistência ao estímulo incondicional. Pôde, enfim, imergir em um mundo que lhe era tão fascinante como mistificado.

O fato de este próprio autor ter encontrado (8) resistência dentro de si, e ter conseguido progressivamente superá-la, chegando ao outro extremo do espectro – abraçar com algum orgulho sua escolha –, serve a exemplificar toda a sorte de preconceitos que cercam o tema.

A validade de abordar o funk carioca pode ser explicada das mais variadas formas. O interesse do autor, que certamente será o de muitos, em primeiro e destacado lugar. Por números: Hermano Vianna já estimava, em 1988, que “Em todos os fins de semana, no Grande Rio, são realizados, em média, 700 bailes onde se ouve música funk. [...] Fazendo as contas, por baixo, é possível afirmar que 1 milhão de jovens cariocas freqüentam esses bailes todos os sábados e domingos” – uma cifra por si só significativa. (9) Um fenômeno cultural desta magnitude merece toda a atenção que, neste caso, não tem. O (quase-)ineditismo que cerca o tema é razão suficiente a motivar alguém a, com um grito isolado, romper o eloqüente silêncio acadêmico a respeito. O silêncio é tão mais opressor quanto mais povoado, escuro e amplo seja o quarto em cujas paredes reverbere. Pela carga de desinformação e preconceito subjacentes, o que estimula a ousar, esclarecer, trazer à luz.

Ainda, se couber a alguém desbravá-lo, com o perdão da carga de preconceito intrínseca ao termo, que seja um egresso da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, universidade (10) pródiga em devolver à sociedade conhecimento e produção, plural por excelência, pioneira na implantação de ações afirmativas no país por meio de cotas para ingresso pelo Vestibular e de cujas janelas se vê o Morro da Mangueira, pedaço de exclusão social tão evidente que não lhe permite esquecer. Um tema tão candente merece acolhida de uma casa do saber à sua altura.

O enfoque escolhido sobre o tema – (11) qual seja, a atuação social e estatal sobre uma manifestação cultural, notadamente em desfavor desta – se explica pela necessidade de compreender as peculiaridades desta relação. (12) O que justifica – ou pretende justificar – a intervenção do Estado sobre uma expressão cultural a priori tão legítima como qualquer outra? Que características diferenciam o funk de outras manifestações culturais e o tornam alvo de atenção especial pela sociedade e autoridades públicas? A ordem jurídica vigente legitima este tipo de conduta repressiva dos órgãos estatais de segurança? Quais são os limites da atuação do organismo público? Pretende-se, neste trabalho, oferecer respostas às indagações apresentadas.

(13) Registre-se, de início, que se pretende abordar o funk carioca enquanto fenômeno cultural, sem prejuízo de sua visão strictu sensu como gênero musical. Trataremos, sempre que possível, funk carioca por funk tão-só, vez que, como adiante explicaremos, inexiste outra versão local/regional de funk de projeção nacional, de forma a podermos afirmar com relativa segurança que o funk carioca representa o funk brasileiro.

O segundo capítulo se destina a mostrar um breve panorama do que se convencionou chamar mundo funk. É proposta uma linha histórica partindo das raízes musicais do funk até os dias atuais; analisa-se o funk na qualidade de fenômeno econômico; e são feitas algumas considerações acerca do funk enquanto expressão cultural tão-só.

O terceiro capítulo se debruça mais detidamente sobre as relações travadas entre Estado,
sociedade, mídia e o funk. A partir da visão do fenômeno da violência no mundo funk, busca-se compreender como este signo influiu no modelo relacional entre todos estes entes, determinando processos de estigmatização e criminalização do movimento funk.

No quarto capítulo, por fim, enxerga-se o movimento funk com os olhos do legislador. É oferecido um compêndio da atuação do Poder Legislativo quanto àquela expressão, com a análise da produção legislativa correspondente, no intuito de determinar o quanto a mesma se ajusta ao ordenamento constitucional e reflete os processos de exclusão tratados no capítulo anterior. Conclusões são oferecidas no quinto e último capítulo.

ps. O link da tal dissertação, para quem tiver estômago de ler o texto inteiro é: http://www.overmundo.com.br/download_banco/direito-e-cultura-popular-o-batidao-do-funk-carioca-no-ordenamento-juridico
Documentário vs. Filme e Razão vs. Emoção

Ontem tive um ligeiro desentendimento com minha namorada ao escolher um filme para vermos. Resumindo a pendenga, ela me disse que queria ver um FILME e não um documentário como eu tinha escolhido. Por alguma razão obscura no entendimento dela filme e documentário são duas coisas diferentes e, no caso, para ver um documentário precisa-se ter um outro estado de espírito, diferente da disposição para ver um “filme”, definido como tudo aquilo que não é documentário.


Hoje tomei conhecimento das primeiras páginas do livro O Erro de Descartes de Antônio Damásio. Não li o resto, somente as duas primeiras páginas da Introdução. Nessas duas páginas o autor nos revela o embrião do que vai ser o livro. A parte decisiva para que eu parasse de ler o livro foi essa: “Comecei a escrever este livro com o intuito de propor que a razão pode não ser tão pura quanto a maioria de nós pensa que é ou desejaria que fosse, e que as emoções e os sentimentos podem não ser de todo uns intrusos no bastião da razão, podendo encontrar-se, pelo contrário, enredados nas suas teias, para o melhor e para o pior.”

Na mesma hora em que eu li o trecho citado acima eu percebi que algo batia, algo tinha a ver com o ocorrido na noite anterior. E que esse algo não se circunscrevia apenas à minha namorada, ou ao livro de Damásio, mas a toda uma cultura, toda uma forma de ser das pessoas ao meu redor. Algo na separação das emoções e da razão criava uma linha espessa separando a vida em dois momentos diferentes. Essa idéia veio como um relâmpago, súbita e instantânea, e me deixou apenas uma impressão, assim como quando fechamos nossos olhos e ainda conseguimos ver uma lâmpada contemplada por algum tempo em nossa retina, mesmo que de olhos fechados. O que eu vejo agora não é a coisa mesma, que passou tão logo apareceu, mas a impressão que tive dela. Essa impressão que descreverei aqui.

É notável como que um raio de intuição pode retroagir anos e anos e colocar nova luz a várias experiências, ou à experiência da vida como um todo. Pois sempre me inquietou que as pessoas não parassem para refletir sobre o que pensam, sentem, vivem etc. É ainda algo incompreensível para mim como que um ser humano pode passar vinte e quatro horas de um dia sem atinar com uma ou duas coisas que lhe inquietarão o espírito pelo resto da vida. Dou-lhes uns exemplos.

  1. Ouvindo uma música, apenas para conferir a qualidade do mp3 que havia baixado de um site, tive uma intuição que ainda me dá motivos de horas de reflexão: música é movimento por excelência. Não me refiro ao movimento dos artistas que a tocam, do movimento do autor que a escreve, nem o movimento sonoro das ondas no ar. Mas o que distingue uma música é meramente o movimento que se faz entre a primeira memória e a última. É o condensado da primeira até a última nota, tocadas numa sequência. Essa sequência é a música. Já que uma nota não faz diferença, notas caóticas não fazem música. Da mesma forma que ao ler uma partitura o sujeito pode muito bem ouvir a música ali escrita sem movimento algum sonoro, mas apenas mental. Pode ser que isso esteja totalmente errado, mas ainda me incomoda e ainda penso sobre o assunto.
  2. Desde que minha mãe, antes de se separar do meu pai, passou um pito no próprio ele ajuda nos afazeres domésticos. Isso foi bom, pois com a saída dela de casa, ele não precisa mais de alguém para lavar a roupa, pra fazer as coisas domésticas e cozinhar. E é sobre a cozinha que eu fico pensando. Meu pai cozinha há anos, mas ele o faz com certa dose de obrigação, como se aquilo fosse um fardo. Se bem que atualmente ele tem relaxado mais. Mas desde que eu comecei a dar umas mexidas em colheres e salpicadas de sal em águas fervendo eu passei a me questionar algo sobre meu pai. Ele não faz a mínima idéia do que seja cozinhar. Parece que para ele o ato de cozinhar é fazer alguma coisa que seja ingerível sem muitos incômodos. O fato que me leva a altas reflexões é como que ele não consegue conceber que o ato de cozinhar de forma descompromissada ou o ato próprio de cozinhar (arrumar os ingredientes da melhor maneira possível para que eles façam uma unidade coerente e saborosa) não difere em nada quanto ao tempo, ao material, ou a habilidade do sujeito. Mas sim a mera vontade. Se eu faço um prato hoje que fica assim ou assado, procurarei no próximo trazer comigo essa experiência para que ela me dê um ponto de partida. Ele ao que parece acha que tudo acontece ao acaso, que um prato ficar aguado ou não, não depende muito de um conhecimento da arte de cozinhar, mas do mero acidente daquele prato ter saído assim. Já eu não acho isso. Pode ser que isso esteja totalmente errado, mas ainda me incomoda e ainda penso sobre o assunto.
  3. Como sou DJ há uns 12 anos, hoje com 26, comecei a tocar por volta dos 14. E conseqüente-mente tive um contato próximo com a vida de noitadas. Mas sempre tive problemas com isso. Sempre achei inconcebível que de um universo quase ilimitado de músicas somente um conjunto de 50 pudesse realmente agradar a maioria dos zumbis que ali estavam se requebrando. Como eu aprendi por mim mesmo o sentido de ser DJ é reunir um acervo de músicas tais e dentre elas conseguir montar um repertório que seja agradável e ao estilo proposto. Eis que isso sempre foi impossível. Bastava que uma música que eu tocasse não estivesse no rol das 50 do momento para que todos se desanimassem e viessem pedir alguma famosinha. O ato de dançar uma música porque ela soasse boa para tal não era concebível. A dança só vinha aliada ao profundo conhecimento da música tocada, e no caso o conhecimento estava em ouvir rádio o dia inteiro. Por isso sempre tentei entender que raio de vontade é essa de pagar para ir a um lugar para ouvir o que se ouve na rádio o dia inteiro. Achava, acho e vou achar isso o fim da picada. Pode ser que isso esteja totalmente errado, mas ainda me incomoda e ainda penso sobre o assunto.
  4. Joguei durante muito tempo um jogo chamado RPG. A mídia já quis rotulá-lo de jogo de maluco, de nerd, até de assassinos de magia negra. Mas digo que foi essencial para a minha formação. O RPG é um jogo de interpretação de papéis, ou seja, a cada jogador é atribuído um papel, um personagem. O jogador tem o dever de interpretar aquele papel o mais fiel possível ao que concebeu. Ele concebe o personagem criando uma ficha, na qual descreve em linhas gerais como vai ser o seu personagem. Ao longo dos tempos sempre me encasquetou que as pessoas se preocupassem mais em formar personagens lotados de regras para sair-se melhor em combates, melhorando somente as probabilidades nos dados (sim a sorte no jogo é decidida nos dados). Sempre me encasquetou que se um jogo é de interpretação de papéis, qual seria a graça de limar todo o papel e ficar somente com estatísticas melhores? Pode ser que isso esteja totalmente errado, mas ainda me incomoda e ainda penso sobre o assunto.

Eis quatro exemplos sucintos, mas que, realmente, sempre me incomodaram nas coisas mais prosaicas e normais. Ouvir música, cozinhar, ir pra festa e jogar RPG. Na medida em que vou estudando filosofia, vou pensando e esclarecendo-me, e essas questões voltam-me freqüentemente. Hoje olhando em retrospecto considero que sempre fui inquietado com certas formas de pensar e ver o mundo que atualmente se manifestam muito mais conscientemente. Mas voltando ao assunto do post.

Eis que eu estava diante da razão vs. emoção. E isso veio de forma plena. Porque será que as pessoas cismam em separar o emocional do racional como se fossem duas coisas antagônicas? Lembro-me sempre das palavras de Herbert Read no livro O Sentido da Arte no qual ele diz que a função da arte não é, somente, passar sentimento (que considera a forma mais baixa de arte), mas trazer compreensão. Algo que sempre me vem junto da imagem de mulheres histéricas em festas gritando alto quando uma música era tocada. A reação instantânea de gritar e se exaltar com uma música não estava na música, mas no que a pessoa sente com ela. Coisa que me foi esclarecida de forma consistente no filme O Pianista. A música para Wladyslaw Szpilman era a corda que lhe tirou do fundo o poço. A música ao longo do filme só podia ser se fosse silenciosamente ouvida, ou intrinsecamente experimentada. Nada de gritinhos e saltos histéricos, mas o silêncio e a introspecção. Fosse no início enquanto o terror não havia ainda se manifestado plenamente e Szpilman tocava na rádio, ou no fim do filme quando padecendo de fome e na miséria maior o pianista ainda tirava forças, das mãos tremendo de frio de fome, para recriar a melodia no piano. E nesse caso a escolha de Chopin foi acertada, se por um acaso ele tocasse as alegres composições de Mozart a coisa ia tomar um tom grotesco. Sempre fico com a imagem do grito histérico e da audição silenciosa.

Com esse pensamento em mente não posso deixar de tentar solucionar o problema. Razão e emoção não podem ser duas coisas diferentes e díspares. Se a definição de arte é que ela deve trazer a compreensão, não se pode excluir o sentimento, mas se o sentimento pode vir junto com a compreensão ele pode se manifestar sem ela. E a isso chamaríamos da forma mais baixa de manifestação artística. Seria essa forma então que está impregnada na mente dos meus conterrâneos? Sim, me parece ser isso. A dualidade seria então “sentimento baixo” versus razão. Mas o que é a tal razão? E o sentimento aliado à razão seria algo maior?

Atualmente associam de pronto razão com frieza, racionalidade morta, desprovida de contato com o mundo. Mas isso nunca pude aceitar. Se minhas reflexões sobre as coisas mais prosaicas do dia a dia se davam, era graças ao meu sentimento de inconformidade. Através do meu sentimento de inadequação é que minhas elucubrações tinham sentido. Como separar então razão e emoção?

E foi essa intuição que me veio hoje ao ler o início da introdução de O Erro de Descartes aliada a idéia do filme vs. documentário.

Simplesmente o que me pareceu ser o caso é que o tal sentimento, ou emoção, se contrapõe à razão pelo simples fato do primeiro ser descompromissado e a segunda ser comprometida. A razão é o comprometimento em ato da pessoa com a experiência, logo cansativa, e a emoção, ou sentimento, é o ato descompromissado que torna o momento leve, agradável e... inútil. Enquanto a razão dá ao sujeito uma base pra poder explicar ou entender certas coisas, deixando um sedimento que dá maior substância ao indivíduo, o sentimento me pareceu associado a um conjunto de fatos isolados que só dão ao sujeito que os valoriza a oportunidade e enumerá-los e contar sobre eles, como se fossem troféus.

A tensão, a única tensão possível e concebível para tais tipos de pessoas, é entre o momento sério, ou racional, e o momento descompromissado, ou emocional, sentimental. A esse rebaixamento das faculdades humanas associei ao nome sensualismo. Ou seja, tudo o que é circunscrito pela experimentação sensorial, separada da faculdade consciente, ou da razão (já veremos isso). Toda a cultura brasileira e todo o imaginário de meus contemporâneos podem ser explicados por essa diferença. Nesse contexto uma música é ouvida porque é agradável ou não, desperta variações emocionais boas ou ruins. Nesse contexto um filme é assistido porque é agradável ou não, desperta variações emocionais boas ou ruins. Nesse contexto qualquer ato é reduzido a ser agradável ou não, ele há de despertar variações emocionais boas ou ruins. Assim todos os relacionamentos humanos serão reduzidos a serem agradáveis ou não, eles têm de despertar variações emocionais boas e/ou ruins. Assim descrita a realidade brasileira ela só pode ser compreendida pela ética do gosto. Bom e/ou ruim, variações do gosto pessoal. Nunca conceitos que podem ser refletidos absolutamente. E no fundo podemos entender como que é incompreensível, e inconcebível, que possa existir algo como a vocação. Se a vida se divide entre gosto do que é bom ou ruim, e o que é bom é o que causa sentimentos agradáveis e o que é ruim causa sentimentos desagradáveis, e existem momentos da vida em que o agradável aparece só e somente associado à inutilidade, os momentos sérios ou úteis só podem aparecer relacionados ao que é desagradável. Nesse contexto até as amizades são vistas como pessoas de “bem” que se gostam umas as outras. Podem ser as pessoas mais torpes, mais sanguessugas, mas se gostam de você... porque não ter-lhas como amigas?

Torna-se compreensível que quase todas as músicas que ressoam pelos ares versem sobre os relacionamentos e o amor, e algumas digam respeito ao que se gosta e o que desagrada. Assim como livros ou filmes se apresentarem como a reapresentação constante de clichês agradáveis. Até o debate jornalístico e acadêmico se reduzem às patotas que se apóiam entre si para o mero sentimento de pertencimento. Mas devemos voltar ao caso da razão e da consciência.

Enquanto o imaginário popular da realização é aquele dos sentimentos e do gosto desprovido de nenhuma razão, a outra parte da vida, a que é “séria”, é aquela que envolve só e somente a sobrevivência e o ganho material dos meios para sobreviver. Estabelecida assim a compreensão, parca, do mundo, qual é o movimento básico que deve acontecer? Trazer o gosto para as áreas ditas “sérias”. É nesse movimento que vemos doutrinas pedagógicas privilegiarem a rarefação do ensino em prol do gosto dos alunos. O professor deve ser capaz de macaquear a aula a fim de que os alunos gostem dela. Os empregadores devem tornar o trabalho algo divertido para o empregado. Os acadêmicos e os aprendizes devem pesquisar sobre algum assunto que gostem. A mídia deve se curvar ao gosto do público. E a única saída para o político é agradar seu eleitores, ou a si mesmo.

Estabelecidos nesse nível infantil da mente, e da vida, não sobra espaço algum para a consciência, ou a razão. Vide a série inumerável de teorias e doutrinas que tendem a negar a unidade da consciência e dizer que tudo é telúrico, tudo está assentado numa irracionalidade sentimental. Desde a teoria de Freud do primado da inconsciência sentimental que domina o indivíduo, até as mais recentes teorias biológicas de negação da consciência como inexistente, sendo tudo inconscientemente dirigido. O inconsciente é o jargão científico atual para qualquer coisa que seja sentimental e automática independente da vontade do indivíduo. Isso já estava latente em Schopenhauer no O Mundo Como Vontade e Representação, e olha que não precisa nem ler o livro, basta ver o título. Tentam a todo custo negar a consciência, ou a razão. Ou ainda pior, tentam racionalizar o irracional.

Sempre há, e dentro do meu círculo mais reduzido de conhecidos alguns já me confrontaram assim, aquele que justifica tudo pelo fato de alguém gostar ou não daquilo. Dizia eu durante uma conversa pós-almoço que aqueles programas de debate sobre futebol que são exibidos diariamente faziam parte da inutilidade geral. O argumento girava em torno do fato de que atualmente pouquíssimas pessoas têm que trabalhar diretamente no seu sustento. Se contabilizarmos com muita margem de tolerância, atualmente no máximo 5% da população mundial são necessários para suprir de todos os outros habitantes do planeta suas necessidades básicas. Logo a conseqüência direta disso é que temos muita gente com o mínimo garantido pra sobreviver e sem nada o que fazer. E por conta disso temos que empregar todas as pessoas para que elas ganhem seu dinheiro e vivam sua porca miséria. Mas é meio complicado empregar todo mundo em empregos altamente significativos, justamente pelo número de pessoas. Peguem então uma quantidade absurda de pessoas que não tem nada o que fazer, as coloque diretamente no ambiente da educação brasileira, que não quer conhecer nada, mas servir de meio de ascensão social, para você criar um exército de pessoas que vão ignorar completamente “o que é” para substituir ao “que se gosta ou desgosta”. Nesse ambiente, um programa que fale o dia inteiro de futebol é válido, pois existem pessoas que gostam de ver o programa. Logo a emissora deve produzi-lo. Isso vem da inversão total do processo.

O professor é aquele que possui mais conhecimentos que o aluno, e esse se quiser aprender tem que calar a boca e ouvir o que o professor diz. Se esse interesse é perdido só resta o fato de que o professor está ali na frente para servir de trampolim. Primeiro de uma série a outra. De ano em ano o professor é o “obstáculo” a ser superado. Vemos aqui que o conhecimento que se dane, é o professor que é mau, canalha e murrinha se faz provas difíceis e exigentes. E logo todo o ensino foi transformado. Se todos que ali estão, estão por uma vontade de ascender socialmente, aquele que dificulta sua subida é o seu inimigo. Se nesse contexto amigos e inimigos são pessoas de quem você gosta ou desgosta, e vice-versa, o aluno só poderá odiar o professor. Pela simples incapacidade de apreender o real como ele é, o aluno vai odiar as matérias das quais odeia o professor e amar as matérias que são representadas por professores do seu agrado. E é justamente baseando-se nesse gostar/desgostar ao longo de 12 anos é que ele vai escolher uma profissão. Mais uma vez o reducionismo é latente, não só as pessoas não gostam mais das coisas mesmas, mas as confundem com um análogo pobre. Então o sujeito sem saber o que é matemática vai procurar uma profissão que tenha a ver com ela, só porque “é bom em fazer contas”, fato que lhe traz ótimos agrados e infla seu ego. Ou aquele que se sente bem escrevendo, que em um piscar de olhos é jogado para o jornalismo.

Eu poderia passar parágrafos extensos enumerando todas as nuances da vida que são afetadas profundamente por essa inversão. Mas o meu problema é outro. Documentário vs. filme e razão vs. emoção. Estabelecida a emoção como a parte mais baixa do ser humano que é intrinsecamente sensorial e por isso afastada de toda a racionalidade... devemos buscar o que é a racionalidade. Ou porque é que a racionalidade não é esse iceberg que esfria todas as emoções.

A razão é vista como aquela parte do sujeito que é destacada dele. Que não “é” ele. A parte do sujeito que é ele é aquela parte que expressa seus sentimentos e gostos. Se em algo acertam as teorias do inconsciente é justamente ao explicar esses sentimentos, elas erram na parte de que eles se sobrepõem à consciência, ou ao tentar demonstrar que esta não existe. Os sentimentos afastados da consciência e da razão são belos representantes da parte vegetativa do nosso corpo. Para a maior parte das pessoas ser racional é ser impessoal, inescrupuloso e inumano, quando a verdade é justamente a oposta. Ser sensorial, ou sentimental, ou emotivo, é ser inumano, impessoal e inescrupuloso. Inverteram-se os pólos da equação na mente dessas pessoas.

Ao leitor faço uma sugestão rápida. Pergunte-se, e com propriedade, quem é você! “Quem sou eu?” Ajudo na resposta: faça uma lista de tudo que é seu. Você tem um corpo? Então ele não é você, mas é seu. Você possui sentimentos? Então eles não são você, são seus. Tudo que pertence, pertence à alguém ou alguma coisa. Tente achar algo que não seja seu, mas seja você! Está aí um ótimo exercício para entender o que virá abaixo.

Fazendo o exercício decentemente você chegará a algumas conclusões notáveis. Primeiro nada do que seja físico é você. Seu corpo inteiro é seu, mas não é você. Encurtando a história: seus sentimentos são seus, mas só enquanto você os manifesta de maneira não deliberada. As únicas coisas que são você são suas decisões, na medida em que você as faz conscientemente. Você não pode determinar que irá sentir uma raiva profunda, ou uma melancolia mortal. Mas pode decidir não matar ninguém enquanto estiver com raiva ou tocar a vida pra frente enquanto está melancólico. A tensão vital do ser é a tensão que une os elementos dispersantes, ou aqueles que não dependem em nada da sua decisão, com as suas decisões perante eles. A isso chamamos consciência. Nesse ponto a consciência é a razão da sua existência. Aqui razão vem como a lei constituinte, ou a proporcionalidade tensional. Tensão é aquilo que tende numa direção. Que vem a ser em menor grau a mesma coisa que a razão que uns e outros tanto rebatem como a impessoalidade, ou a frieza.

Se alguns pensamentos lhe surgem aleatoriamente, a razão lhes ordenará para que tenham um sentido. Se os acontecimentos parecem caóticos, é a razão que lhes dará uma forma para que façam sentido. Enfim, é a consciência em ato que lhe formará, que definirá a seqüência de decisões que resultaram em algo que você poderá dizer que é você. Decidir relegar o que você é ao seus sentimentos, às suas emoções ou ao seu estado sensorial é uma decisão de rebaixar-se ao nível mais pueril de existência. Mas como tomar decisões que consideramos o mundo um esquema caótico, e que buscamos sentido no próprio esquema caótico fora de nós? Sem a capacidade de compreensão do mundo e de si mesmo, o indivíduo vive no meio do caos, da desordem e da indeterminação.

Agora posso compreender minimamente o modo de ver as coisas dessas pessoas. Se 1) elas encaram o mundo como uma seqüência de acontecimentos desordenados, e 2) elas acham que elas são os seus sentimentos, nada mais coerente do que viver a vida a buscar o que lhes é agradável e rechaçar o que é desagradável. Se o leitor for um pouquinho capaz ele poderá traçar uma linha que parte dessas observações para explicar grande parte do que vive, dos que conhece, e de tudo o que acontece, pelo menos no Brasil.

Uma vez compreendida a verdadeira natureza do que somos é impossível crer que devemos rebaixarmos ao nível dos sentimentos. E que a razão nada mais é que a formação em ato do que se é, do ato de definir-se a si mesmo enquanto tal.

A idéia de auto-imagem que as pessoas possuem é o contrário do que se é. Temos centenas de milhões de pessoas querendo se encontrar. Querendo da forma mais incisiva encontrar o eu que se é e adequar-se a ele. Essas pessoas possuem a idéia de que já somos algo de definido e monolítico, e devemos nos equalizar a essa verdade. O eu que tantas pessoas procuram para viver a própria vida de maneira mais adequada é justamente o contrário. Não existe um eu a priori pelo qual devemos nos basear para tomar nossas decisões e viver nossas vidas, mas é só pelas decisões e ao viver nossas vidas que poderemos dizer a posteriori quem somos, ou no que nos tornamos. Perante esse quadro se torna impossível querer ver um filme porque irá nos agradar (pressuposto que toma como base o fato de que já temos uma gama de gostos prontos e que somos aquilo), mas só pelo fato de vermos tal filme, sentirmos o que ele nos expressa (seja o filme como for) e tomarmos tais ou quais decisões, é que poderemos nos definir ao tomarmos consciência de nós mesmos como seres que se definem no ato mesmo de ser.

Só essa consciência, de maneira a dar razão aos nossos sentimentos e atos, é que nos trará a responsabilidade por sermos, decidirmos ou escolhermos o que quer que seja. E se antes tudo poderia ser uma desculpa para ser assim ou assado, agora tudo passa a ser uma oportunidade para não ser assim ou assado indiscriminadamente. Enfim, só assim, com a responsabilidade da consciência de ser efetivamente e dar razão à existência, é que podemos dizer que somos humanos, temos uma história e SOMOS algo. Do contrário seremos algo disforme, indeterminado e condicionado. Coisa que pelo simples fato de eu conseguir escrever o que eu escrevo é difícil de acreditar.

Terça-feira, Maio 05, 2009

Ligeiras observações à perda da função da linguagem

É muito grave o estado de coisas atual. Pela reverberação óbvia nos recônditos ocos das mentes dos medíocres infantilizados a reação instantânea que se dá é a mixórdia de pensamentos sobre o capitalismo, exploração, economia, desigualdade social, ricos, pobres etc. Sem saber que todas essas palavras são clássicos semânticos tomados de assalto pelo pensamento comunista o sujeito consegue explicar tudo e nada ao mesmo tempo. Basta a menção em público do vocábulo “crise” para que um séquito infindável de seres mentais inferiores consigam discorrer por meses e meses sem perceber que tudo o que dizem não corresponde em nada à realidade.

Isso se dá basicamente porque tais tipos perderam completamente o sentido da linguagem. Para eles uma palavra é uma articulação mental rápida que surge em correspondência com as exigências momentâneas. Não percebem que quando chegam no supermercado e pedem queijo ralado para o sujeito de branco atrás do balcão eles recebem justamente queijo ralado. As palavras possuem significados, esses correspondem exatamente a uma parte do mundo real. Se você diz a um sujeito mental infantil “Passe aquela maçã, fazendo o favor”, ele provavelmente vai passar-lhe a maçã. Se você pedir para que ele aponte uma pêra, ele vai apontar. Se você pedir para que ele lhe mostre sua coleção de latinhas, ele vai-lhe conduzir até a estante. Mas do momento que você peça ao mentecapto para lhe apontar o capitalismo, a exploração, as desigualdades sociais... ele se verá em situação catastrófica.

O próprio ato comum de “trocar idéias” ou “jogar papo fora” já demonstra claramente que os diálogos de hoje nada mais são que mero verbalismo, um conjunto infinito de monólogos não interferentes. Podemos presenciar os mais vívidos debates, mas ao final da discussão cada um sai limpo como entrou, ou seja, o papo não interferiu em nada na sua articulação mental. Não podemos ignorar que em se tratando das praticidades do dia a dia a coisa funciona, o problema começa a despontar quando tenta-se entender o que se vive. Enquanto simplesmente vivem, os mentais infantis conseguem se sair bem, mas basta que abram a torneira verbal para explicar o que quer que seja... só temos que nos preparar para a colheita dos vegetais, pegamos principalmente abobrinhas.

Mantendo-se no campo da experiência direta, tudo vai bem. “Eu gosto de azul”, pronto! Tudo está uma beleza. Mas quando explica “gosto de azul, pois eu sou assim... meio melancólico” só podemos perceber que não faz a mínima idéia do que fala.

Isso acontece principalmente porque toda a correlação entre língua, conceito e realidade foi totalmente deturpada. Um sujeito é capaz de defender seriamente que hoje em dia ninguém consegue mais se entender, ao mesmo tempo em que é entendido minimamente pelos que o ouvem. Você é capaz de ouvir claramente pessoas das classes altas dizendo que o capitalismo é opressor e todo capitalista é o sumo do egoísmo. Algo meio estranho de se ouvir, pois ele não aplica a si mesmo a própria concepção. Resumindo, o senso comum está impregnado das mais altas distorções, e ninguém é capaz de compreender isso.

O problema da linguagem é exatamente esse. Na medida em que o sujeito perde completamente a capacidade de correlacionar o senso comum com o mundo concreto em que vive, ele perde completamente o senso das proporções e é capaz de dizer qualquer coisa, mais absurda que seja, e ao mesmo tempo ser desmentido pelo fato de existir de determinada maneira.

Obviamente que isso não se dá aleatoriamente. Qualquer pessoa normal que não passou pela escola, consegue pensar a maioria das coisas claramente, não consegue explicar realmente muita coisa, mas a vida dela não depende de explicação alguma, mas de saber o que se pensa, sente e vive. Exposto de maneira resumida esse problema, podemos passar adiante.

Uma das perdas maiores da linguagem é que ela parece cada vez mais pertencer a um campo reduzido da realidade. Provavelmente se você colocar dois grupos de áreas diferentes para conversar um não vai entender bulhufas do que o outro diz. Cada vez mais as pessoas estão se tornando incompreensíveis umas às outras. E o pior de tudo, não é porque usem palavras diferentes, mas justamente porque usam as mesmas palavras com sentidos completamente contrários. Se a linguagem é uma moeda de troca de idéias, experiências e ordens, estamos falidos. Cada vez mais a linguagem se apresenta universalmente no Brasil como as gírias. Gíria é aquele treco que um grupo possui que significa algo particular e único daquele grupo.

Não é muito difícil você ver alguém dizendo algo do tipo: “Não... pra mim ignorância não é isso, mas é...” Ou seja, agora cada pessoa possui um significado diferente de cada palavra e temos que nos ver com isso. É óbvio que o processo comunicativo não pode funcionar assim. Se cada ser humano inventa para si mesmo um sentido para as palavras que usa, estamos a beira da New Babel´s Tower.

Mas quando tudo está mal e pensamos que não pode piorar... nos surpreendemos. Se, contudo, cada um proclama sua independência sobre o mundo e cria sua linguagem particular, basta que conversemos com alguém por algum tempo para que aprendamos seus significados. Isso seria moleza pura. Mas... há um fator determinante no Brasil em que vivemos para que isso não seja possível. Não só cada um possui uma concepção diferente sobre os vocábulos, mas acham que falam da mesma coisa. Existe no ar um sentimento de integração muito grande para que as pessoas se separem por diferenças psicológicas. É por aí que começa o samba do crioulo doido.

Imagine que um bando de adolescentes que não possui nenhuma bagagem cultural tente se relacionar entre si. Imagine que esse bando só consegue articular mentalmente um pouco mais que duas dúzias de unidades semânticas, ou grupos, como “amor”, “felicidade”, “satisfação”, “gosto/gostar”, “acho/achar”, “sexo”, “futebol”, “maquiagem”, “diversão”, “cinema”, “comida”, “saúde”, “política”, “corrupção”, “capitalismo”, “deprê”, “mal”, “bom”, “vacilão”, “ruim”, “bem”, “doença”, “esporte”, “colégio”, “faculdade”, “vestibular”, “curso”, “computador”, “internet”, dentre alguns outros. Ou seja, no mundo mental deles só esses campos de pensamento se mostram presentes, no grupo semântico de futebol, entra todo o tipo de informação que ele pode gostar de absorver sobre o assunto e assim por diante. Metade dos grupos semânticos que eles utilizam não podem ser dúbios, porque, por exemplo, “futebol” não está aberto à interpretações, é um esporte e está bem definido no imaginário popular, mas basta que ele comece a discutir sobre algo como a “psicologia do jogador numa decisão”, para que colhemos novamente os vegetais.

Se um bando de adolescentes só possui entre si no máximo 30 grupos semânticos e cada indivíduo dentro do grupo tende pela inércia brasileira a dar um significado particular para cada palavra que possua... veremos que a qualidade das relações desse grupo só podem se dar no nível mais elementar a basilar da natureza humana, ou seja, o relacionamento mais animal que for possível. O pior é achar que os nossos adolescentes de hoje ainda se comunicam, eles participam em ato da criação futura da geração dos monólogos não interferentes. E quando algo sai da compreensão mútua, ou da aceitação mútua, só existe o caminho da solução física, ou seja, a porradaria, o estupro, a matança, a vingança etc.

Quando a unidade lingüística é perdida simplesmente as pessoas perdem qualquer coesão. Como que iremos nos comunicar em nível humano com alguém que não entende nada do que falamos? E aqui é muito patético novamente. Exemplificarei. Eu sou um sujeito que tenho uma idéia de política tal, meu amigo é um sujeito que tem uma idéia de política outra. Nós dois chamamos nossas idéias diferentes de “política”. Quando eu levanto um assunto e digo “política” ele ouve a mesma palavra que possui mas preenche com outro significado. Logo ele é capaz de discordar do que eu disse, MESMO que eu fale sobre um fato, mesmo que eu não emita opinião alguma, ele é capaz de discordar do fato enunciado, e vice-versa. Quando toda a comunicação, desde o ensino escolar, passando pela mídia, pelos debates acadêmicos, chegando aos maiores poderes do Estado, se encontra nesse patamar, o que podemos esperar?

Relembre novamente o caso que citei acima, sobre o vocábulo “política”. Faça o mesmo processo imaginativo para “corrupção”. E ainda mais, faça esse esforço para a idéia de relação que é inerente a palavra de ligação “é”. Estabelecidas essas não-significações em comum podemos ter uma idéia da mixórdia compreensiva que existe quando a frase mais utilizada no país atualmente é proferida: “Tudo que é político é corrupto”.

Ou seja, o sujeito não faz idéia do que seja política, nem corrupção, muito menos quais as implicações de relação do verbo de ligação “é”, como que você acha que a frase será entendida pelo Brasil à fora? Não será! Logo “todo político é corrupto” vira um slogan, uma força de expressão, um mantra mágico, ou uma associação de náusea. Mas ainda piora... pois toda uma política do Senado e da Câmara é feita para “moralizar” a política. Vejamos essa situação. Se já não se entendia a “política”, a “corrupção”, e a relação do “é”, agora encima disso decide-se tomar uma ação para “moralizar” a política. Por um breve esforço de imaginação o leitor será capaz de perceber que dentro de 5 frases já não se fala de nada, se age em cima dos fantasmas totais, e tudo o que se pensa é incomunicável.

Mas eu ainda repito, tudo que é ruim ainda pode piorar.

Notamos que o sujeito que não entendia o que era “política” possui pelo menos uma vivência direta da farsa. Ou seja, ele está exposto diariamente as repercussões midiáticas de uma parte da coisa. Pode ler uma ou outra informação num jornal ou numa revista, e mesmo levando em consideração que tudo o que sai na grande mídia é a mais odiosa empulhação podemos crer que no fundo ele tenha algum resquício de realidade para preencher o seu vocábulo “política”, mesmo que seja um emaranhado de informações desconexas, a mistura é baseada numa experiência direta.

Agora o leitor vai imaginar o que acontece quando o aluninho aprende na sala de aula sobre os movimentos ideológicos do Século XX. É de chorar a tentativa de imaginação, é como se imaginássemos um pesadelo. Mas é exatamente isso que acontece. As pessoas vão falar baseadas no nada, sobre a impressão que tiveram do nada, com outras pessoas que fizeram a mesma coisa. Dentro de duas gerações já não se possui um contato com o mundo real nem por empatia. Gerações inteiras são tragadas para o abismo mental.

Tudo isso ocorre justamente porque a educação simplesmente desinforma, ela corta completamente o processo mental do sujeito, que antes era normal, sem muita abrangência, mas normal. Depois vira um mentecapto infantil. O correto posicionamento do sujeito em relação ao mundo é totalmente esquecido. Alguns podem não compreender isso que digo, então foi exemplificar.

Como é que um sujeito passa do próprio conceito de política para um conceito mais elaborado? Simplesmente lendo e ouvindo quem sabe sobre o assunto, sobre quem já está consolidado como pilar desse conhecimento. Agora me diga o leitor, preferimos ouvir Lula falando de política ou recorrermos a Aristóteles? Que Lula fosse o supra sumo do entendimento político, ele não possui o peso de milhares de anos das concepções verdadeiras formuladas por Aristóteles.

Primeira regra básica da educação que põe o indivíduo como centro participante do mundo: ABSORVER O CONHECIMENTO ACUMULADO DA HUMANIDADE INTEIRA – isso é justamente ter uma idéia geral concreta da história, da literatura, dos movimentos artísticos. Além de ter visto, analisado e interagido com cada tempo artístico, ter lido autores de todas as épocas e ter compreendido as concepções da história que foram erigidas pelo pensamento humano. Isso tanto do pensamento grego-romano, antigo, do oriente médio e próximo. Além de ter uma idéia bem clara das influencias das religiões através da história nas sociedades. Agora me diga quem é que sai da escola hoje possuindo 1/1000 dessa bagagem cultural? Ninguém.

Sem essa moeda de troca universal é impossível que as pessoas se entendam a si mesmas e sejam capazes de se comunicar com outras em um nível minimamente humano, no sentido de que o ser humano é aquilo que acumulamos até agora através do desenrolar do tempo em que o ser humano viveu e hoje vive.

Quando você troca esse processo inteiro por uma educação informativa, procurando o mercado de trabalho ao mesmo tempo em que é-se doutrinado ideologicamente por um conjunto de matérias escolhidas à dedo para criar um simpatizante de idéias comunistas. Pelo menos esqueceu-se de 2.500 anos de história, literatura, ciência, pensamento, filosofia e religião e arte. Só isso!

Por conseqüência óbvia disso vê-se a cambada de mentais infantis circulando por aí em grupos, esbravejando pelo privilégio de estarem certos independentemente da verdade, doidos para satisfazer algum de seus desejos e loucos para acabar com quem se lhes opõe o pensamento. A perda da função da linguagem como integradora do ser humano nele mesmo e no centro da história do momento atual é a pior perda possível. É a perda que vai perdurar até o fim. E pra finalizar deixo um exemplo claro de como que uma boa compreensão da realidade através da linguagem pode refletir na coisa mais simples do mundo.

Era costume antigamente um filme terminar com The End, ou em português, Fim. Pelo pensamento tosco percebe-se o “fim” como final de uma duração, ou seja, como final da duração pela qual assistiu-se o filme. Essa percepção quantitativa não é mais que parte da compreensão total do que seja o Fim. E não vamos recorrer aqui a nenhum pensador para analisar isso, mas ao simples dicionário. Não só o Fim sinaliza o final temporal da obra, mas podemos ver no dicionário Houaiss as definições 8 e 9 como seguem:

8 o que se busca alcançar, atingir; finalidade, objetivo, propósito
Ex.: (sua visita tem como f. agradecer-nos) (o f. justifica os meios)

9 explicação ou motivo para (fato, atitude); causa, razão, motivação
Ex.: a doença da mãe era o f. que o conduzia ao centro espírita

O Fim de um filme, é justamente a sinalização que todo o arco da história ali terminou, e por isso mesmo pode ser analisado em retrospecto. Muitas vezes me vi na situação de estar vendo um filme com amigos e ter a intuição clara de que o filme por ali ia acabar, pois a construção necessariamente tinha chegado ao final. Mas sempre ouvi coisas como “ué acabou aí?”. Ou seja, nesse momento eu percebi que o Fim para eles não é a finalidade da construção poética que eles vêem, mas uma outra coisa que não sei precisar muito bem, pois vejo claramente do meu modo. Para eles o Fim de um filme não é o que se busca alcançar, o objetivo, mas sim o mero sinalizador temporal do tempo decorrido, e pela lógica da situação, para eles o tempo deve conter certo tipo de desenvolvimento e não o contrário. Em duas horas de filme deve contar um começo, um meio e um fim, que sejam claramente identificáveis. Um filme como algo que possui uma finalidade e termina assim que se cumpriu totalmente é impossível.

Isso vem da própria compreensão real e concreta do que é a amplitude semântica de Fim. E se assim compreende-se o que é o campo semântico de Fim, abre-se um novo campo de pensamento sobre o Fim de uma construção artística. Pergunte a um sujeito niteroense hoje qual é o Fim de uma estátua, e veja a reação do sujeito. Pergunte-se qual é o Fim do “Pensador” de Rodin. Ao compreender o campo semântico do “Fim” compreende-se porque praticamente todas as obras feitas pela indústria cinematográfica nunca pode ser uma obra artística. E assim por diante... mas é difícil conversar sobre isso com um mentecapto infantil que tem um próprio sentido pra “arte”, pra “fim” e pra todo o resto, para esses o silencio é o máximo que se deve-lhe conceder. Pois como se comunicar com quem não consegue?

Segunda-feira, Abril 13, 2009

Texto complementar ao O VALOR DE SE LER LIVROS.


Esse texto surgiu em complemento a um outro texto que li em um blog, que aqui vai linkado. O texto versa sobre a importância de se lerem livros. O intuito do texto é louvável, e sua defesa do hábito da leitura também. Entretanto, de maneira alguma concordo com a redução que o autor faz em seu texto do processo da leitura e por isso escrevo esse texto. Justamente para tentar sanar alguns problemas graves que o texto possui.

Há uma associação meio forçosa entre a leitura e o prazer. Mas, então, como conciliar o hábito de ler com o prazer? Parece-me meio contraditório, já que o hábito por sua própria definição há de excluir o prazer. Se o hábito for de ter prazer caímos nos vícios mais vis que atuam na humanidade. A leitura por ter de se tornar um hábito não pode estar associada ao prazer, mas sim ao jeito de ser do sujeito. Quem nega que entender um livro simplesmente não depende de nós? Podemos passar anos e anos lendo o mesmo livro, mas se o conhecimento que ali se encontra não mostrar-se para nós, nunca o saberemos.

Mas voltemos ao principio da leitura. O começo de qualquer hábito de leitura deve ser estimulado com livros de ficção. Romances, aventuras, seres fantásticos etc. É notável que na idade em que a criança aprende a ler ela é incapaz pela própria estrutura mental que possui de perceber as verdades análogas e simbólicas de um texto. Ela pode tirar dali procedimentos morais ou ordens imediatas. Idéias como honra, honestidade, amor, carinho, dedicação, sacrifício, só vão ser compreensíveis a ela na medida em que for crescendo. Digo que o começo da leitura só pode ser poético, ou seja, ficcional, pois a própria criança trabalha mentalmente com o pensamento poético. Ela acha que a própria estrutura da realidade é fantástica.

É justamente essa incapacidade de realizar mentalmente o que pensa como realidade que leva a criança a achar que tudo o que vive é mera regra de jogo. Quando ela brinca acontece exatamente isso. “Agora eu sou o Batman e você o Robin” diz uma criança a outra. A partir daquele momento a regra está valendo e elas se comportam exatamente como o Batman e o Robin. Nessa mesma medida estão as ordens expressas dos pais como: “não se debruce pela janela, você pode cair e se machucar muito feio”. A criança acha que isso é uma regra de jogo, do tipo “agora vamos todos brincar que não pode se debruçar na janela”. Enquanto que os pais, avós, irmãos e amigos não debrucem, ela vai seguir essa ordem. Ou passamos a entender porque a criança em determinadas horas passa a desafiar o pai, debruçando-se na janela. Se a criança tivesse a mínima noção do que está fazendo ela não poria em risco a própria vida só para “testar” o pai. Ela quer saber quão séria é aquela regra.

A incapacidade estrutural de uma mente infantil está aí delimitada. Por isso que ela gosta de jogar e brincar. Pois para ela tudo é uma brincadeira. Aprender na escola que “2 + 2 = 4” é uma regra de jogo e ela só aprende e introduz isso como conhecimento na medida em que ao brincar dessa forma vê que na realidade cada brinquedo é um, dois brinquedos são um mais um e o dobro é quatro. São quatro brinquedos. Ou seja na brincadeira geral dois mais dois são quatro. Mas basta que martelem em sua cabeça que dois mais dois são cinco para que ela fique confusa e clame a autoridade dos pais para restabelecer a regra original. A mente da criança é primariamente lúdica, e é por isso que aprende tudo com muito mais facilidade. Ela aprende tudo brincando, pois é a estrutura da realidade uma brincadeira.

Ao mesmo tempo em que aprende tudo de maneira mais fácil ela carece de certezas, pois essas dependem da capacidade individual de testemunhar as verdades anunciadas e verificar por si mesmo sua validade. Ou seja o que falta na criança sobra do adulto. Mas esse só vai poder ser capaz de testemunhar e validar o que conhece, se tiver primeiro a abertura para o conhecimento. Essa se dá sempre no nível poético. Agora mesmo vou escrever ao leitor uma informação: “o primeiro sujeito que utilizou a palavra Filósofo pela história registrada foi Pitágoras”. O leitor leu essa frase e ela entrou em seu esquema mental como uma informação lúdica. Ou seja, uma história qualquer. Para que tenha certeza de que a frase seja algo real e correspondente ele terá que se esforçar. Primeiro em procurar validar isso através de outras fontes, depois processando em sua mente essa afirmação até que ela assente em uma mensagem provável.

É justamente nesse processo que discordo do autor do primeiro texto sobre os Livros. Para ele,

“Ler livros é muito mais do que recolher informação através de palavras num texto. Há um aumento extraordinário no desempenho do cérebro humano no estabelecimento de novas sinapses durante a conversão de simples palavras em imagens, sons, sensações e evocação de memórias. Para que um texto faça sentido, o cérebro não apenas reconhece as palavras - atribui um significado a cada uma delas, separando uma imagem a qual ela se relacione e um som que ela evoque, concatenando simples letras em um papel para compor um quadro que faça um sentido. Tudo isso segue para o registro de informações, interligando todos os sentidos à memorização, compreensão, análise emocional e percepção. Quando se lê um texto sobre Nova Iorque, vê-se a cidade, ouve-se o seu som, percebe-se o seu cheiro e sensações, se sentindo presente na cidade americana. Nenhuma das mídias proporciona isso.”

Ele reduz tudo ao cérebro. O cérebro tem função parcial, ou se podemos dizer mínima, nesse processo inteiro. A intelecção poética, a depuração intelectual, vai muito além do cérebro. Para que o sujeito absorva uma informação, processe e a classifique, e posteriormente a transponha de volta para a realidade, é necessário um intelecto, uma razão superior que não apenas o cérebro que é apenas um meio para nós inteligirmos.

Vejamos, se o cérebro fosse o diferenciador consciente ele seria capaz por si mesmo de dizer se uma sinapse advém da realidade objetiva ou de uma alucinação. Estudos mostram que a área utilizada para processar a visão e a mesma área que é utilizada pela imaginação. Se o cérebro fosse a própria consciência, a intelecção de que sonhamos não seria possível. Confundiríamos plenamente sonho, realidade, alucinação e imaginação volitiva. O estímulo que nos chega ao cérebro já não é mais cadeira, nem mesa, nem texto, nem palavra e nem significado. É uma sinapse, uma transcrição de algo. Quem reconhece o que é o que é outra coisa, que não o cérebro. Um sistema não pode reconhecer dados fora do próprio sistema.

A palavra é uma coisa, a impressão na retina da palavra é outra, a informação que chega ao cérebro é outra ainda, e a nossa interpretação é algo qualitativamente diferente. Por isso que a criança consegue viver num mundo real achando tudo fantasia, ela ainda é incapaz de relacionar seu discurso mental com a realidade de fato. Para ela a frase “não debruce na janela” é algo diferente do ato real de debruçar-se na janela. O seu cérebro já capta as duas coisas, mas o sujeito que utiliza o cérebro é incapaz de fazer o link.

A leitura é essencial na medida em que a criança seja capaz, e cada vez mais capaz, de fazer esses links. O que ali está exposto contém uma parcela de realidade. De consistência concreta da realidade. E isso se dá justamente pelo pensamento analógico ou simbólico.

A aprendizagem pelo RPG, ou jogos de representação de papéis, nunca funcionaria se a correspondência entre uma experiência de fantasia não pudesse, analogicamente, ser transposta para a realidade como ato concreto. Assim matar alguém sem motivo algum tanto no jogo quanto na realidade é algo desastroso, e eterno. O ato possui uma qualidade concreta na realidade. Depois de ser feito não pode nunca ser revertido. Está feito. Assim se um ataque do Sudão com 5 exércitos para o Brasil com 2 for mal sucedido as 2 peças perdidas não voltarão. Aí reside a diferença etária dos jogos. Aqueles que exigem dos participantes estratégias consistentes, em que um ato não pode ser revertido, vão acompanhando a capacidade intelectual do individuo que joga o jogo. Se ele é incapaz de transpor para a realidade a consistência definitiva do jogo, ele não pode jogar os jogos que vão cercá-lo com essa regra. Um jogo de videogame, por exemplo, pode ser eternamente repetido até que um acerto ocorra. Mas um jogo com mais de um participante terá efeitos imediatos em que o jogador se verá na posição de reavaliar todo o modo de jogar a cada rodada.

Quando George Orwell escreve seu 1984 ele expõe uma realidade que não só é possível como vem sendo aplicada sistematicamente nas últimas décadas. Leva o leitor a se perguntar se aquilo foi uma previsão ou um plano exibido. Assim os Protocolos dos Sábios de Sião foram lançados, e logo depois desmascarados como “esquema” montado para incriminar os judeus de um plano para dominação global. Sendo que o processo é justamente esse que ocorre hoje em dia, a aplicação exata daquela “farsa” que por ter sido assim declarada, não passa pelos olhos dos mais incautos como plano deliberado, exibido e desacreditado, somente para depois ser implementado a todo vapor.

A leitura do livro exige do leitor a capacidade de transposição da leitura, análoga e simbólica, para a realidade concreta. Esforço esse que não é prazeroso. Mas é o cerne da leitura. Abrir a mente do sujeito, ou seja abrir o próprio sujeito para as possibilidades reais que ali estão contidas. A grande obra de arte não serve para nada. Não é utilitária. Mas é uma fonte eterna de renovação de possibilidades, trazendo compreensão ao fruidor.

A leitura não estimula sinapses se o leitor mesmo não quiser estimular-se nos processos de digestão e transposição para a realidade do que lê. Esses só são se volitivos, voluntários, e é um processo a ser aprendido, ele não acontece automaticamente.

Ao dizer que os “leitores vorazes” conseguem resolver “quaisquer situações” o autor do texto não faz mais do que estabelecer que a leitura abre a mente do leitor para as possibilidades do real, que vai encarar o real como concretude possível de ações reais. Sem essa consciência o leitor nunca vai transpor o que leu como possibilidade real. E assim é o que acontece hoje. Se a leitura é estimulada pelo prazer, ela nunca servirá de nada, já que o prazer advindo da leitura se dará justamente na medida em que esse processo for benéfico para aquele que lê, e só poderá ser benéfico pela vontade ativa e consciente. Ler um livro por prazer é não ler o que ele tem de mais sincero e oportuno, que é a exposição de possibilidades reais, que é a ampliação efetiva do sujeito para as ações humanas concretas no mundo real.

E esse processo, o processo de transposição, nunca será feito sem a vontade ativa. Nunca teremos alguém que lê por prazer sendo capaz de retirar da leitura todas as suas possibilidades. E essa capacidade de transposição é a capacidade que carece atualmente aos nossos leitores, sejam eles de jornais, revistas, websites, blogs ou livros. O hábito da leitura só pode ser útil se for inútil, na medida em que o leitor se abrir por completo e inserir dentro de seu ser aquela possibilidade ali retratada. E essa capacidade falta e falta muito hoje em dia.

Quarta-feira, Abril 08, 2009

Das primeiras reflexões sobre a mente infantilizada.

Quando reativei meu blog em junho do ano passado tive a intenção deliberada de escrever sobre as notícias diárias. Algo no estilo media watch. Que é justamente o ato de expor certos fatos, e verdades, que contradizem diretamente as supostas “notícias” veiculadas pelos nossos mais famosos meios de desinformação, ou seja, toda a grande mídia. Ao longo de meses fiz esse exercício com afinco, lendo todas as notícias do dia e selecionando uma, ou duas, de grande importância a fim de mostrar o outro lado, ou o lado mais correto e assim esclarecer o leitor da situação verdadeira.

O exercício durante meses de um media watch de baixa renda é um ato voluntarioso que não só traz esclarecimentos ao leitor, aos meus quatro leitores, mas traz também úlceras das mais problemáticas. A podridão é tamanha que não há jeito de sair impassível desse exercício. Mas, fato curioso se deu ao longo dos meses em que me dediquei a fazê-lo, quase que diariamente. Percebi que mesmo contando a verdade, elucidando a carapinha de mentiras, os leitores achavam que eu estava me posicionando em relação aos fatos. E isso sim era o pior.

Ou seja, contra a mente infantilizada não basta mostrar a verdade, mas a educar para que seja capaz de percebê-la quando alguém a mostra. Foi com esse intuito que parei meu exercício de media watch e fui estudar o problema do porque estava acontecendo isso. Nesse meio tempo travei contato com uma série de conhecimentos muito fortuitos para a elucidação desse gigantesco dilema. Muitos falam isso ou aquilo do grande filósofo Olavo de Carvalho, mas o que mais tenho a agradecê-lo é a abertura descomunal para as mais variadas fontes de informação, seja em termos de jornais, blogs, livros, pensadores, pensamentos e idéias. Por esses caminhos de leitura e estudo que resolvi sintetizar alguns pensamentos e esclarecer melhor o que o próprio Olavo, em uma aula de seu Seminário de Filosofia (precisamente a aula de Curitiba do dia 26 de outubro de 2002), disse. Algo do tipo: o hábito de raciocinar como se os juízos de realidade fossem decisões humanas, portanto regras de jogo, é um habito que reflete uma estrutura de pensamento infantil. Onde tudo pode ser revogado.

Essas palavras não são as exatas que ele pronuncia, mas a idéia é essa.

Aliado a isso eu já vinha constatando na realidade o comportamento meio torpe de pessoas próximas, adultos e jovens, que se mostram totalmente idiotizados. Mas ao esclarecer-me do que seja um idiota, percebi que o termo que buscava para indicá-los não é realmente esse. Assim cheguei a formular o termo mente infantilizada para designar esse acontecimento real que se passa no mundo. O que me levou a consolidar efetivamente esse pensamento foram as várias conversas que tive com minha psicóloga. Como ela atua diretamente com os problemas das pessoas e diretamente num nível de sinceridade maior do que o habitual, do que em conversas prosaicas p. ex., constatei que quase a totalidade dos casos que ela me contou não possuía uma patologia, mas sim uma carência. Sem querer, antes de atinar com essa idéia da mente infantilizada, disse a ela certa vez que ela era o paizão. Ela ganhava dinheiro para servir como pai e mãe das pessoas, como um porto seguro. Deixo claro que os papos que tenho com minha psicóloga não ferem a ética da profissão, pois nunca sei de quem ela está falando, e nunca surgiu um nome de paciente, que não fosse o meu, em nossas conversas.

Ao continuar meus estudos percebi que as reivindicações que tanto fazem hoje em dia, reivindicando seja lá o que for, pareciam atitudes primariamente infantis. É o esperneio da criança para ganhar aquele brinquedo naquela hora. Qual a diferença entre o primeiro caso e o segundo? No primeiro a criança chora e esperneia, mas logo deixa pra lá aquela idéia, pois percebe efetivamente que aquilo não vai se concretizar no mundo real. Caso o choro e o esperneio funcionem algumas vezes, logo se cria um modo particular de barganha em que o choro será usado sem pensar duas vezes. O clamor por qualquer direito (leia-se privilégio), é o esperneio. Que quando financiado com bilhões de dólares parecem aquelas crianças chatas que pelo incomodo dos pais acaba conseguindo o que quer, mas só porque os pais não querem parecer mal em público. Assim temos algo como o ridículo politicamente correto. Quando há manifestações contra uma guerra ou contra um caso estarrecedor, vá lá, mas ver milhões de pessoas protestando e reivindicando coisas tão baixas e prosaicas é lastimável.

Juntando as peças, que temos hoje? Um bando de seres humanos carentes, que querem um auxílio de uma figura de autoridade e que reivindicam tudo que desejam. Nesse momento, o momento em que pensei isso junto e vi seu paralelo na realidade, me dei conta de que era uma mente infantil propriamente que assim fazia. É típico da criança não saber e não poder, recorrer aos parentes mais próximos para ter atenção, comprovação e aceitação e se render facilmente aos seus desejos. Cunhei então esse termo que não é algo do outro mundo, apenas uma ligeira adaptação, que convém ao caso.

A mente humana possui uma capacidade natural para pensar o real. Observações in loco são tidas como verdadeiras. Antigamente se alguém dissesse que há uma crise mundial e os preços locais continuam os mesmos, os empregos locais continuam firmes e o dia a dia permanece o mesmo, a pessoa iria simplesmente rir da cara do sujeito que pronunciasse tal afirmativa. Antigamente a responsabilidade sobre as crianças e adolescentes era maior. Por um simples motivo, eles viviam sua própria vida. Saíam para a rua para brincar, jogar, soltar pipa, rodar pião... e qualquer confusão ou estresse que porventura viessem a ter era resolvido por eles mesmos. Qualquer confusão, por mínima que seja, em qualquer escola, já envolve a reunião de um quadro disciplinar. Um estresse no prédio já envolve o síndico, normas da convenção condominial. Uma desavença familiar termina em processos judiciais.

A autonomia do indivíduo termina justamente na hora em que ela é regida por um conjunto de infindáveis normas, leis e estatutos. Isso não só tolhe o senso de responsabilidade dele, mas o torna num zumbi que deve andar seguindo as normas o tempo inteiro. O problema maior acontece quando todas as normas obrigam o sujeito a um comportamento neurótico, já que cada passo que dá pode ser punível hora por essa hora por aquela norma. Se não ajudou na coleta seletiva sofre multa do condomínio. Se disse a um amigo em via pública que não é a favor dos homossexuais sofre punição do estado. Se não pediu a nota fiscal na loja está contribuindo com o caixa dois. Se dá a seu filho o que ele quer está cedendo as pressões. Se não dá está sendo intransigente. Somadas todas as normas de conduta que temos hoje, se aplicadas à risca, o sujeito enlouquece.

Está aí justamente o caos de nosso tempo. Ao não ter um centro autônomo dentro de si a pessoa termina por tentar se enquadrar nos termos exteriores. A sua moral é de conveniência. Seu pensamento tolhido pelos slogans politicamente corretos. Mais hora menos hora a cabeça do coitado vai fritar. E não é surpresa que tantas pessoas hoje busquem psicólogos pela simples confusão em que se encontram.

O “adulto responsável” de Viktor Frankl, pelo menos no Brasil, já quase não existe. Essa capacidade de ser uma pessoa com responsabilidade pelos seus atos e autonomia pelos seus pensamentos é dificultada em muito pela opressão circular que sofremos atualmente tanto do legislativo, da mídia e do coletivo popular. E tudo isso tem início em um único lugar. Na escola. Esse antro de subversão atualmente só serve para deixar as pessoas confusas, destruídas e destituídas de autonomia do pensamento. A incapacidade de pensar fora da “violência simbólica” de Pierre Bourdieu, que é aplicada ad eternum, traz prejuízos enormes para as pessoas.

A violência simbólica é o ato de justamente cercar o sentido das palavras e expressões para que o interlocutor não consiga pensar fora daquele quadro definido. A tática para tal é justamente uma das táticas da subversão, desmoralizar o adversário com injúrias e xingamentos assim que ele se utilize de formas semânticas diferentes da imposta. Se o discurso hoje é dominado por uma retórica das possibilidades, qualquer indivíduo que venha com um argumento construído é taxado de louco, reacionário, quando não muito de fascista. Assim evita-se entrar no mérito do argumento e tenta-se destruir a idéia pela desmoralização da pessoa. Assim acontece com a Igreja atualmente. Qualquer ato que não se encaixe na rede simbólica atual logo é contra-atacado com a desmoralização das autoridades eclesiásticas. De mesma maneira com a política e a polícia.

Exemplo claro é o relatório de Protógenes Queirós sobre a Mídia. Ele diz no relatório que a revista Veja perseguiu Renan Calheiros e causou a saída dele da presidência da casa. A violência simbólica está aí plena e atuante. Para esses néscios subversivos não existe verdade ou mentira, mas somente atos a favor ou contra. Ou seja, dentro do quadro simbólico deles não existe a possibilidade de Renan ter feito algo antes e por isso estar sendo noticiado. Mas somente existe a possibilidade de a revista querer isso ou aquilo ao veicular a notícia. Vejam, não estou dizem que não possa existir isso ou aquilo, mas estou dizendo que ele automaticamente descarta uma opção como impossível para dar certeza absoluta a outra. Agora qualquer pessoa que venha a levantar essa mera questão lógica básica será automaticamente taxado de fascista, reacionário, defensor da direita, radical e etc. O problema não vai ser atacado onde ele deve ser, na discussão sobre o caso, mas simplesmente o problema irá sumir nas acusações infundadas e nas discussões sobre “a favor ou contra”, e novamente estaremos dentro do quadro da violência simbólica imposta.

O problema é que qualquer “adulto responsável” de hoje irá invariavelmente sair do quadro da violência simbólica, pois ao pensar com o mínimo de autonomia qualquer indivíduo vai perceber a batatada que é esse discurso subversivo destrutivo. A força da pessoa responsável é atacada em vários níveis pela mídia geral até que sua voz não faça nem eco dentro do seu círculo de amigos. O discurso uníssono do coletivo é reafirmado por cada pessoa em cada partezinha, e com as mesmas armas, pela profusão de impropérios e pela desmoralização de quem fala qualquer coisa do tipo. Ou pela tentativa efusiva dessas táticas. Pela lógica um único idiota não conseguiria desmoralizar uma pessoa decente no meio de um ambiente saudável. Mas quando o próprio ambiente já é contra o tipo de pessoa decente, temos o maior problema de todos.

Foi ao constatar alguns desses fatos na realidade que mudei o foco do que fazia. Perceba o leitor que não basta saber disso que eu estou escrevendo, mas é preciso ter a certeza absoluta do que se passa como se fosse a existência do próprio texto que você agora lê. Até que se perceba concretamente que essas práticas e esses meios são difundidos e reais, o sujeito fica no seu lamaçal mental. Sem uma boa estruturação da mente o indivíduo perde-se no mar de conceitos, idéias, pensamentos, sensações etc. que possui. Pergunte a qualquer pessoa o que é democracia. Pergunte se ele sabe da evolução do sentido da palavra ao longo dos tempos. Pergunte se ele sabe da evolução da real aplicação da democracia na história. Pergunte a ele se ele sabe minimamente relacionar a evolução dos sentidos da palavra com a evolução da aplicação prática desse tipo de governos nos países no mundo. Ele provavelmente vai ficar olhando para a sua cara e vai começar a esboçar um peido verbal. A falta de estrutura para a mente causa que nem sequer ele possa por dedução ou indução começar a supor nada.

Você pode estar se perguntando o seguinte nesse momento: Mas como que eu vou ter que saber tudo isso sobre todos os conceitos, e todas as palavras e todos os objetos? Respondo. Não vai.

O problema aqui é justamente o da estrutura mental. Ilustro abaixo com dois diagramas. Cabe ressaltar que as ilustrações são reducionistas. Elas não levam em conta um sem-número de fatores. Mas ilustram muito bem a desorganização mental da pessoa que não possui nenhuma estrutura (esquema 1) e uma pessoa que já tem a mente com um pouco de estrutura (esquema 2)


Esquema 1


Esquema 2

Vemos claramente como que no esquema dois a pessoa já separa por grupos e categorias assuntos correlatos, logo ela já percebe certas semelhanças que alguns itens reais possuem. Também ela possui uma interseção direta com itens que estão relacionados concretamente no Mundo, enquanto a primeira não possuíam nenhuma interseção. Isso quer dizer que a pessoa do esquema 1 não é capaz de perceber no Mundo, na realidade, nada além do mais imediato a ela.

Imagine agora uma terceira pessoa perguntando para as representadas pelo esquema 1 e o esquema 2 sobre algo tipo o socialismo. Como ilustrado no esquema 1 ela não possui nenhum meio de comparação estruturado, logo ela se vê perdida e confusa. Lógico que ela pode versar sobre o socialismo, mas ela não vai fazer mais nada que repetir chavões e clichês. Já a segunda pessoa, que eu coloquei propositadamente tendo as mesmas informações que a primeira, mas de maneira um pouco mais organizada, terá a capacidade de relacionar democracia com o povo. Podendo falar do socialismo em contraposição à democracia em relação ao povo. Não é o exemplo de perfeição, mas já é muito melhor do que o primeiro caso.

Dessa maneira, pretendo mostrar que ao aplicar um novo termo no conjunto de conhecimentos de alguém, esse alguém será capaz de absorver com muito mais facilidade esse conhecimento se tiver uma estrutura montada em sua mente sobre a qual analisar, inserir e criticar a nova informação. Percebendo que hoje faltam, a estrutura, os meios de inserção, análise e crítica sobre as informações que chegam à maioria das pessoas, elas são incapazes, mentalmente falando, de criar uma idéia, e desenvolver um pensamento minimamente descente sobre o que quer que seja.

Uma mente infantilizada é o contrário de um “adulto responsável”. Essa infantilização é justamente o melhor meio de cercar o sujeito e garantir sua permanência na prisão imposta pelos discursos que aparecem como violência simbólica. Pela mera repetição o indivíduo decora certo conceito. Logo depois, pela incapacidade mental, ele se verá repetindo os mesmos meios pseudo-argumentativos apresentados juntamente ao conceito no discurso da mídia. Com alguns anos desse processo o sujeito já será um mero zumbi, no estilo de Romero mesmo. Mas ao invés de vagar balbuciando “carne” ele balbuciará qualquer slogan embutido em sua mente, e procurará fazer exatamente o que ele disser. Se o slogan da vez for o aquecimento global é bem capaz de brigar com as pessoas mais próximas por que eles gastam muita luz, jogam lixo no chão, não fazem coleta seletiva, sem prestar atenção para o fato dele mesmo não fazer isso.

A acusação sobre outro de uma coisa que o próprio sujeito faz, ou a cobrança sobre outro de uma coisa que o próprio sujeito não faz, é uma das formas mais descaradas de manipulação e violência mental que existe hoje em dia. Ela é explicita nos casos da “moral pro vizinho”. O exército de zumbi só não balbucia, mas aprender a balbuciar protestos e denúncias contra os outros sem sequer saber o que aquilo é realmente, e por conta disso não sabe que ele próprio não faz. Existem outros que sabem muito bem to esquema e o utilizam por má fé. Com o intuito deliberado de acusar alguém ou cobrar feitos impossíveis. Nesse molde temos todas as reivindicações que acontecem hoje. Quando todas elas ao mesmo tempo são reivindicadas isso só pode trazer a falência e a destruição do estado.

Quando um estado tem de sustentar os aposentados, desempregados, inválidos, afastados por licença média, dar licença maternidade, décimo terceiro, férias, garantir o emprego de uma massa de burocratas, garantir os direitos de milhares de grupos, ONGs, minorias (que muitas vezes entram em contradição), de culto religioso, de acabar com o preconceito, de eliminar a homofobia, de garantir a segurança de todos os cidadãos, de fiscalizar cada indivíduo que fuma em ambiente fechado, de garantir que todos os processos (sejam elas quais forem) sejam tramitados com segurança, eficácia e presteza, ao mesmo tempo que o incentivo maciço da televisão sobre os direitos dos consumidores, direitos dos pais, direitos das crianças, direitos dos gays, direitos dos deficientes, além de estimular a denúncias etc. Isso só pode levar a máquina estatal ao colapso total. Esse processo leva anos e anos até que já não mais podendo suportar as pressões e reivindicações, que crescem exponencialmente fomentadas pela mídia e ONGS e instituições independentes, o estado entra em colapso criando uma crise interna.

A mente infantilizada está vulnerável a toda sorte de manipulações sórdidas. Já sem capacidade de pensamento autônomo é incapaz de perceber as contradições, a afirmações ilógicas, e toda sorte de impropérios que chegam aos nossos ouvidos. Outro dia, devido ao terremoto que aconteceu alguns dias atrás na Itália, um especialista foi solicitado na reportagem para dizer que: uma pessoa que tenha um osso quebrado pode sofrer mais riscos e ter menos tempo de vida se não tratado.

O séquito monumental de especialistas é outra fonte primária de confusão, agito e falcatrua. Basta que um auto-denominado especialista venha à público falar qualquer besteira idiota, para que todos passem a agir como se aquilo fosse, não só verdade, mas uma ordem direta de ação. Sendo incapazes de analisar por si mesmos se aquilo que ouviram procede ou não. Quando os nossos jornais diários, pelo menos os televisivos, são preenchidos em mais da metade do tempo com ordens, diretrizes, conselhos e dicas, não resta se não concluir que o intuito deliberado é a manipulação pura e simples. Basta para isso dizer ao sujeito que tudo o que ele ouve na televisão é, pelo menos, passível de controvérsia para que ele concorde com isso. Mas na mesma hora ele já está olhando de cara feia para o sujeito que fuma, por que segundo pesquisas o fumo mata.

Essa incapacidade ABSOLUTA de ter uma unidade mental e consciente é o pior mal que pode ter um indivíduo. Ele é incapaz de dizer algo que realmente signifique alguma coisa. E é incapaz de articular sua linguagem, suas construções, com os fatos concretos do mundo. Para ele “o radicalismo islâmico quer destruir Israel, ou seja, matar todos os judeus do mundo” é uma mera frase tipo literária pop. Não quer dizer realmente NADA. É algo insosso. Ele pode até contestar, falando meia dúzia de idéias soltas, mas aquilo realmente para ele não significa algo como o cheio de fumaça seguido de um grito “Tá pegando fogo!”.

Quando um sujeito não percebe, e tem a cognição de, que: “O Irã está construindo uma bomba nuclear para destruir Israel.” é tão concreto e real quanto a maçã que ele está comendo ele possui problemas reais mentais. E é justamente isso que, em suma, é a mente infantilizada. Ela é incapaz de perceber na realidade o que é real e o que não é. Assim a linguagem de que se utiliza é um mero construto fantasmático. E a realidade é outra coisa que ele não consegue ter a real noção. Quando constatamos que o sujeito está assim condicionado e afetado, não há verdade exposta na frente dele que dê jeito. Pode-se declarar uma lista das verdades mais patentes, que elas continuarão para ele sendo meras opiniões, tomadas de posição ou histórias da carochinha.

Reverter esse quadro mental é muito difícil em uma adolescente e numa criança. É praticamente impossível em um adulto. Pois para que tal seja feito requer uma dose de vontade do indivíduo autônomo. Se nem a autonomia mental existe, quiçá a vontade para usá-la.

Segunda-feira, Abril 06, 2009

Sintomas da crise da infantilidade mental

É difícil conversar com alguém que não possui as mesmas bases que nós, e por isso, nesse caso, a troca de idéias é muito dificultada. O tempo exigido para que o outro entenda todas as nossas premissas, para então conseguir avaliar o que dizemos com alguma paridade intelectual, torna a tarefa impossível. Um debate que sempre se torna intragável para mim é o do gosto. Sempre paira no ar um super-subjetivismo respeitoso onde todos dizem o que acham e nunca se pode opinar sobre a opinião alheia, pois nesse caso você está sendo rude, desrespeitoso e mal-educado.


Em várias vezes tenho a impressão que não conseguem entender o que digo, da maneira mais clara possível. Vou exemplificar. Outro dia conversava com uma amiga de um amigo, a conheci naquele momento. Ela dizia que foi ver o filme O Curioso Caso de Benjamin Button e que achou o filme muito bom. Logo rebati que o filme é ruim. Ela, pelo que se passou, não aceitou a minha frase como uma observação externa, mas como uma impressão interna. Nesse momento eu não quis mais discutir o caso, não pelo abandono do debate, mas pela percepção que de todas as bases que eu podia pensar para invalidar essa impressão dela me tomariam no mínimo algumas horas de explicações extras. Essas explicações não versariam sobre nada do que conversávamos, mas seria como asfaltar uma rua para que então pudéssemos rodar sobre ela.

Eis aqui um argumento por demais simples para que possamos começar a pensar sobre esse assunto do gosto de do filme.

O fato mais simples e claro está condicionado pelo tempo. Ou seja, primeiro o sujeito fez o filme e depois você o assistiu. O filme existindo como objeto anterior possui propriedades próprias independentes da existência de qualquer gosto posterior, ou seja ele foi elaborado como a escolha deliberada do diretor. Eis que logo após ver um filme alguém nos diz: “Nossa, esse filme é muito bom”. Logo em seguida você pergunta: “Mas porque você achou isso?”, a pessoa prontamente responde: “Oras, por que eu gostei”.

A pergunta que cabe aqui é a seguinte: O filme se torna bom porque você gosta dele, ou você gosta dele porque ele é bom?

Respondendo a primeira parte da pergunta podemos ter a resposta de que o filme se torna bom porque gostamos dele, ou que ele se torna bom para nós, só e somente. Na primeira temos um caso de capacidades extraordinárias, onde seu gosto consegue por um poder sobrenatural interferir no filme como objeto e transformá-lo. Lógico que quando o sujeito se vê confrontado com essa impossibilidade concreta ele foge para a segunda resposta. Que o filme é bom para ele. Nesse caso temos duas possibilidades mais sólidas. Ou ele nos diz em que consiste um filme bom para ele, ou ele nos diz que é questão de gosto, impressão difusa e caótica, que devolve para ele um carimbo de gostei ou não gostei. Agora, se ele nos disser em que consiste um filme bom para ele, temos um novo caminho. Suponhamos que seja uma pessoa rude e simplória e nos diga que um filme bom é aquele que tem muita ação. Perguntaríamos, então, se todos os filmes que apresentam muita ação são bons. Se ele nos disser que sim, paramos por ali, pois nada mais podemos fazer, já que ele não possui critério algum, além do original, que por isso mesmo passa a ser suspeito. Se o sujeito é mais bem ajustado da cabeça ele nos dirá que não. Assim prosseguiríamos até que ele nos dissesse que para ele um filme bom há de ter isso, aquilo e aquilo outro, dessa e daquela maneira, nessa ou em outra medida. O que já se configura um critério pelo qual podemos entender o seu gosto, mas nunca o filme em si. A partir daqui podemos perguntar para ele se o que ele acha de um filme está nele ou no filme. Em outras palavras, a “muita ação” está na mente dele ou no filme que ele vê? Aqui só existe uma resposta possível: no filme. É no filme que encontraremos o que vamos analisar e concluir se ele possui muita ou pouca ação. E se gostaremos ou não dele. Nesse momento mostramos ao sujeito que o filme não é bom para ele, mas o filme possui um conjunto que é igual para todos que o assistem. Aqui temos a separação tácita entre o “eu gostei do filme” e “o filme é bom”.

Na primeira frase fala-se do gosto do sujeito, a posteriori. Na segunda, fala-se do filme em si. É visível que são duas coisas completamente diferentes. Um filme possui um conjunto organizado, ou não, de uma série de itens como elenco, fotografia, roteiro, direção, trilha sonora, edição, captação e edição de som, pós-produção, efeitos gráficos reais e/ou digitais, etc. Esses itens são ordenados de tal maneira que o filme como produto final surge. Do momento que ele surgiu todos esses itens somados não dão o filme, mas o filme pressupõe que todos esses itens estejam presentes. O filme é aquele conjunto de itens somados e arranjados de tal maneira que a configuração seja única e indivisível. Ao discutir sobre um filme temos todos esses elementos nos quais nos basearmos para nossa análise. Sem contar com os campos da lógica elementar interna de cada item e entre os itens citados. Ou seja, quando analisamos e dizemos que um filme é ruim, temos como base uma série de critérios pelos quais avaliamos o filme e que no fim a conclusão da análise será traduzível em “bom filme”, “ótimo filme”, “péssimo filme” etc. Quando pronunciamos algo do tipo, fazemos uma afirmação sobre algo externo. Afirmar que “o filme é bom” vale para todos.

Ao contrário, quando falamos “eu gostei do filme” trazemos o campo de análise para dentro de nós e nos fincamos nele, e pela lógica da coisa ninguém pode discordar da gente. Já que é nossa opinião e pronto. Quando se confunde o filme, como objeto, com a nossa impressão dele, cometemos o erro de achar que nós somos o filme, ou nosso gosto é o filme. Nesse caso é óbvio que nunca se pode discutir a validade de um objeto pelo que ele apresenta, mas pela nossa impressão dele. É justamente o caminho da arte impressionista, expressionista, cubista, desconstrucionista etc.

O problema maior é chegar ao relativismo do super-subjetivismo e afirmar que se alguém gosta do filme ele é válido. “Você não gosta do filme, mas fulano gosta”. Toma-se o filme pelo gosto daquele que o assiste. Ou seja, perde-se qualquer pretensão artística para um mero agradar, ou não agradar, aquele que vê. O filme não se pretende mais a realizar-se artisticamente trazendo compreensão. Ele não possui mais lógica interna, mas mero apelo. É impossível analisar algo que apela ao gosto, que não possui coerência interna alguma. O filme não remete mais a nada externamente. Caímos no campo do relativo, dos gostos subjetivos associativos. É como se quando dissemos “2 + 2 = 4” o sujeito que ouve ou lê a afirmativa dissesse “gosto” ou “não gosto”. Quando na verdade é uma mera questão de verdade ou falsidade. Num filme devemos ver a lógica interna dele e, então, dizermos que gostamos ou não. Mas nunca podemos inverter a ordem ao dizer que gostamos de tal filme, por isso ele é bom.

Essa mesma explicação cabe à música, às artes gráficas, artes plásticas, à escultura, literatura etc. Ignorar que um objeto construído como possuidor de valor artístico há de possuir uma estrutura própria, é relegar ao impossível sua análise, e por tabela, ao gosto da fruição. Eliminar o fator concreto da obra para observar apenas a impressão subjetiva é a maneira mais torpe daqueles que não possuem as ferramentas para analisar uma obra. E se colocarmos a questão em âmbito mais amplo veremos que não só há uma falta de ferramentas para o entendimento de obras artísticas, mas de uma interpretação do mundo geral. A falta de esquemas para conseguir enxergar o mundo como algo concreto bate justamente naquela distância entre o que é pensado e o que é de verdade. O possuidor da verdade ganha automaticamente responsabilidade pelo que sabe. É estranho ver como as pessoas atualmente se sentem tocadas e atingidas por coisas que não dependem delas. Como o exemplo do filme que dei mais acima. Ao dizer que o filme é ruim, pois é realmente, a pessoa toma a crítica como se fosse a ela própria. A discussão sobre se o método de avaliação de um filme está correto ou não é outra conversa. Mas o assunto nunca chega perto desse nível. Coisas como “mas o filme me fez pensar muitas coisas”, quando na verdade não entendem que o filme não serve pra fazer pensar. Todos pensamos. Pensamos o tempo inteiro. A única diferença de um pensamento a outro é a pretensão que o sujeito pensante lhe dá. Adequar o mundo a seus esquemas fracos é relegar ao entendimento o mínimo possível de trabalho, e por isso mesmo não entender nada. Achar que entendeu, nesse caso, é pior ainda.

Sair da esfera do “eu gosto” para a esfera do “esse filme é ruim” requer uma dose de coragem muito grande. Ainda mais quando a crítica hoje em dia, pelo menos a cinematográfica, avalia um filme pela potencialidade dos espectadores gostarem dele ou não. A recomendação é justamente “vá ver” ou “não vá ver”. Coisas como: os fãs do gênero da comédia romântica vão gostar. Ou seja, aplicar um critério que avalia uma obra pelo número de pessoas que vão gostar ou não é o modo de avaliação mais precário possível.

A incapacidade plena de ter um posicionamento fixo em relação a realidade é um problema estrutural dos mais graves. Saber, e ter a integridade, de dizer se isso é ou não é, ou se isso é desse ou daquele jeito, demanda um posicionamento em relação ao mundo exterior que vai além do mero posicionamento do “gosto” ou “não gosto”.

Imagine explicitar esses pontos antes de iniciar qualquer conversa sobre a avaliação de uma obra exterior? Imagine agora desdobrar esses pontos na profundidade adequada para ser capaz de qualquer avaliação séria? Agora me diga se é possível partir da mesma base que outra pessoa, que não conhece tais coisas, ou nunca parou para pensar sobre o assunto? A constatação final não de que a pessoa outra não sabe disso ou daquilo, mas ela não possui a estrutura mental para entender isso nem aquilo. Criar uma estrutura mental é muito mais complicado. E é essa justamente a função da educação. Quando a educação falha em criar um mínimo de estrutura mental ao sujeito, ela falha em tudo, o deixando capenga. E se antes as muletas intelectuais que eram usadas pelas pessoas se restringiam ao seu grupo de vivência, hoje é ao maciço ataque nonstop dos slogans da hora da mídia, que está em todos os lugares ao mesmo tempo. Seja na televisão, no rádio, nos impressos, nos meios eletrônicos etc. Quando vemos a mesma notícia ser veiculada ao mesmo tempo no mundo inteiro da mesma forma... perguntamo-nos se algum infeliz não pensou um pouquinho diferente do outro para escrever uma nota.

Não só no âmbito da arte isso acontece. Mas em todos os âmbitos.O que torna um político melhor? Seu gosto e sua aprovação? Dificilmente. Ou o político é bom e pode ser analisado independentemente do nosso gosto ou ele só pode ser avaliado pela nossa simpatia. Infelizmente muitos sentimentos favoráveis não transformam ninguém. Sempre que vamos enveredar por um caminho como esse terminamos no mesmo âmbito, o da lógica do bom senso. Não se pretende com isso estabelecer um alto padrão de análise para todos. O problema maior está no simples fato de que afastadas da doutrinação diária incessante e maciça as pessoas conseguem ver as coisas com o mínimo de correção possível.

Ninguém em sã consciência acharia que é culpado pelo bandido ter-lhe assaltado, ou atirado, ou esfaqueado, ou fuzilado etc. Hoje achamos. Ninguém em sã consciência acharia que é ruim trabalhar com esforço e afinco para construir o que se quer e lutar pelo que se acredita, hoje sim. Ninguém em sã consciência acharia que roubar dinheiro é mais grave que matar uma pessoa, seja ela quem for, mas hoje muitos acham.

Todo o problema do julgamento, seja poético ou criminal, está na justa medida das compensações. A justiça é exatamente isso, o bom senso do equilíbrio das compensações. Ninguém acharia uma injustiça um sujeito levar um tapa na cara da mulher que ele acabou de passar a mão. É, em certa medida, uma forma justa de compensação. Agora, todos acharíamos uma injustiça o sujeito arrancar a cabeça de outro e tacar fogo no corpo por que houve uma desavença em relação a torcida de times de futebol.

Dessa mesma maneira é impossível ter um julgamento, interior, moral, sem esse quadro de justa medida. Todas as regras morais são universais, a aplicação em cada caso está restrita às capacidades individuais de cada um. Ou seja, terminar com a responsabilidade individual, e com o senso das proporções, é o passo maior para a desestruturação de uma sociedade. Pela lógica da coisa o primeiro sintoma disso vem nas coisas mais imediatas. Nas manifestações individuais, já que as coletivas demoram um tempo para se metamorfosearem. As manifestações mais visíveis que vem de indivíduos são as artísticas e literárias, sejam ficcionais ou teóricas. Um sujeito pode mudar o rumo de uma sociedade, se esta estiver disposta e aberta a esse tipo de recepção. É muito difícil que um grupo muito grande de pessoas consiga pela articulação apenas fazer com que um sujeito suma do mapa no imaginário popular. Em sociedades modernas, em que cada indivíduo deveria ter certa dose de autonomia, é praticamente impossível que muitas pessoas tenham as mesmas idéias na mesma hora e adotem uma mesma postura ao mesmo tempo. Imagine o caso de uma manifestação de quinhentas mil pessoas na Avenida Paulista aconteça porque todos os participantes tiveram individualmente a idéia de naquele dia e naquela hora ir protestar. Parece algo sobrenatural. É impossível que isso aconteça.

Todas as manifestações de massa precisam de coordenação e organização. Onde existir um grupo que se mantém coeso e coerente por muito tempo há uma organização. Podemos supor que ao redor do mundo, com culturas tão diferentes os vários jornais das várias localidades noticiem exatamente a mesma notícia do mesmo jeito? É natural que todos os opinadores público defendam sempre as mesmas coisas dos mesmos jeitos? É natural que o mesmo slogan sirva da Papua Guiné até o Alaska?

Quando percebemos essas mínimas coisas, que são grandes coisas, começamos a entender que todo o movimento global de notícias não pode surgir do nada aleatoriamente ao mesmo tempo com as mesmas informações. Tem que existir uma coordenação por trás. O que seja essa coordenação, quem é que está organizando, como se dá isso...? São outras perguntas que decorrem da aceitação do primeiro fato. Essas podem entrar no debate. Mas a incapacidade de enxergar o fato que sucinta as questões é ignorar o básico.

Se ao redor do mundo os jovens e adolescentes agem da mesma forma, ao mesmo tempo, mudando paradigmaticamente a linha da normalidade, isso não é mera coincidência.

Se já é complicado, nos padrões mentais atuais, de perceber o fato, imagine fazer as análises e correlações que decorrem dele? Discutir com o colega no bar se o filme é bom ou ruim, onde um fala “sobre” o filme e o outro fala “do que ele acha” do filme, é um sintoma, menor, da falta de estruturas que é um problema muito maior. Comecei a notar o quadro geral com constatações simples e pequenas. Amigos já não sabem mais do que estão falando. Colegas já não reconhecem mais o que é realidade e o que é o gosto. A falta de perspectivas para pensar sobre isso ou aquilo atrapalha imediatamente uma aproximação a uma garota. E assim foi crescendo e crescendo. Até que tomei conhecimento com algumas informações que me abriram caminho para outras e mais outras. Organizar todas as informações com um mínimo de clareza foi outro processo. Tentar achar correspondentes externos para as minhas organizações internas algo muito mais trabalhoso.

É por essas e outras que atualmente evito discutir e debater, principalmente se houver mais de duas pessoas na conversa. Cair na asneira de conversar com mais de dois é pedir para ser emudecido pelo coro em uníssono dos néscios unidos. O slogan da moda deveria ser: “Néscios unidos, jamais serão sabidos!”

Quinta-feira, Março 19, 2009

Apêndice à Mente Infantilizada: Exposição e proposta de cura

Em meu último post concluí uma série crescente de três textos explicativos sobre o que eu chamei da Mente Infantilizada. Essa doença mental que acontece hoje em dia não é mero reflexo de descaso das pessoas. É um estado mental condicionado perfeitamente pelas mais variadas formas da campanha subversiva. Em ação há muitos anos, décadas, a ação subversiva tem como ponto básico, primeiro passo da subversão, desestruturar a moral e os valores tradicionais de um povo. Essa parte já foi completada há muito tempo e hoje colhemos os frutos de uma geração posterior que já nasceu sem referências.

A função primária dos pais é educar os filhos, e mais nada. Se os pais não educam seus filhos, esses serão descontinuidades dos valores e padrões morais. Essa regra básica e visível é clara e objetiva e todos podem verificar na realidade. Seja lá como for que os pais eduquem seus filhos, se com amor e dedicação, por mais que seja falha, e sempre vai ser, essa educação vai gerar um novo indivíduo que poderá por conta própria sobreviver e se corrigir ao longo de sua vida das falhas que possui, mas sem perder o núcleo dos valores que serão necessários tanto para ele quanto para a sociedade.

Qual é, então, a primeira regra da subversão? Negar todos os valores.

A relativização dos valores em todos os níveis é a função primária do movimento subversivo. Esse movimento revolucionário possui um único alvo, que quando atingido e destruído termina por acabar de vez com todos os valores tradicionais. A família. A constituição da família é o manancial que garante a propagação dos valores, da moral, da decência etc. Quando os pais não educam devidamente os seus filhos eles crescem e nunca se tornam adultos, com responsabilidade, mas crescem infantilizados. A isso eu chamo categoricamente de mente infantilizada.

Como se dá a desestruturação da família? Simples. Algumas regras básicas podem ser traçadas e todo o resto se assentará nelas. Vamos enumerá-las:

1) Estímulo ao divórcio.
Ex. “Estudo do BID relaciona novelas a divórcios no Brasil – Um estudo do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) sugere uma ligação entre as populares novelas da TV Globo e um aumento no número de divórcios no Brasil nas últimas décadas.”
http://www.bbc.co.uk/portuguese/reporterbbc/story/2009/01/090130_noveladivorciobrasil_np.shtml


2) Direitos feministas.
Ex. “Rede feminista vai monitorar a imagem da mulher na mídia – Cerca de 150 integrantes de movimentos feministas decidiram criar uma rede para monitoramento e controle da imagem da mulher na mídia. As militantes participaram do seminário Controle Social da Imagem da Mulher na Mídia, encerrado domingo (15) em São Paulo.”
http://correio24horas.globo.com/noticias/noticia.asp?codigo=21394&mdl=27


3) Estímulo ao homossexualismo.
Ex. “Público da Parada Gay caiu para 3,4 milhões, diz ONG após medição – Depois de três dias, a Associação da Parada do Orgulho GLBT de São Paulo divulgou, nesta quarta-feira (28), sua estimativa de público para o evento, cuja 12ª edição foi realizada no último domingo. Nos cálculos da ONG, foram cerca de 3,4 milhões de participantes. Pela primeira vez, o número é menor do que o registrado no ano anterior (3,5 milhões) pelos organizadores.”
http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u406419.shtml


4) Fomento ao aborto.
Ex. “Menina de 9 anos estuprada por padrasto é submetida a aborto em Recife – A menina de 9 anos abusada pelo padrasto em Alagoinha, em Pernambuco, e grávida de gêmeos, realizou aborto na manhã desta quarta-feira na Maternidade Cisam, vinculada à Universidade de Pernambuco, no Recife. Segundo o diretor médico Sérgio Cabral, responsável pelo procedimento, os dois fetos já foram expelidos. A equipe médica realizou ainda uma curetagem. Segundo Cabral, o aborto em caso de estupro é legal . O padrastro da criança, Jailson José da Silva, confessou o crime, e está preso na Delegacia de Pesqueira, no agreste pernambucano.”
http://oglobo.globo.com/pais/cidades/mat/2009/03/04/menina-de-9-anos-estuprada-por-padrasto-submetida-aborto-em-recife-754680349.asp


5) Direitos da criança e do adolescente.
Ex. “Especialista alerta: Tratado da ONU proibirá disciplina física e educação escolar em casa se filhos objetarem – O tratado internacional cria direitos civis, econômicos, sociais e culturais específicos para todas as crianças e declara que “os melhores interesses da criança receberão consideração prioritária”. Quem fará a monitoração desses direitos é a CDC, que tem poderes para forçar os países signatários a obedecer.”
http://juliosevero.blogspot.com/2009/02/ameaca-da-onu-destruicao-dos-direitos.html


6) Hedonismo sexual.
Ex. Basta ler qualquer revista Nova ou Vogue como exemplo rápido.
Ex2. Benedito Ruy Barbosa critica 'putaria' em novelas da Rede Globo – “As novelas hoje só mostram ‘putaria’. Nenhuma mulher quer ver outra que, no quinto capítulo, já dormiu com três ou quatro caras”, disse.
http://www.gp1.com.br/noticias/benedito-ruy-barbosa-critica-putaria-em-novelas-da-rede-globo-66013.asp

Ex3. "NOVA a favor do orgasmo - sempre! - Quer apimentar ainda mais sua relação? NOVA selecionou posições, curiosidades, passo-a-passo e muito mais para que você e seu amor divirtam-se muito e tenham manhãs, tardes e noites incendiárias, i-nes-que-cí-veis, repletas de prazer."
http://nova.abril.com.br/especiais/guia-orgasmo/

7) Mudança do comportamento pela lavagem cerebral. Apoiado pelos “especialistas”.
Ex. “Chocolate amargo diminui o apetite” ou “Vegetarianos correm menos risco de câncer” ou ainda “Escolha adequada da trilha sonora na atividade física melhora rendimento”. Até o infinito.

8) Destruir a Igreja Católica.
Ex. “Enfermeira é suspensa após orar por paciente — Foi anunciado que os funcionários do NHS (Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido) que falarem sobre sua religião com os pacientes podem perder seu emprego.”
http://juliosevero.blogspot.com/2009/02/enfermeira-e-suspensa-apos-orar-por.html

***

Posso ter-me esquecido de alguma outra forma de subversão, mas essas oito são as principais. Elas são usadas sistematicamente para destruir o núcleo familiar. E consequentemente fazer com que os filhos já nasçam em um ambiente propício para a nova forma de poder que querem implementar. Afinal é mais fácil dominar uma criança que um adulto.

A tática da revolução é substituir tudo por palavras de ordem. Transformar todos os cidadãos em militantes, em vozes da consciência revolucionária geral. A patrulha ideológica já atingiu camadas várias mais estratificadas. Assim uma discussão é “ganha” pelo que grita mais alto e consegue atrair mais comparsas para o seu lado. Transformar tudo em palavras de ordem requer que se divida o mesmo mundo concreto em vários submundos ilusórios. Esses são as histórias infantis que contam para cada grupinho que se sente no direito de dizer que o seu mundo é mais válido que outro. Temos o grupinho feminista que diz que o mundo feminino deve ser defendido, como se essa história da carochinha existisse. Temos o grupinho dos homossexuais que crêem fortemente que o mundo heterossexual quer os oprimir. Temos o grupinho dos negros que lutam pela reparação do branco ao mundo negro. E assim sucessivamente.

Ao segmentar a realidade em diversas camadas ilusórias o movimento subversivo só consegue ser aceito por todos aqueles que possuem uma mente debilitada. Uma mente que não cresceu e não está madura para ver o mundo como ele é. Mas o processo é tão bem engendrado que praticamente não há pessoas apontáveis que estão no comando. Uma vez largadas na sociedade sem qualquer educação as mente infantilizadas vão criando um gigantesco ambiente a lá O Senhor das Moscas. O cúmulo da patetice aguda chega quando vemos na Câmara dos Deputados uma néscia chorar porque foi chamada de FEIA, repito, FEIA (“...Cida relatou que Hernandez teria dito que ela era ‘tão feia que não poderia nem ser puta’.”)
http://ultimosegundo.ig.com.br/brasil/2007/05/09/clodovil_agride_verbalmente_deputada_781702.html


Essa realidade é mais notável ainda quando vemos a vida mental interna dos nossos adultos. Isso para nem mencionar as dos jovens. E para chorar de tristeza podemos mencionar a dos nossos adolescentes. Como sabemos procuramos expressar nossos pensamentos com uma linguagem, no nosso caso a portuguesa. O que é muito preocupante é que a deterioração do domínio da língua por nossos cidadãos os torna mais vulneráveis ainda. E isso mostra com mais agudeza a gravidade do problema.

Diz Eugen Rosenstock no seu livro A Origem da Linguagem que as línguas formais são predominantemente nominais e as informais são predominantemente pronominais. Isso quer dizer que enquanto a língua formal se utiliza primariamente de nomes para se expressar, a língua informal, caracteristicamente a dos adolescentes e das crianças, se utiliza dos pronomes. Enquanto uma língua formal diz “apartamento”, “corrimão”, “galho”, “carro” etc., a informal ataca com “isso”, “aquilo”, “coisa”, “negócio”, “troço” etc. para referir-se a toda a gama de objetos e unidades do real. Ainda mais grave é a utilização das gírias pela linguagem informal.

A falta de exatidão mental reflete no descaso lingüístico. Esse processo, entretanto, é natural e é devidamente corrigido com o ensino eficiente da língua. A realidade é percebida pela pessoa e depois referida pela linguagem. Quando o sujeito nunca aprende a referir-se devidamente ao que experimenta isso só pode fomentar em sua mente uma pasta disforme, que é como acaba enxergando o mundo. Em uma sociedade em que os cidadãos não conseguem diferenciar na prática o que é “depressão” de “angústia”, “tristeza”, “aflição”, “inquietação”, “infelicidade”, “luto”, “desânimo”, “nervosismo” etc., só podemos esperar que qualquer discurso que se utilize dessas palavras nunca vá alcançar qualquer efeito real na mente do indivíduo.

Vemos que hoje em dia qualquer discussão, ou conversa, recai rapidamente em um verbalismo sem sentido, onde o que é dito nunca é referido com propriedade na realidade em que se vive. E se encontramos palavras de ordem repetidas à exaustão como: “a religião é o ópio do povo” ou “tudo é relativo”, isso só pode se dar por conta dessa separação abismal entre o verbalismo descontrolado e a falta de propriedade mental substancial daquele que fala.

Se o manejo da língua é um benefício para o indivíduo, ao ajudá-lo a identificar e diferenciar as várias camadas e partes da realidade em que vive, só podemos concluir que esses métodos pedagógicos e educacionais, que desprivilegiam o ensino consistente da gramática e da sintaxe, assim como a expansão do vocabulário e o aprendizado das figuras de linguagem, formas retóricas etc., só podem trazer ao indivíduo o rebaixamento da sua mente a nível infantil.

Toda a luta de pedagogos por uma tal “liberdade” do ensino só pode ser vista como a liberdade mais tosca, uma libertinagem mental. Quando se priva o sujeito do ensino do latim, da gramática e da sintaxe isso não é um ganho ao sujeito, mas a forma mesma de tolher aquele indivíduo das ferramentas mais básicas para experimentar, analisar e pensar o mundo. Toda a desculpa esfarrapada da opressão da elite em relação aos pobres e um hipotético domínio de uma sobre os outros através da linguagem formal, culta e erudita, nunca poderá ser verdadeira. Já que a língua não é um conjunto de regras feitas aleatoriamente ou um conjunto elaborado de normas que separam pobres e ricos. Mas um conjunto vivo e orgânico de manifestações humanas que ao longo do tempo evoluiu e nos deu a capacidade de ver o mundo, analisar o mundo, crescer internamente como seres humanos, independentemente de classe social ou raça. Ou alguém vai dizer que Machado de Assis nascido nas camadas mais baixas da sociedade dominou a norma culta e oprimiu os pobres ao elevar o nível intelectual da literatura brasileira como nunca antes havia sido elevado?

A libertinagem mental estimulada pela desestruturação do ensino sistemático das ferramentas básicas que fazem, ou podem fazer, do sujeito um cidadão, cônscio e completo, mostra sua mais nefasta conseqüência: a infantilização da mente.

Com as mentes débeis e fracas, ou seja, com um exército de adultos com idade mental infantil, a possibilidade é muito maior de guiar a massa para a agenda revolucionária. Quais são os comportamentos típicos das crianças? Se amontoarem em grupinhos, cuja constituição é regida pela regra do “gosto” ou “não gosto”. Brigarem por qualquer coisa. Resolverem quem tem razão pela imposição da maioria que faz coro uníssono e desacredita o outro. E serem completamente vulneráveis a figuras de autoridade.

Os grupinhos que hoje encontramos na sociedade que reivindicam direitos, que não são mais que privilégios concedidos, possuem essas mesmas características. A única diferença é que são financiados com bilhões e bilhões de dólares. Aqui o paralelo com O Senhor das Moscas é completo. O que acontece quando grupos de crianças ganham poderes de decisão? Só podemos notar a total desestruturação da sociedade, o caos completo e a falta de referências.

Isso toma proporções homéricas quando em todos os estratos da sociedade temos tais tipos de pessoas. O problema maior é que sendo influenciadas pela agenda revolucionária, na maioria das vezes sem saberem, essas pessoas constituem um coro maciço do mais completo e eficiente “cala a boca” contra todos aqueles que possuem uma opinião válida e real, baseada no conhecimento sério.

Quando unimos a essa realidade um grupo que planeja tudo no plano de fundo temos a composição da nossa sociedade como ela se compõe hoje. Reconhecer tal realidade é muito complexo e requer um profundo centro pelo qual avaliar a situação. Quando o centro de avaliação é desconhecido, toda e qualquer opinião embasada só poderá parecer insana e descabida, logo rechaçada como loucura ou impropriedade do pensamento. Isso se dá porque qualquer coisa dita carecerá de correspondência interna, já que a avaliação do avaliador diferirá da capacidade do avaliado em níveis profundos.

Como explicar uma teoria complexa a uma criança? É impossível.

Como acima esboçado é impossível não perceber a carência real que a maioria da população tem em relação aos conhecimentos mais básicos. Subvertendo o entendimento comum e o transformando em uma hipotética luta contra a opressão, a subversão termina por destruir qualquer tipo de cultura que existe. E o fato notável é fazer com que a população que se encontra em vias da destruição ainda queira e anseie por isso. Quando vemos a exaltação do não saber, do enaltecimento daqueles que nunca leram um livro, do festejo porque o sujeito não sabe nada... só podemos lamentar a profunda falta de referências que tem nossa sociedade.

A infantilização da mente é um processo vagaroso, contundente e deveras eficiente. Projeto esse que se estende por gerações e nunca poderia ser associado a um conjunto de acontecimentos aleatórios. A superficialização do entendimento da realidade só pode ter como conseqüência a crença sincera de que a realidade é assim mesmo.

A falta de esquemas mentais para abarcar a complexidade do processo revolucionário é um impedimento à mínima compreensão da nossa situação atual. Por isso vamos ver algumas das armas que são utilizadas no processo subversivo. Essas armas estão em funcionamento há muito tempo e por mais de três décadas já renderam frutos extraordinários. O processo básico para a tomada do poder mediante aplausos estrondosos de ratificação por boa parte da população, que não sabe o que está apoiando, é sutil e bem engendrado. Ele atua em todos os campos da vida social. Sendo assim não se consegue fugir dele em canto algum. Para se ter noção do problema vamos enumerar os mais notáveis meios pelos quais o movimento subversivo atua (conceitos retirados do livro de A.J. Paula Couto, O Desafio da Subversão):

1) Desmembramento – É a técnica que, como o nome diz, visa a desmembrar o antigo organismo social. No quadro da guerra política, conta com dois recursos: a) greves de formas diversas, e b) resistência passiva.

2) Intimidação – É esta uma técnica que permite completar e reforçar a do desmembramento. Consiste em neutralizar a ação daqueles que não têm simpatia ou se opõem à causa comunista, criando neles a sensação de receio ou de medo. Pode ir desde o simples apodo, chamando de fascistas, nazistas, direitistas, reacionários etc...

3) Desmoralização – Consiste esta técnica em procurar a desmoralização das autoridades políticas, policiais e militares, negando-lhes sistematicamente as vitórias e os acertos e ampliando e exagerando as inevitáveis falhas e desacertos, procurando criar o ceticismo e a descrença em relação às suas iniciativas e a dúvida quanto à sua boa fé. Quando essa técnica pode ser usada em sua plenitude, com irrestrito uso dos meios de comunicação de massa, em pouco tempo os próprios agentes do poder, atingidos pelo peso da pressão psicológica, perdem suas convicções e começam eles próprios a duvidar do valor daquilo que executam.

4) Seleção e formação – Esta técnica é uma das maiores responsáveis pelo segredo da força das minorias comunistas. O primeiro passo consiste em procurar elementos ativos e dinâmicos, com qualidade de liderança em seus diversos aspectos (oradores, propagandistas, especialistas em determinados ambientes, etc...)

5) Semeadura (infiltração, entrismo) – É a técnica complementar da anterior. Consiste em distribuir os quadros selecionados e formados, pelos diversos pontos do país, designando-os para trabalhos nas diversas organizações onde há necessidade de reforçar o trabalho de subversão.

6) Enquadramento – Enquanto a técnica anterior permitia a conquista psicológica, a do enquadramento permite a conquista física das populações, outro importante objetivo intermediário da guerra revolucionária. E isto se realiza através do controle gradativo das associações de classe, diretórios estudantis, sindicatos e todos os órgãos semelhantes que dirigem e centralizam a ação de massas de empregados, funcionários, professores e estudantes, bem como de outros grupos sociais expressivos.

Podemos acrescentar que ainda há o mais notável deles que está em plena atividade hoje em dia. Esse inclui todos grupinhos com raivinha que lutam pelos seus “direitos” sem saberem que praticam a mais mortal e maléfica arma da subversão atual. Essa é a estratégia Cloward-Piven. “A estratégia de forçar uma mudança política através da crise orquestrada. A ‘Estratégia Cloward-Piven’ procura acelerar a queda do capitalismo ao sobrecarregar a burocracia governamental com uma enchende de demandas impossíveis, arrastando então a sociedade para uma crise e um colapso econômico.” (o artigo completo pode ser lido aqui.)

Adicionando aos supracitados meios subversivos a Estratégia Cloward-Piven completa um esquema básico de análise completo do processo subversivo que tem lugar hoje não só nos EUA e no Brasil como em todos os países do Ocidente. Entender a profundidade de cada item já é tarefa hercúlea para um indivíduo mediano, entender o intrincado mecanismo e a complexa rede entrelaçada de todos eles acontecendo ao mesmo tempo é tarefa impossível. E é justamente por isso que sempre à uma crítica fundamentada do processo subversivo o indivíduo encontra mil contradições aparentes e termina por desacreditar o que entende.

Um exemplo, contido nesse texto mesmo pode servir de ilustração. Quando você vê que no item dos Direitos Feministas as ativistas se propõem a patrulhar os programas televisivos, pois esses “vendem” uma idéia de mulher objeto, temos as novelas que fazem isso abertamente, cuja crítica de Benedito Rui Barbosa também foi linkada mais acima. Ao mesmo tempo em que jogam em um lado, também jogam no outro. O espectador, ou leitor, que não possui o esquema completo para começar a entender o processo acha que as duas coisas andam separadas e que nada tem uma com a outra, quando na verdade fazem parte do mesmo plano.

Toda a dificuldade para a mente fragilizada está em compreender que todas as facetas do processo não são manifestações orgânicas e naturais de grupos oprimidos. A própria separação em classes e grupos da sociedade é arma básica do processo subversivo. Ao mesmo tempo em que fomentam a crise econômica com ativistas que obrigam às autoridade a ceder empréstimos de risco às famílias sem dinheiro, são os primeiros a criticar o governo por fazê-lo. Os exemplos se multiplicam ao extremo, e se fossem compendiar todos os tipos em um só semestre, seria praticamente impossível publicá-los em obra com menos de 2000 folhas.

O núcleo principal da luta subversiva é a educação e por isso que hoje em dia é alvo principal de reivindicações. Seja na educação doméstica dos pais, seja na educação escolar. As duas têm sido sistematicamente destruídas. E com isso criando um exército de mentes infantis.

Contra essa doença não basta discutir, não se argumenta com doentes. Contra doentes só há uma saída, o tratamento. Aqui sem esperanças de cura, já que a cultura marxista reestrutura toda a rede mental e todo o horizonte de consciência contemplativa do indivíduo. A substituição dos valores morais e espirituais por valores econômicos está completa. A avaliação de todas as camadas da vida pelos valores econômicos e financeiros é uma certeza.

***

Traçado o panorama cultural em que vivemos, o indivíduo tem agora a chave para avaliar o ambiente ao seu redor, assim com se avaliar perante esses fatos. Se não possui o profundo conhecimento, tem as chaves iniciais para o processo de avaliação.

Sabendo-se infantilizado obtém o primeiro requisito para sair dessa condição, o conhecimento da enfermidade. O sentimentalismo é um campo infantil altamente explorável. Assim como a carência, a necessidade de uma autoridade, a necessidade de indicações por onde se basear, e todos os demais tipos de referência. A mídia inteira está contaminada com o movimento subversivo, salvo uma ou outra exceção. Enquanto não souber diferenciar uma opinião verdadeira de um panfleto subversivo não é recomendável ver jornais televisivos, impressos ou online. Sempre que ver a solução de um problema que se baseie na concentração de poder nas mãos de poucos, há de desconfiar. Sempre, e repito: SEMPRE, busque outra opinião a qualquer assunto. Se alguém diz X e todos dizem X procure alguém que diga Y. Para o bem e para o mal. Assim se acostumará no confronto de idéias e, porventura, como resolvê-las será um problema, que é o primeiro passo para a solução da aporia. Reacostumar-se a ver o mundo com olhos sinceros, sem vieses ideológicos. E, por último e principalmente, ganhar o senso de responsabilidade pelo que pensa e diz. Sempre pensar se uma idéia é sua mesma ou uma mera repetição do slogan da vez.

Com essas recomendações básicas e a exposição do esquema para avaliação da realidade o leitor possui um ferramental básico para começar a tentar entender o mundo em que vive, sem distorções nem descalabros. O que é uma tarefa imensamente difícil, mas o que está em jogo é a sua liberdade, a sua responsabilidade e sua vida. Pois já começam a tirar os filhos dos pais, já começam a querer decidir sobre o que você deve gostar ou desgostar, já definem o que e como se deve pensar, se comportar e viver. Antes que seja tarde demais, e o sujeito se dê conta que é uma pessoa na hora em que estiver aterrorizado no muro de fuzilamento de algum governo comunista revolucionário, já que no século XX matou mais de 100.000.000 de pessoas, e o perigo só faz crescer. Antes que seja irreversivelmente tarde demais, comece a viver!

Sexta-feira, Fevereiro 06, 2009

Sobre a doença mental: a mente infantilizada

Continuação dos posts abaixo:
1) "Idiotas úteis" e a doença mental
2) Mais sobre a doença mental

Uma coisa é certa e quem se colocar contra o argumento vai ter que se ver com o desenvolvimento de todas as crianças já nascidas nesse planeta. Crianças deixadas por própria conta não viram seres humanos adultos, educados, falantes, escreventes e pensantes. A assistência quase que full time é necessária para que uma criança humana cresça e se desenvolva no que podemos chamar um ser humano. Seja essa atenção dada pelos pais, ou contratados, seja por escolas ou avós, é inevitável que uma criança seja assistida em tempo integral. Esse fato inexorável da realidade nos trás conseqüências gigantescas. E nos deixa uma boa dose de margem para argumentar que: o ser humano é a-essencial.

Por a-essencial quero dizer que o ser humano não tem um conjunto de ações e maneiras de ser pré-programadas que se auto desenvolvem, como num leão ou num cão, que em menos de 15 minutos de nascidos já andam, procuram a teta da mãe e se viram, em grande parte, sozinhos. O ser humano precisa de um guia, para desenvolver as aptidões que estão latentes em seu “programa”. O ser é capaz de falar? Sim! Mas não sozinho. O ser é capaz de escrever? Sim! Mas não sozinho. E assim por diante. Friso bem essa parte, pois é fundamental para todo o desencadear das idéias que virão. Aceito o fato de que a criança torna-se mais plenamente humana quando educada, vamos ao que interessa.

O que representa a individualidade humana é o Ser. Compartilhamos todos essa característica tão fantástica de ser. Existimos. Mas ao existir somente nada muda e nada individualiza. O que nos torna únicos é nossa posição na existência, ou a manifestação do Ser no campo material como princípio de individuação. Assim eu sou eu e somente eu sou agora no meu lugar. Minha posição na existência diz quem sou eu. Creio que devemos levar em conta que a posição aqui não deve ser pensada somente em termos de referências espaciais quantitativas. Mas como referência primariamente qualitativa, e necessariamente quantitativa. Então é por eu ser um ser que persiste no tempo e sofre as modificações internas e externas nas quais eu sou influenciado e influencio ao mesmo tempo, que posso me chamar de Eu sem nenhum problema. Em adição a essa referência individual está o fato de eu me lembrar que eu sou eu. De nada adianta ser uma pedra, que é individual, mas não sabe que é nem se lembra que está sendo. Pela memória consciente sabemos que somos, e só somos porque persistimos no tempo como seres pontuais que influenciam e são influenciados ao mesmo tempo, ou seja temos consciência.

É a dupla, memória consciente e consciência da memória, que nos dá a capacidade de saber tudo o que foi dito anteriormente. Se achou difícil de entender tente se lembrar de como você ouve uma música. A primeira nota é tocada em um tempo totalmente diferente da última nota, as variações, cada uma delas, é independente das outras, a sequência é que faz a música, e a chamamos de música pois conseguimos guardar na memória desde a primeira nota até a última as unindo, na síntese intelectual, no que chamamos propriamente de uma música. A lembrança da sequência de notas tocadas de certa maneira com certa ênfase é que juntamos em um bloco só e ouvimos como uma música, e por fim temos a experiência total dela. Assim como a música só é capaz de existir pela memória, pela consciência da memória e a memória da consciência, que acontecem simultaneamente. Só podemos nos perceber como seres pelo mesmo processo. E é exatamente nesse ponto que diferimos dos outros animais, que não possuem a simultaneidade da memória consciente e da consciência da memória.

Alguns fanfarrões apressados poderão pensar que se é assim que a coisa se desenvolve podemos entrar num ciclo eterno que fica auto-retornando em si mesmo e prende a memória a si mesma enquanto temos consciência de algo ilusório, teríamos a consciência sempre das memórias e nunca de novas coisas. Mas para esses que adoram reduzir o ser humano, ou a mente, a um esquema torto só tenho que lembrar que somos dotados de uma capacidade infinita de conhecer o conhecimento que conhecemos. Assim temos consciência da memória ao lembrar que somos conscientes de nossa memória consciente. Podemos ser conscientes da nossa consciência, e ter consciência que somos conscientes da nossa consciência, ampliando o espectro a camadas impossíveis de qualquer limite. Fugindo assim das determinações positivistas que são a moda que ainda perdura em nossa sociedade.

Esse ponto requer uma explicação mais profunda. Temos o conjunto psico-físico, que envolve o nosso corpo e a nossa psiqué, ou mente, mas temos ainda o princípio de individuação. Esse é o nosso Ser próprio. Esse Ser que nos dá nosso intelecto caminha conjuntamente com a mente e o corpo. Temos assim um conjunto tríplice de: intelecto, mente e corpo. Quem nunca sentiu um impulso carnal, que se manifesta pela mente, e uma vontade oposta no intelecto, que nos diz, ou pergunta, se aquilo é bom ou não, não é humano. Essa dualidade do corpo-mente e intelecto é latente. Dessa maneira muitos são os que reduzem o indivíduo à sua mente, que é necessariamente ligada ao corpo e por isso constitui com ele um sistema. Mas isso de maneira alguma descreve o indivíduo totalmente. Assim temos o intelecto.

O conjunto corpo-psiqué não passa do nosso ferramental básico, que vai ser utilizado pelos meios educacionais para se transformarem em alguma coisa. Quando falo em meios educacionais não confundam com esse raio de pedagogia que temos atualmente, falo simplesmente do fato da mãe ensinar o filho primeiramente a andar, depois a falar, e posteriormente a escrever. Sem contar os modos de se comportar e práticas sociais normais. Quando falo que a mãe “ensina” o filho a andar é mera força de expressão, pois a criança se arrasta e engatinha sozinha, assim como pronuncia sua primeira palavra por conta própria. Isso mostra que em grande parte temos certas pré-disposições, mas só florescem no seio da família, no contato com outros seres humanos. Parece que tudo isso que eu falo é tocar no óbvio, mas esquecemos completamente do óbvio. É característica intrínseca do óbvio passar despercebido. É óbvio que nós respiramos, mas praticamente não lembramos disso no dia a dia.

Tudo isso serve para ilustrar que ao longo do crescimento humano somos determinantemente dependentes e nessa dependência outra característica é muito importante para o bom desenvolvimento humano. A alimentação. Se nos alimentarmos de papelão diariamente durante nosso crescimento desde o nascimento é claro e óbvio que danos irreversíveis vão acontecer. Uma alimentação minimamente satisfatória deve ser administrada para um funcionamento saudável do corpo humano. A analogia fica bem clara quando falo que a mente também é assim. Quando alimentada com as formas mais obtusas de alimentos ela se torna deficiente e capenga, se afasta do intelecto (aqui não como operador racional dos pensamentos, mas como princípio de individuação próprio do ser humano). Não é surpresa que ao serem criados desde pequenos crendo que judeus eram a escória da humanidade a juventude hitlerista realmente acreditou nisso. Assim como as crianças Hutus que cresceram em meio ao genocídio de 1994 hoje em dia são militantes e revolucionários que vêem os Tutsis de maneira deformada. Ou seja, o modo como a mente vai se moldar depende totalmente das informações que lhe chegam. É bem difícil que uma mente que nunca viveu em um ambiente democrático saiba o que seja democracia, por mais que tome conhecimento teórico sobre a coisa. As teorias, informações abstratas, só possuem valor depois de certa medida de vivência mesma, mais ou menos é a passagem da mente para o intelecto, assim o fortalecendo. Assim podemos concluir que quanto melhor o nível de informações que chegam durante a formação de uma criança melhor. Se se deseja que a criança tenha uma mente aberta e ampla, dê-lhe informações amplas. Se se deseja que a criança seja ignorante nada lhe apresente. É uma lógica simples e cabal.

Mas isso não significa uma permissividade. Não é porque temos a capacidade de formarmos uma mente ampla que isso signifique que devemos pensar tudo, ou pensar qualquer coisa. Devemos ser capazes de ter um ferramental amplo. Esse ferramental, no caso o mental, é indispensável para a formação e qualificação do intelecto. Quando um ser humano não é estimulado a reforçar seu intelecto criamos seres passionais, emotivos, sensíveis a qualquer besteira, manipuláveis, fracos e infantis. Como o corpo físico obedece a certa lógica do mundo material para se desenvolver e agir, podemos falar também da lógica do intelecto. Quando esquecemos o intelecto criamos os andróides de Issac Asimov. Esses andróides, ou robôs, possuem mentes reativas que funcionam no mundo com certa capacidade de análise, movimento e ação. Mas eles por serem projetados tem em sua programação três leis básicas da robótica, leis criadas pelo próprio Isaac, que controlam seu “instinto”, são essas: 1) Um robô não pode ferir um ser humano ou, por omissão, permitir que um ser humano sofra algum mal; 2) Um robô deve obedecer as ordens que lhe sejam dadas por seres humanos, exceto nos casos em que tais ordens contrariem a Primeira Lei; 3) Um robô deve proteger sua própria existência desde que tal proteção não entre em conflito com a Primeira e Segunda Leis. Essas três leis regem os cérebros dos robôs e a maioria das histórias do livro Eu, Robô giram em torno de problemas lógicos causados por situações várias em que robôs entram em conflito interno por não conseguirem se livra das contradições da sua programação. Nesse ponto o filme estrelado por Will Smith, com o mesmo nome do livro, aplica cabalmente a lógica de Issac no computador central que controla todos os outros robôs em um link por satélite. A beleza do filme está em acompanhar de forma coerente e precisa a lógica dos contos do autor. Nesse filme o criador do robô central prevendo, pela lógica imputada na central robótica, que seria um caos e perigo para os seres humanos cria um outro tipo de robô. Que será o protagonista da aventura. Esse outro robô difere determinantemente dos outros por um único fator. Quando previu o desastre total o criador dos robôs só consegue quebrar a sequência lógica de movimentos programados ao inserir outro cérebro no andróide. Esse outro cérebro é encarregado de avaliar as situações em que as três leis valem e ter autonomia de pensamento em relação à lógica estrita de ação do primeiro cérebro. Dessa maneira essa era a única saída possível para quebrar a corrente de acontecimentos apocalípticos que estavam em curso.

Esse filme ilustra muito bem a condição humana. E o desenvolvimento do segundo cérebro é a nossa natureza mais básica. O que inquieta muitos é que nosso segundo “cérebro” não tem natureza física, mas somente sutil. Nosso intelecto, nosso Eu que “habita” o corpo material, não é visível. Essa qualidade do ser humano é ignorada na quase totalidade dos casos da ciência e das especulações intelectuais.

Se queremos educar nossos filhos para que tenham autonomia intelectual, não é possível que primeiro não saibamos o que significa. Recorramos ao sábio Mário Ferreira dos Santos para nos esclarecer: “A intelectualidade é a função que capta semelhanças e diferenças. Chama-se intuição intelectual a intuição quando capta semelhanças e diferenças. (Intelecto vem de inter e lec. Inter significa entre, e lec é um radical que significa tomar, captar. Daí temos: ler, que vem de legere, eleger, de e-lec, tirar para fora, separar; assim coleccionar, seleccionar). É por meio da intelectualidade, que o ser humano põe ordem ao caos dos acontecimentos, dos factos, que formam o existir.” Cabe esclarecer que o existir também engloba o próprio ser. Sem força intelectual ele não consegue sequer saber o que se passa com ele. E não podemos negar que a consciência e a memória são qualidades do intelecto.

Atualmente criamos nossos filhos para serem completos des-intelectualizados, e isso não é no sentido de intelectual como aquele ser pensador, reflexivo ou recluso e dedicado aos estudos. Mas no sentido de que as situações e os fatos mais imbecis são devidamente ignorados, mal-interpretados, distorcidos etc. Criamos um exército de seres tão fracos intelectualmente que não conseguem fazer os links mais pueris entre causa e conseqüência, entre atores ativos e receptores passivos, entre determinantes fixas e as variáveis, ou seja, nada que ouse passar pela visão clara e objetiva (no sentido mais amplo) da realidade consegue ser intuído. Todo o processo da existência é deformado ou mal interpretado pelas mentes infantis que temos hoje. As mentes infantis estão tanto nas crianças, nos adolescentes e até nos adultos. Cada vez mais infantilizados, fracos, débeis e pueris os seres humanos perdem qualquer capacidade de realização, transformação, auto-controle e interação com o mundo. Resultando no ápice da idiotização quando vemos hoje pais recorrendo a juízes, pois não conseguem controlar seus filhos.

É característico das mentes infantis acreditarem em tudo que dizem para elas, ou pelo menos acreditar em tudo que certas figuras de autoridade lhe dizem, secas de informação e carentes de autoconsciência reflexiva elas passam a maior parte do tempo concordando ou discordando. Não existe realidade para uma criança e sim apenas a construção de um mundo etéreo. É característico das mentes infantis bradarem por tudo que desejam, sem qualquer filtro mental. A mente infantil é aquela que age indiscriminadamente. Toda a culpa pelos seus atos é automaticamente impugnada aos pais. Não é coincidência que em nossos tempos de bilhões de mentes infantilizadas as relações tenham sempre que ser regulamentadas e regidas por um poder de autoridade. Hoje temos a conjunção das mentes infantis com as três leis de Asimov. Se sair daquela programação dá curto e tudo pára. E é justamente o que acontece ao nosso redor. Quando todos os jornais dão palavras de ordem, fazem todas as análise que serão repetidas pelas bocas populares, montam um séquito de pseudo-autoridades científicas para dizer a cada hora o que deve ou não deve fazer, dão dicas e pitacos de como cuidar da saúde, como cuidar da casa, como cuidar dos filhos, dos cães, da natureza, combater a discriminação etc., não podem concluir nada além daquilo que mostra o discurso típico de um pai para o filho.

Essa carência intelectual é notável e se dá justamente na parte da consciência e da memória. Atingidas full time com novas visões da realidade, cada vez mais contraditórias, essas pessoas por não possuírem as mais básicas ferramentas mentais são capazes de defender dois discursos simultaneamente sem saber que eles são obviamente contraditórios. São capazes das atrocidades lógicas, mentais, físicas e concretas mais díspares.

É substancial que as características que contribuem para o equilíbrio intelectual, e seu crescimento, não são materiais. O intelecto por ser uma função sutil não é regido pelas determinações espaço-temporais. O corpo humano se desenvolve ao longo do tempo, ele vai-se tornando cada vez mais humano na medida em que se transforma. Esse tipo de transformação é quantitativa. Por ser assim, determina certas afetividades e sensibilidades próprias dos corpos. Como um corpo extenso qualquer que é definido pela sua disposição quantitativa, que termina por determinar também algumas de suas propriedades qualitativas, assim o corpo humano também o é. Nesse mesmo campo podemos esclarecer que o corpo humano se torna pleno quando suas partes quantitativas se tornam de tal ou qual modo. Mas o desenvolvimento do intelecto não corresponde a essa relação descrita. O intelecto por ser puramente qualitativo não “cresce”. Ele, por participar da qualidade, se torna mais intelectual ou menos intelectual. Aqui a analogia é como o branco que é mais branco na medida em que se aprimora na brancura. O tempo e o espaço não interferem nesse processo. Desse modo é risível achar que por estar em uma escola assistindo aulas durante boa parte da sua vida um indivíduo irá automaticamente qualificar seu intelecto.

As mudanças qualitativas do intelecto só se dão no âmbito da determinação individual. O papel do estudante é aprender, mas para tal é preciso querer aprender. Interessar-se pelo conteúdo e buscá-lo ativamente. Esse processo é fundamental para o desenvolvimento do intelecto como capacidade de síntese e divisão da realidade. Em grande parte isso se dá através da linguagem. A fala e a escrita contribuem ativamente para tal desdobrar das capacidades intelectuais. Por isso a tão buscada erradicação do analfabetismo. Essa questão é ainda mais profunda quando constatamos que não é o domínio da técnica de leitura e escrita que desenvolve o intelecto, mas como essas técnicas serão utilizadas. Como disse mais acima o conjunto corpo-psiqué é uma ferramenta que deverá se desenvolver, quem usa essa ferramenta é o indivíduo como Ser. Assim o aprendizado da leitura e da escrita são ferramentas que precisarão de um foco em sua utilização. Martelar um prego pequeno com uma marreta gigantesca é o uso descabido da ferramenta para o fim que lhe é próprio. Pensando nesse caminho qualquer tipo de matéria escolar só é necessária quando o indivíduo sente que aquele conhecimento lhe falta. A busca da completude do intelecto só pode ser buscada individualmente.

Quando a educação era ministrada na reclusão da residência essa necessidade era premente. Envolvido diretamente no contexto da vida que vivia a mente que era educada dava sentido para aquele aprendizado. Quando este é dissociado da vida privada, ou pelo menos erigido como modelo educacional nacional, o indivíduo não percebe mais essa integração. Qualquer tipo de aprendizado pressupõe uma posição daquele que ensina. Seja por achar que a educação é necessária ao desenvolvimento do indivíduo, seja por questões práticas de gerência dos negócios da família, ou ainda pelo fomento do conhecimento como forma de integração pessoal, a educação passada diretamente pelo próximo não distanciava das questões morais e dos valores ali contidos. Em tempos que a educação era um privilégio da aristocracia, ela era vista como forma de melhorar o indivíduo para a vida que iria ter e não tinha qualquer papel pedagógico universal dos direitos à educação de hoje. Quando possuímos um exército de professores que nada mais querem que apenas ganhar seu salário, esse ensino não passa de mera formalidade, ou necessidade de mercado. Não podemos esquecer que a maioria das pessoas não necessita diretamente de um conhecimento aprofundado em história, geografia, química, biologia, física etc. O que antigamente era ensinado aos indivíduos eram matérias muito mais básicas e necessárias. Não é tão estranho que antigamente um político era jusfilósofo, entendia de medicina e flertava com outras áreas. Tudo isso aprendido de maneira autodidata. Quando você priva o intelecto das matérias básicas de sua formação relega o indivíduo a uma prisão, na qual ele é incapaz de se conhecer, conhecer o mundo ou saber o mínimo para avaliar qualquer tipo de conhecimento que seja.

Isso caracteriza o ataque direto à consciência e à memória. Esquecendo da consciência, do intelecto em última instância, e sobrecarregando a memória com informações que não possuem nenhum nexo lógico, que fomentam a desestruturação dos valores tradicionais ao desvincular o aprendizado do crescimento moral, abrindo espaço para a doutrinação ideológica antes mesmo do aprendizado das ferramentas de análise do indivíduo e pregando conceitos deturpados a nossa educação atual não faz mais nada que desequilibrar mentalmente os alunos e tornar suas mentes débeis e deformadas. Não é estranho que o aprendizado das gerações sucessivas desde a década de 1950 decaiu a níveis alarmantes. A dissociação do desenvolvimento do sujeito de seu aprendizado trouxe malefícios enormes ao quadro da sociedade mundial.

Se ainda temos expoentes nos níveis técnicos, no campo da aplicação estrita de conhecimentos técnicos, no campo humano a desordem é generalizada. Quando o conhecimento universal e tradicional é extinto sendo substituído pela permissiva militância e o informacionismo descabido é exatamente isso que acontece. Criamos gerações inteiras de zumbis, ou de idiotas-úteis, que nada mais fazem que sobreviver sem qualquer sentido em suas vidas. Perdendo toda noção do que seja um ser humano autônomo e íntegro essas mesmas gerações deformadas nunca poderão passar as próximas gerações o tipo de conhecimento que fomentará o intelecto, causando uma notável infantilização das mentes.

Quando se esgotam as energias da mente com informações a serem seguidas, e não se ensinam as ferramentas intelectuais de análise e decisão que tornam as existências autônomas, só podemos concluir que isso causa uma estafa mental absoluta no indivíduo. A capacidade intelectual de síntese e separação se esvai no mundo das possibilidades e nunca vêm a se tornar concreta. Quando a capacidade de perceber o campo dialético da existência não existe, e com isso tornando a capacidade de análise de qualquer situação concreta inexistente, o indivíduo, já de muletas mentais, é manipulável em qualquer nível pela ação constante do condicionamento mental perpetrado pelas mídias. Não é difícil vermos cidadão fazendo cara feia para um fumante que está a meia distância quando ao mesmo tempo não acham horrível a fumaça negra de carros, caminhões e vans. É só por essa i-lógica que podemos estabelecer que o resfriamento de boa parte do mundo é devido ao aquecimento global causado pelo homem. Ou pensamentos do tipo “rouba, mas faz”. Quando as capcidades de interação com um mundo complexo e articulado para desestruturar a mente do cidadão não estão presentes, esse mesmo mundo parece um emaranhado indecifrável de causas e conseqüências, onde o cidadão se vê como se numa selva sem bússola.

Quando falei mais acima que a dupla, consciência da memória e a memória consciente, faz o ser do ser humano mais humano, não foi à toa. Tudo o que descrevi só abre o caminho para que os seres ignorem suas capacidades intelectuais mais básicas e tratem o mundo como uma selva, na qual o único tipo de avaliação que pode existir é “gosto” ou “não gosto”, ou “concordo” ou “não concordo”. Mentes infantis são incapazes de perceber o mundo conscientemente. Assim é fácil ver a maioria das pessoas falando que “não concordo com seu ponto de vista” quando na verdade nada foi opinado, mas simplesmente descrito. É notável no caso de Barack Obama. Quando descrito como criminoso, a primeira coisa que fazem é “não concordar com a opinião”, como se fosse realmente uma opinião e não uma descrição literal do sujeito. A in-capacidade de ver o mundo de forma natural e saudável só pode acontecer pela total perversão da mente humana. E é isso que chamei de doença mental.

Quarta-feira, Janeiro 28, 2009

Carta de um palestino

Estive passeando pelo orkut procurando certas informações durante o auge do conflito de Israel com Gaza e achei uma interessante cara de um palestino. A primeira coisa que fiz ao ler a carta foi procurar seu nome no Google. Assim percebi que vários sites diferentes a tinham publicado também, sem ser o Orkut. Mas intrigado com a veracidade da carta eu resolvi escrever um email para o Achmed. E ele respondeu. Segue abaixo primeiro o meu email e sua resposta, depois segue a sua carta.

***

de Leandro Diniz
para achmedassef@gmail.com
data 24 de janeiro de 2009 21:13
assunto sobre carta que está no orkut.
enviado por gmail.com

ocultar detalhes 24 jan (3 dias atrás) Responder


Caro Achmed Assef,

Gostaria de me informar sobre a autoria de uma carta que está sendo veiculada a você no orkut nesse enderço http://www.orkut.com.br/Main#CommMsgs.aspx?cmm=1514428&tid=5291848365276868866&start=1

Hoje em dia muita coisa falsa e montada aparece pela internet e não temos como comprovar nada. Mas como a carta seguia com seu email ao final, gostaria de saber se é tua mesmo.

Grato desde já,

leandroDiniz

--
"Se tenho de pensar numa idéia, ainda que ela me mate de tristeza, é unicamente porque ela me parece verdadeira" andre comte-spoonville <> http://leandrodiniz.blogspot.com


de Achmed Moussaf Assef
para Leandro Diniz
data 28 de janeiro de 2009 03:08
assunto Re: sobre carta que está no orkut.
enviado por gmail.com

ocultar detalhes 03:08 (8 horas atrás) Responder


Querido Leandro

Sim a carta eh minha mas nao sei como foi parar no orkut pois nao tenho conta la.

Agradeco por divulgar e muito obrigado por tudo

salam

Achmed


2009/1/24, Leandro Diniz :
- Mostrar texto das mensagens anteriores -

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Amigos,

Meu nome é Achmed Assef, sou palestino e vivo no Brasil atualmente.

Desde que iniciou novamente os conflitos no Oriente Médio, não se fala em outra coisa a não ser nesta guerra infeliz que tanto vem fazendo vitimas dos dois lados.

Nasci na Palestina, um pais que ainda não existe oficialmente e quando a situação ficou insustentável para minha família, tivemos o feliz e sagrado convite de um amigo de meus pais a virmos ao Brasil, e desde meus 5 anos de idade, moro neste lindo pais acolhedor.

Quando digo que a situação na Palestina ficou insustentável, não estou me referindo aos inúmeros conflitos com o exercito de Israel ou os religiosos judeus que mantinham suas casas lindas em território palestino, e que hoje essas mesmas casas foram tomadas a força pelos terroristas, mas sim de uma insustentabilidade provocada pelos próprios "governantes" palestinos em todos esses anos.

Para quem está no Brasil ou qualquer outro lugar do mundo, na segurança de seu lar e de sua vizinhança não vai conseguir imaginar nunca o que é viver em Gaza. Somente de lembrar minha breve infância nas cidades em que vivi, me da aperto no coração e vontade de chorar, porem, ninguém que esta no conforto de seus lares também recebendo milhares de informações, fotos e noticias do atual conflito pode imaginar também o que é sentir-se traído por aqueles que se intitulam lideres palestinos.

Os lideres palestinos nunca quiseram um Estado. E eu posso falar isso em alto e bom tom, porque é uma verdade. Se quisesse teriam criado antes de 1948, quando ainda não existia o Estado de Israel, se quisessem o teriam feito em 48 também quando a ONU decidiu pela criação de dois Estados, mas nossos grandes Líderes preferiram incitar o povo a violência de lutar contra os judeus do local ao invés de fazer lobby por um Estado palestino viável.

Não quiseram também os lideres palestinos quando os territórios, chamados "ocupados por Israel" e que hoje estão em sua grande maioria em nosso domínio, criar um Estado palestino.

O que dizer então da mais recente escalada de violência, quando ocorreu a segunda intifada causada pelo grande líder Arafat que em 2000 rejeitou o melhor acordo de paz de todos os tempos propostos pelo premie israelense Ehud Barak e mais uma vez incitou o povo palestino a violência e a brutalidade através de homens-bomba, enquanto a família do Sr. Arafat vivia com regalias, mordomias e riquezas em Paris, tudo fruto de doações dignas estrangeiras mas que nunca chegaram ao povo sofrido da Palestina.

Ao invés de comprar comida, água, remédios e oferecer uma vida digna e boa ao povo palestino, nossos lideres preferiram o caminho da violência, da brutalidade e da estupidez de promover o ódio e a discriminação contra o povo judeu, que se não são anjos, também não são demônios como pregam nossos lideres.

As mesmas crianças que hoje morrem inocentemente no colo de suas mães, são as mesmas que recebem a criação e educação militar desde cedo a odiar Israel e o povo judeu, sabendo atirar com armas pesadas com menos de 5 anos de idade e ainda recebem a lavagem cerebral de se tornarem mártires explodindo-se para causar ainda mais vitimas do outro lado.

Os lideres palestinos não possuem nenhum sentimento humanitário como se espera para uma população cansada e calejada de sofrimento. Pois se tivessem, não mandariam para o suicídio seus parentes e suas crianças, enquanto esses covardes assassinos escondem-se em outros paises ou ate mesmo utilizando escudos humanos dentro da população civil, como vemos hoje na faixa de Gaza.

O Hamas, que há muito tempo vem promovendo barbáries dentro e fora de Gaza, desde que em seu único ato inteligente na historia, transformou-se em partido político somente para dar legitimidade ao seu terrorismo praticado diariamente nas ruas de Gaza, matou, perseguiu, torturou e aniquilou todos os "inimigos" do Fatah, o partido moderado que hoje é representado pelo incapaz Mahmoud Abbas.

Senhores, como pode um grupo terrorista, dizendo-se líder do povo palestino matar nossos irmãos?

Como entender que eles não estão defendendo nosso povo, mas sim seus próprios ideais que não refletem a opinião da maioria desse meu povo palestino? Matar palestinos somente porque não concordam com seus atos e idéias é arcaico e acima de tudo terrorista. Sobrou a Cisjordânia para o Fatah e que se não tomarem cuidado, servira de base para mais atos de violência dos terroristas do Hamas.

Vocês podem argumentar que os terroristas do Hamas praticam atos sociais e de solidariedade, mas não acreditem em tudo que vêem na mídia e muito menos em tudo que ouvem. Para que vocês consigam compreender, faço uma analogia com os traficantes no Rio de Janeiro, pois é legitimo o que eles fazem? Aliciar crianças inocentes para o trafico de drogas, colocando armas pesadas em suas mãos? Acredito que não, mesmo que os traficantes promovam atos sociais e atos solidários com os moradores dos morros onde estão alojados. Continuam desrespeitando o direito de crianças crescerem com educação saudável e não para a guerra, como os terroristas do Hamas fazem hoje.

Amigos brasileiros que tanto respeito e tanto quero bem, faço um apelo como palestino, como muçulmano, mas acima de tudo como um ser humano que não agüenta mais ver a ignorância e a falta de conhecimento por parte de muitas pessoas neste lindo Brasil:

Parem de atacar Israel, parem de atacar os judeus e também parem de achar que o povo palestino é somente de terroristas. Há muita gente boa, inocente e que não quer mais conflitos com os israelenses e não os odeiam, assim como não odeiam os americanos.

Muita gente la, incluindo minha família está cansada de tanta dor e sofrimento e sabemos que devemos ter uma convivência pacifica com Israel, afinal, é de Israel que vem nossa água, nossa comida, nosso trabalho e nosso dinheiro.

Israel inclusive nos oferece ajuda militar sabiam?

Quando houve acordo com a Autoridade Palestina no governo de Arafat, a policia de Israel treinou muitos de nossos homens que não queriam envolvimento com o conflito para que pudessem trabalhar na ordem de nossas cidades. Israel ofereceu treinamento para seus supostos inimigos, inclusive com armamento para que tivéssemos nossa própria segurança.

Terroristas que tentaram e não conseguiram se explodir nas cidades de Israel, receberam atendimento medico nos hospitais israelenses!! E muitas das escolas em Israel promovem a educação igualitária com alunos palestinos e judeus, convivendo em perfeita harmonia e recebendo educação sadia e de respeito ao próximo. Diferentemente do que acontece em Gaza, por exemplo.

Se nossos lideres não fossem tão burros e estúpidos, nosso povo sofrido não teria mais o que reclamar, pois em Israel estão as maiores oportunidades para um palestino que vive em gaza ou Cisjordânia e quem tem um mínimo de inteligência la sabe que não vai conseguir nunca varrer Israel do mapa ou exterminar todos os judeus, como apregoam certos lideres maníacos do nosso lado.

Quanto ganharíamos se estivéssemos do lado de Israel e dos judeus? Por que aqui no Brasil a convivência entre os dois povos sempre foi motivo de orgulho e quando estamos em sociedade ganhamos em tudo?

Meu tio recebeu visto de trabalho em Israel. Todos os dias levantava cedo e ia trabalhar em Israel e voltava de noite para sua casa em Gaza. Quando o Hamas tomou o poder à força e iniciou seus diários ataques as cidades israelenses, meu tio perdeu o emprego e a fronteira foi fechada. A culpa é de Israel? Do meu tio que nunca odiou os judeus? Não, a culpa é dos terroristas do Hamas. Meu tio hoje continua não odiando os israelenses nem os judeus. Vive na Síria, onde a situação não é das melhores, mas la não ha. grupos terroristas como o Hamas ou o Hezballah que somente acabam com a vida dos cidadãos de bem.

O povo palestino foi expulso de diversos paises chamados "amigos dos palestinos", incluindo Jordânia, Líbano, Síria e Líbia.

O Egito fecha sua fronteira com Gaza porque não nos querem por la, inclusive no tratado de paz com Israel, na devolução do Sinai ao Egito, foi oferecido por Israel devolver Gaza também e os egípcios não quiseram porque chamaram de terra sem lei e o pior lugar do mundo para se viver.

Por que paises fortes e com um território gigantesco como Arábia Saudita, Jordânia, Irã e outros não tão grandes, mas muito ricos, como Kweit, Emirados Árabes ou Catar não nos recebem de braços abertos? Preferem somente financiar atentados terroristas e mandar todo seu dinheiro para lideres palestinos terroristas e que não pensam no bem estar da população, mas somente em enriquecimento próprio e incentivo ao ódio e intolerância?

Por isso, meus amigos, escrevo esta mensagem. Sei que esta carta não vai fazer nenhum dos dois lados pararem com o atual conflito e muito menos mudar o pensamento dos lideres que hoje determinam o rumo do meu povo palestino, mas se servir para fazer o povo brasileiro pensar nisso e entender que não precisamos importar um conflito que não serve pra nada aqui e também para que todos vocês realmente entendam quem são os principais responsáveis pela matança generalizada que ocorre atualmente em Gaza, fico feliz.

Israel não é culpado, esta se defendendo dos irresponsáveis lideres terroristas palestinos que diariamente ataca nosso vizinho com seus nada caseiros foguetes para depois se esconderem atrás de mulheres e crianças, colocando toda a culpa nos israelenses, enquanto esses terroristas que infelizmente também são palestinos covardemente se escondem em áreas altamente populosas para causar ainda mais mortes e ganharem fotos sensacionalistas nos jornais do mundo todo.

O povo palestino também não é culpado, o povo palestino, tirando esses terroristas que são minoria quer a paz, quer o convívio pacifico com Israel e com os judeus.

Quer uma vida digna e viver em seu território chamando-o de lar, sem precisar fugir para qualquer outro país maravilhoso como o Brasil como eu fiz, pois a Palestina é o melhor lugar para viver um palestino.
Pensem nisso antes de escolher algum lado no conflito, mas acima de tudo, escolham o lado da paz, da tolerância e do respeito com quem quer que seja.

Grato,

Achmed Assef
achmedassef@gmail.com

Terça-feira, Janeiro 27, 2009

Mais sobre a doença mental


Existe algo que sempre me inquieta e hoje tenho plena certeza do que seja. Para explicar minha inquietação tenho antes que explicar as impressões que sempre tive dela. Essas são poucas, mas como são constantes crescem em qualidade. Sempre me achei mais inteligente que a média das pessoas, pelo menos desde que me entendo por gente, coisa que acontece há uns 5 anos somente. Depois essa impressão caiu e hoje eu penso que eu sou como todo mundo deveria ser normalmente, se não sofressem do mal que sofrem. Esse mal pode ser creditado à televisão, à educação, ao capitalismo, ao comunismo, mas de qualquer forma isso só explicaria a origem do mal e não o mal em si. Esse é muito fácil de perceber depois que se passam anos e anos convivendo ao seu lado.

Mas se as pessoas sofrem de um mal e eu me considero normal, por que diabos eu não acho que isso pode ser um sinal de grandiloqüência? Pelo simples fato de que não acho que sou exemplo para ninguém, não devem seguir o meu caminho, não quero que ninguém seja como eu sou e acho que se alguém se espelhar em mim para se desenvolver só pode ser um burro. Depois que percebi isso em meu íntimo é que tive a certeza de que não sou egocêntrico nem megalomaníaco. E consequentemente consegui enxergar mais claramente a realidade. Quando eu consegui enxergar mais claramente a realidade é que por tabela eu descobri o mal dos outros. Eles são incapazes de enxergar mais claramente a realidade.

De fato a ignorância não tem começo, ela é infinita e persistente. Todos os homens nascem ignorantes, igualmente ignorantes. Essa condição é natural e não precisa ter início, pois é a própria condição manifestada na realidade. Assim o bebê passa anos e anos para aprender a separar e dividir a realidade em pedaços, pedaços reconhecíveis, pedaços reconhecíveis que possuem ligações, pedaços reconhecíveis que possuem ligações e se repetem e são capazes de identificação. Isso em relação a todos os sentidos, a sensação ao tocar uma árvore vai se repetir, a resposta ao chorar vai se repetir, e assim por diante. Anos é o tempo que leva para que uma criança ganhe noção de profundidade, tridimensionalidade e capacidade de abstração. Basta ver qualquer bebê em sua plena forma desengonçada e destrambelhada para saber o que é isso instantaneamente.

Graças aos erros próprios e, em parte, à condução dos adultos a criança passa por essa fase incólume. E quando possui um sendo mais estável do mundo, em um processo paralelo ao outro, ela começa a falar. A fala é a conquista por natureza da criança, que vai aprender na marra a separação da realidade e sua nomeação. Se começa com papi e mami, ela em pouco tempo vai saber que existe ventilador, cama, garfo, papinha, e com o tempo vai ganhar a noção de amor, morte, doença, perigo etc. A criança aprende tudo isso na terapia de choque, ou ela aprende ou perece. E esquecemos rapidamente que ela demora anos e anos, no mínimo uns 6 anos para aprender e dominar completamente o idioma e conseguir captar grande parte da realidade. Mas mesmo assim ainda nessa idade a criança não sabe o que é morte.

Eis que continuando nessa descrição vamos terminar o crescimento de um novo ser humano apenas lá pelos 15 anos. E teremos um novo ser formado completamente aos 20. Essa era minha idéia básica, aos 20 anos mais ou menos foi quando tomei consciência da vida mesma e comecei a trilhar meu caminho particular de aprendizagem, busca e desenvolvimento. Quando passei, anos depois, a ver a realidade mais claramente percebi que nossos jovens de 20 anos estão infantilizados. Eles não conseguem perceber o mundo de maneira que um ser humano de 20 anos deveria ver, mas enxerga a realidade através de olhos totalmente deturpados. Cheios de vícios. Quando na verdade o ser humano deveria ter toda a base livre de vícios maiores para começar a desenvolver um trabalho sério, é exatamente o que hoje é o ápice da desenvoltura e por ali fica a coisa toda. Devemos lembrar que comparativamente, aqui em uma hipótese por mim formulada que deve ser considerada livremente, podemos comprar uma criança de 14 anos de dois séculos atrás como estando no mesmo nível intelectual de nossos jovens de 20 hoje.

Isso para falar em termos de início de uma existência minimamente satisfatória. Se olharmos nos consultórios de análise e psiquiatria hoje veremos que a maioria das pessoas não possuem problemas patológicos, mas simplesmente são arrastadas aos consultórios por simples carência emotiva e desestrutura interna para manter-se como um adulto. Ou seja, temos um exército de adultos que são infantis ainda em suas vidas internas. Constatando isso não é espanto algum ver hoje em dia pais, mães, filhos e/ou filhas muitas vezes como amigos e companheiros. A distância mental é tão pequena entre os dois que eles conseguem esse nível de aproximação, quebrando toda a corrente hierárquica necessária à educação do ser humano. Toda a falta e carência que uma mente pode sentir está à mostra para pesquisas nos adultos de hoje em dia. E principalmente nos jovens que serão adultos daqui a algum tempo.

Isso repercute em todos os níveis da vida social. Crianças são histéricas, inseguras, procuram a confirmação e comprovação de que estão certas em ídolos e figuras paternalistas. O pai é o símbolo, ou era, ou cada vez é menos, de referência do filho, a mãe é outro símbolo equivalente. O casal, cada um com sua parcela na construção do novo ser, quando hierarquicamente consolidado é um pilar na qual o filho irá se apoiar para lá chegar um dia. Quando os pais já são meros escombros de vigas retorcidas e colunas deformadas, não há mais apoio algum no qual o filho irá utilizar, e muitas vezes, estando no mesmo nível, haverá apoio mútuo de mesmo nível, o que é lamentável tanto para a consolidação dos pais, como para o crescimento da criança.

Essa forma de existir que hoje se espalha rapidamente por todas as camadas sociais, é um sintoma direto da falta de desenvolvimento interno de cada ser humano. Todos sabemos que um ser humano carente, que carece de algo, ou de tudo, é inseguro. Quem é inseguro procurará confirmações e apoio onde encontrar um pilar que ache íntegro. Se não houver tal pilar em sua vida toda a moral, todos os valores, todos os atos, forma de pensar e perceber o mundo serão relativizados. É como o estudante que possui toda a biblioteca mundial para estudar, mas não tem instrução de ninguém, tendo que sozinho ir lendo e buscando suas fontes de informação. Se toda a literatura e todos os livros filosóficos, científicos e de todos os tipos lá estiverem a chance que ele se perca no caminho e crie uma idéia absolutamente errada do mundo é enorme. Assim acontece hoje em dia. Mas o principal é que as obras mais significativas, as experiências mais enriquecedoras, não estão disponíveis ao grande público. Toda a literatura, cinema, todas as artes, os estudos, a ciência que está disponível para o grande público é da mais rasteira. Mas isso é evidente, como ensinar a uma criança um pensamento profundo, uma teoria elaborada, o método científico rigoroso? Não é possível.

Nesse momento reduz-se o mundo num círculo vicioso automático. Se as mentes estão mais fracas vamos relativizar e amenizar o estudo e os modos de compreender o mundo. E assim sucessivamente até o entorpecimento geral da mente humana em todos os níveis. Isso seria trágico por si só se fosse uma reação natural histórica da raça humana. Mas é, nesse caso, enraivecedor, pois o plano todo é orquestrado por uns poucos. O nível intelectual global tem caído profundamente nas últimas décadas. O engraçado é que era para ter crescido vertiginosamente. Qualquer trabalho literário e intelectual só pode ter lugar em sociedades confortáveis. Sociedades em que o nível de conforto atingiu um patamar tal que propicia a transferência de trabalhos braçais e de lutas constantes ao ócio individual. Deparamo-nos com um problema gigantesco aqui. Temos o nível de conforto mais elevado desde o surgimento da raça humana e ao mesmo tempo temos a derrocada do nível intelectual. Não digo que a produção deixou de existir. Nossos mercados editoriais crescem. Mas o lixo que é produzido e cada vez maior e a literatura de merda que existe é infinitamente superior a alta literatura.

Qualquer ser humano com 20 anos de idade que conviveu em uma sociedade minimamente desenvolvida sabe que se ouvir um homem o aconselhando a pular de uma ponte para ser feliz vai saber que o que o sujeito diz é errado, por rápida impressão interna. Mas isso atualmente não se dá ao fato de que viver é melhor que morrer, mas simplesmente que o fato de morrer por alguma coisa maior foi simplesmente tirado do imaginário popular. A vontade individual foi minada de todas as maneiras. É impensável hoje alguém decidir algo autonomamente se isso vai contra o consenso popular de nascer-estudar-trabalhar-morrer. Aliado a esse fato temos o direito à felicidade, que é um expressão totalmente sem sentido e absolutamente vazia. A felicidade não chega através de luta, trabalho, suor nem nada disso, é um estado alcançado mais pela contingência que pelo plano elaborado, aliás somente pela contingência. Pascal Bruckner sintetizou de forma magistral esse pensamento nessa frase: “nós constituímos as primeiras sociedades a tornar pessoas infelizes por não serem felizes.”

A condição humana é ser infeliz, é ter momentos de angústia, desilusão, tristeza e lamento. Essa é a nossa condição básica, nascemos ignorantes, pelados e famintos. Somos por definição seres que alçam vôo sobre as misérias. Através do trabalho, da luta individual, do crescimento interno, do desenvolvimento dos valores, da consolidação da mente sobre o corpo. Mas todo esse trabalho não nos leva à felicidade, mas a realização humana. Muitas das vezes é trabalhosa e estafante. E na grande maioria não há felicidade em comer, dormir, trabalhar e se manter. Essas coisas básicas trazem a tranqüilidade para ser humano de forma mais plena. Quem tem comida diariamente, uma cama para dormir, possui saúde e família não deve por isso ficar feliz automaticamente, mas simplesmente perceber que possui todas as necessidades básicas satisfeitas e que a partir dali pode buscar uma completude maior. Hoje em dia, talvez, a única coisa pela qual as pessoas lutassem com a própria vida seriam seus filhos, mas uma reduzida parcela da população, a maioria bradaria por uma melhor gestão governamental enquanto culpa meio mundo pelas mazelas.

O senso individual foi perdido e com isso perdeu-se a unidade interna do indivíduo que se vê capaz de analisar e validar ou não seus pensamentos com a realidade que se impõe a todos. Se a pessoa não se acha mais capaz, como pessoa, de autonomia, pela lógica inexorável do fato teremos uma pessoa que não é capaz de se ver como canal entre si e o mundo. Essa é a doença mental que falei no começo do texto. As pessoas deixaram de perceber-se como algo real que possui correspondência com a realidade e por isso, autonomamente, são capazes de avaliar o mundo por si mesmos e tomar decisões e guiar as próprias vidas.

Essa é a típica condição da criança. Ela é incapaz de autonomia e por isso busca validar-se e a suas ações pelas dos outros, dos pais, depois dos amigos, dos mestres etc. Temos um exército de crianças que não acreditam, ou não são capazes de ver o mundo como realidade mesma. E essas crianças podem ter a idade que for, temos crianças desde cinco anos de idade até crianças com cinqüenta. Esse problema é o maior problema que enfrentamos atualmente. A perda da noção básica individual como ser autônomo. E quando isso acontece, como acontece com qualquer criança, temos a realidade moldada por histórias, que não precisam de lastro real. Conte a uma criança qualquer história e ela acreditará, se for contada por alguém que confia. Por isso a sensação de autoridade da pseudo-ciência e da mídia que temos hoje é altamente destrutiva. Ela substitui a realidade mesma por histórias e narrativas. Que por atingirem crianças, terminam por serem absorvidas como realidade mesma.

A perda da autonomia é grave e traz conseqüências desastrosas para nossa sociedade. Trazem a perda dos valores, da moral e da ética, a perda da realização humana mesma, transferida para compras, trabalho e hedonismo, e trazem o mal maior, a influência à manipulação mental descarada que ocorre atualmente em todos os níveis da sociedade por uns poucos que conhecem a regra e se aproveitam dela para levar à cabo seus planos grandiloqüentes. Estar apto a perceber tais deformações sociais e mentais generalizadas é a busca básica de qualquer pessoa que perceba a realidade como está. Qualquer um que diga que sabe como trazer a felicidade e completude para a raça humana como um todo é maluco e megalomaníaco. Podemos ao máximo trazer alguns poucos esclarecimentos e uns caminhos incertos para a realização individual do ser, nunca da raça inteira, do povo inteiro, nem de toda nação. Salvar o planeta, salvar todas as crianças, salvar todas as mulheres, salvar todos os gays, salvar todos os árabes, salvar todos os judeus, salvar todas as baleias, salvar todos os negros etc., só pode ser piada de mal gosto e é, mas assim não é percebida pela maioria que não acha nada, o que é pior do que achar alguma coisa. Mas isso também é sintoma da doença mental, a perda constante de individualidade, de poder, de autonomia, de capacidade de crescimento e resolução dos próprios problemas. Perceber isso já é o grande passo para amadurecer, a criança só cresce da primeira vez que se vê como criança e logo busca crescer para ser adulto.

Segunda-feira, Janeiro 26, 2009

"Idiotas úteis" e a doença mental


É típico de uma mente contaminada achar que não existe realidade. Este tipo de mente só acha que tudo o que existe é expressão de opinião e sentimento. Assim criamos as situações mais díspares e esdrúxulas de todas quando alguém se pronuncia defendendo algo verdadeiro e logo um idiota contaminado se une a outros idiotas e proclamam em uníssono que aquela opinião está errada, simplesmente porque assim proclamam. Quanto maior o assunto, quanto mais grave ele for e tiver maior repercussão nos recônditos mentais, mais está sujeito à essa forma de deturpação da realidade.

Essa maneira de ver o mundo contamina principalmente nossos acadêmicos e jornalistas que acham não existir mais nada que a narrativa. E simplesmente ganha o joguinho idiota quem fizer prevalecer sua narrativa independentemente dos fatos mesmo. Logicamente que qualquer idiota (o uso aqui da palavra idiota se dá no nível dos “idiotas úteis”, termo cunhado por Lênin) confrontado com sua narrativa esperneará juntamente com seus cupinchas e tentará fazer com que sua opinião prevaleça. Fica meio difícil fazer isso com uma realidade objetiva última. Não adianta o grupinho de idiotas espernear dizendo que o carro em que eles estão não exista, o carro vai continuar existindo.

Assim é bem mais fácil fazer isso no campo jornalístico ou acadêmico. Sentado atrás de uma mesa ou protegido atrás de um título acadêmico, qualquer esperneio em grupo é logo taxado de verdadeiro, por mais que seja a mentira última mais sem vergonha. Quando um grupo de “úteis” são designados para o trabalho do esperneio não se pode mais confiar neles para saber a verdade. Pode-se confiar neles para descobrir a moda da hora ou a lavagem cerebral corrente, mas nunca para saber a verdade. Assim enquanto Obama no seu primeiro dia de presidente assina o maior acordo para promover o aborto mundialmente, temos que ficar ouvido de sua cor, seu sorriso, seu carisma, as esperanças do mundo, as possibilidades do milagre desejado etc. Nunca somos confrontados ou nos confrontamos com a realidade.

Dessa maneira nossa classe média acredita piamente no “coitadismo”. Ela acredita irremediavelmente que os pobres são pobres por sua culpa, de ter dinheiro. Acredita-se no mito de que para uns terem um pouco outros não podem ter nada. Dá-lhe esmola, ajuda pra ONGs, militantismo pelos direitos do homem, pela dignidade humana etc. Poderíamos ter pena do sujeito pobre, que não foi educado e ganha a vida mal e porcamente? Talvez. Mas preferimos ter pena do bandido, do ladrão, do traficante, do malandro, da puta etc. Chegamos ao ápice da deformação mental ao dizer claramente que roubar dinheiro dentro de um gabinete é pior que matar uma pessoa. Sério! E as pessoas continuam discutindo isso mesmo depois de qualquer argumento do tipo: VIDA HUMANA. A perda da causa e conseqüência mais imediata as fazem relativizar toda a moral e toda a ética em prol de um desdobramento infinito que vai terminar em quem? No pobre, novamente. Antes de ver que o roubo de dinheiro por um político atenta contra suas vidas, sua saúde, sua educação, seu salário, seu transporte, seus serviços... teimam em concluir que o dinheiro roubado vai matar milhares ou milhões de pobres que não tem nada a ver com a história, por uma cadeira de causa e conseqüência das mais obtusas e implausíveis.

Quem teima em ver a realidade em prol do pobre, e somente do pobre, teima em fazer exatamente como os jornais e demais mídias procuram conduzir o pensamento. Tudo sempre se refere aos pobres, aos miseráveis, aos flagelados etc. A educação tem que ser limada na base para que os padrões caiam absurdamente a fim de uma inserção social. O dinheiro há de ser distribuído da forma mais obtusa possível pelo pensamento paternalista. Ninguém nunca vê que essas medidas não são tentativas de melhorar alguma coisa, consertar um pouquinho disso ou daquilo. Essas coisas servem somente para deixar o problema como está e criar outro, de profundidade muito maior. Toda vez que o preceito democrático é usado ao extremo... este tente a desmoronar. Se todos que possuímos direitos a isso ou aquilo outro reivindicarmos nossos direitos conjuntamente e da maneira máxima a máquina governamental quebra, se esfacela e enguiça. Agora imagine se todas as pessoas forem colocadas na balança e forem criados milhares de direitos específicos para elas?

A mente humana criada livremente é capaz das maiores proezas. Ela é capaz das associações mais óbvias e das conclusões diretas mais elementares. Mas adoecida ela peca em fazer as operações mentais mais simples. A doença de nosso tempo é exatamente essa: achar que não há verdade, só há opiniões e expressões. Baseados nessa falcatrua intelectual implantada na mente de bilhões de seres humanos tiramos a conclusão direta e inescapável: contaminados por essa doença mental toda a realidade desaparece, prevalecendo o discurso.

Prevalecendo o discurso podem inventar qualquer realidade possível, basta que caiba dentro do discurso. Foi exatamente por esse meio que Obama não foi eleito. Elegeram em seu lugar uma idéia de esperança milagrosa. Sua cor de pele significou uma quebra de paradigma (virtual) e uma promessa de tempos melhores, mais brandos e humanos, quando na verdade a realidade se impõe por si mesma. Basta que o povo desligue a televisão para em menos tempo do que imagina começar a perceber a verdade. Sua vida crua e dura é tudo que lhe resta, e tais tipos de governantes só farão piorar, assim como o fez logo no começo do mandato ao assinar a proposta de gastar bilhões de dólares em plena crise com o fomento do aborto no mundo, para esperança Obama se mostra um perfeito traíra logo de cara. E o pior de tudo é que seus eleitores cristãos, protestantes, judeus, evangélicos e mulçumanos regozijam com seu salvador, o primeiro a ir contra suas crenças. Este é o tipo de reversão mental doentia a que as mentes estão condicionadas, esquecer a realidade e acreditar no discurso. Esquecendo que existe uma realidade que se impõe sobre cada discurso. Mas quando for perceber isso já será tarde demais.




Quinta-feira, Janeiro 15, 2009

Resoluções para 2009

O ser humano não nasce humano. Essa constatação básica tem implicações profundas na vida do sujeito que não só entende esse fato como também consegue compreender toda a série de relações mais essenciais que ele leva consigo. Uma criança recém nascida não é nada mais que potencialmente humana. Se conseguimos vislumbrar ali um ser humano não é porque podemos ver a humanidade, mas porque ela possui o potencial para continuar o processo da humanidade. Assim a educação de um ser humano leva tantos anos. Tornar-se humano é praticamente ir contra a natureza, é fazer florescer o potencial que não há em nenhum outro animal. Tente ensinar um cachorro a ler. Esta é a diferença fundamental entre nós e os outros animais. Temos potencial para sermos humanos.

Aprender a falar e escrever, se vestir e dar descarga após aliviar a bexiga estão longe de serem atos que garantem que o ser seja humano. Para quem passou algum tempo pensando no que é ser humano não é muito difícil ver que Fernandinho Beira-Mar e Tomás de Aquino compartilham todas essas características e nem por isso podemos igualá-los na escala de humanidade. Aquino é mais humano que Beira-Mar. Isso diz muito. Conseguimos classificar entre dos seres humanos aquele que possui maior humanidade e por isso temos a noção clara de que a realização humana é gradual. A distância entre o melhor macaco do mundo e o pior é ínfima. A distância entre o melhor ser humano do mundo e o pior é gigantesca e abismal. Entre aquele que apenas sabe falar e outro que maneja a língua, ou as línguas, de forma articulada e majestosa é de uma brutal discrepância.

Se a criança não nasce completamente humana é porque temos a obrigação de ensiná-la a se tornar uma pessoa boa, que saiba conviver com seus companheiros, que busque realizar o que de melhor puder e consiga se erguer no meio do caos para uma zona de busca do equilíbrio constante. Ensinamos que não se pode dar liberdade a todas as emoções e que o uso da razão, do comedimento e da educação é extremamente importante. E assim vamos construindo dentro daquela pessoinha que cresce uma atualização do ser humano que temos como idéia na mente, por mais que não consigamos sê-lo definitivamente. O que importa ressaltar nesse ponto é a dificuldade que existe em ser humano e se tornar humano. É uma luta diária e constante. Cada criança que nasce nos diz que devemos lutar pela humanidade, temos que nos esforçar para passar adiante nossa condição.

A cada geração a humanidade tem que aprender a falar, escrever, andar, se adequar a maneira do meio social em que vive etc. Nesse processo uma coisa é notável: se os pais não sabem escrever, e o filho não tiver contato com mais ninguém a não ser a família, ele nunca vai aprender a escrever. A conquista da fala e da escrita pode ser considerada a pedra fundamental do processo humano de se tornar humano. Se por um acaso só sobrarem crianças no mundo e todas as pessoas que sabem falar e escrever desaparecessem subitamente a raça humana estaria condenada a não mais falar nem ler, e quiçá existir. Se só aprendemos a ler com quem sabe ler, e só aprendemos falar com quem sabe falar, o processo tem sua analogia básica extensível para todos os outros campos da ação, externa ou interna. Só aprendemos a fazer uma mesa com um carpinteiro. Só aprendemos amar com quem ama. Que casos excepcionais possam acontecer e um gênio olhe para uma árvore e veja uma mesa, ou uma criança que vive em meio a mais baixa condição humana sem qualquer tipo de demonstração de carinho e afeto consiga construir o amor dentro de si, não podemos negar. Mas falamos das condições usuais de seres humanos normais. E os casos específicos só contribuem para demonstrar que o ser humano pode tornar-se humano, não de maneira fácil e pueril, mas que a condição e a potência para tal estão nos próprios seres é inegável.

Se não nascemos plenamente humanos é porque alguns atributos devemos desenvolver para tornarmo-nos tais. Essencialmente o pensamento sobre no que se deve desenvolver para tornar-se um ser humano completo vai variar de acordo com os povos. Mas de pronto já sabemos que alguns povos não construíram e não mantém essa busca. Assim quando a barbárie está instaurada e o que conta é a lei do mais forte, o cada um por si e o olho por olho e dente por dente. Nessas condições não há desenvolvimento humano possível. Este só se torna uma possibilidade com certa paz e tranqüilidade. Se tomarmos a definição olaviana de cultura como “tudo aquilo que não nasce pronto da natureza” podemos ter claramente um indício do que é tornar-se humano. É completar a si mesmo pela realização do que não nasce pronto da natureza. Um povo que está eternamente em luta não é capaz de elaborar sistemas de economia, organizações sociais, desenvolvimentos espirituais, artes e qual sejam os outros modos de manifestação da alta cultura humana, que pode se manifestar de diversas formas nos diversos povos.

O grande benefício é que uma vez elaboradas essas formas da alta manifestação humana elas passam a abrir campos de atuação mais amplos para os seres que vierem. Se demorou milênios para o ser desenvolver uma linguagem culta, é muito mais fácil passar adiante essa linguagem do momento que está criada do que reinventá-la a cada geração, coisa por si só impossível. A grande dificuldade disso é que esse tipo de manifestação humana não nasce pronta da natureza, mas é conquistada pelo agir humano. Nesse ponto podemos ver que preservar as formas da alta manifestação humana se torna uma imperativo para nossa sobrevivência como seres cada vez mais humanos. A destruição dessas manifestações é a maior afronta que pode acontecer à humanidade.

Mas como entender as manifestações existentes? Todo o processo de formação humano se dá com o aprendizado da fala e posteriormente da linguagem. A linguagem surge como forma de compartimentar, explicar e reter, para poder manejar, as diversas manifestações do cosmos na vida vivida. Por essa revelação não podemos negar que o ensino da língua é a forma primordial de crescimento do ser. Ao se articular ele pode analisar e transformar a realidade, e essas análises e transformações são partes integrantes do agir humano. A dúvida é perene em nossa raça, o questionamento nunca cessará. E é por isso que livros e ensinamentos orais são tão importantes em nossa história. Quando seres humanos notáveis passaram por essa existência e deixaram seu registro do que a eles foi revelado, seja por trabalho interno ou mera graça, só podemos festejar que esses registros não tenham se perdido. E devemos agradecer ainda mais pelos mais notórios dos notáveis. Pois nunca deixaremos de sermos devedores de pessoas como Sócrates, Platão e Aristóteles, de Jesus, Gandhi e Buda. Sem querer reduzir tudo unicamente a essas pessoas, eles representam muito bem o que de mais elevado o ser humano pode ser. Nossa cultura ocidental é eterna devedora do direito romano, da filosofia grega e das bases do judaísmo e do cristianismo. Negligenciar isso é esquecer e por à parte as mais altas contribuições que temos em prol de nos tornarmos mais humanos.

Toda educação deve privilegiar o ensino dessas bases, por serem tais, as bases nunca deixarão de serem fundamentais para a vida do ser humano pleno. Muito mais importante que ensinar conteúdos específicos devemos privilegiar as ferramentas mentais para a vida nesse mundo. Coisa totalmente oposta a educação atual e por isso devemos crer que nosso sistema educacional, ao privilegiar tudo que não é a base da civilização ocidental, só pode contribuir para a derrocada do ser humano. Somos cada vez mais, cada vez menos humanos somos também. A relativização da moral, a instrução clara de que tudo é relativo, a ordem de que só se pode agir em prol da revolução e o único estado que existe é o de guerra permanente, só contribui para a desmoralização humana e descentralização da sociedade.

O cúmulo da desumanidade se deu no século XX. Refaço minha declaração: o cúmulo, até agora visto, da desumanidade se deu no século XX. E não podemos negar que isso se deu na subversão dos valores morais ao destruir a função da religião na sociedade, na subversão do aprendizado no positivismo destrutivo e imoral e na subversão da ordem pública no ataque veemente à democracia e à liberdade humana. Se a democracia foi abolida em nome da revolução e levou ao pensamento da melhor raça exterminando as piores em prol do pensamento pseudo-científico da evolução da espécie e ainda recebeu a conivência da maior instituição religiosa que temos... só podemos concluir que dali nada poderia vir de bom. Os estragos da primeira metade do século XX só poderiam trazer as deturpações monstruosas da segunda metade. Através do positivismo o pensamento que se difundiu na mente de um grupo de pessoas poderosas no mundo é que elas poderiam sistematicamente tomar conta do mundo, garantir sua riqueza e controle indefinidamente e garantir que o resto lhes sirva como meros autômatos semi-humanos.

Para quem olha agora o caos em que nos encontramos e não possui as ferramentas adequadas para analisar tal situação só pode, não há outra opção, ficar desesperado e cair nas várias formas escapistas que se apresentam sob formas de pseudo-salvação e redenção. É triste ver pessoas, povos inteiros, manipulados a bel prazer de uma elite grotesca. Quem tem o mínimo esclarecimento poderá perceber um exército de zumbis que se satisfazem em aderir a uma luta para salvar as baleias, a defender veementemente que o seu programa esportivo preferido é essencial para a vida humana, a não acreditar que seja possível outra sociedade, a crer com fé redobrada na ingerência humana e que o melhor é o Estado ditar o que devemos fazer, na maioria das vezes deixando claro a luta das pessoas nos concursos públicos como forma de salvação. E aqui eu falo somente das pessoas que tiveram a desgraça de serem educadas pelos nossos sistemas de subversão humana. O resto da população, analfabeta, miserável e doente nunca vai saber o que se passa e o que se passará com elas. Não espanta muito que as autoridades estejam se lixando para o futuro dessas pessoas. Inclusive há planos das Nações Unidas para a redução da população humana, e nada melhor para reduzir a população tirar dela todo o poder de auto determinação, para então martelar projetos de planejamento familiar, ou então disseminar as idéias abortistas, ou fomentar o movimento homossexual, ou aderir totalmente na transformação das pessoas em hedonistas idiotas que só vão pensar em sexo, prazer e drogas, que inclusive são o alvo principal da ONU que deixa livremente a disseminação do uso de drogas e o apoio a grupos terroristas genocidas parece ser uma constante. Vendo o mundo por esse prisma vê-se até que ponto pode chegar a humanidade quando todo o contato com a língua, seu significado e sua profundidade metafísica na realidade são perdidos.

Quando se fala que antigamente a vida poderia ser materialmente pior, mas espiritualmente melhor, a maioria não consegue crer nisso. Essas pessoas já estão tão afastadas da idéia de autodeterminação, de liberdade, de atividade e gerência que não vislumbram mais um mundo onde essas palavras possuam um correspondente real. Assim através do ataque maciço à autonomia, à liberdade e ao ser humano como coisa possível, construímos uma massa desprovida de vontade. A prova mais cabal disso é a depressão da terceira idade que se criou e espalhou por toda a parte em nossa civilização ocidental. Quando perdem suas funções no trabalho perdem o motivo e a razão de viver. Essa realização pessoal pelo trabalho é mais uma deformação da mentalidade geral. Que nem sabe mais o que significa trabalho, associando diretamente à palavra sobrevivência. Trabalhar é sobreviver. Só na mente deturpada da atualidade tal associação poderia ser feita. E tanto mais quanto o melhor trabalho a ser feito é o burocrático governamental, que é visto para a luz no fim do túnel.

Pela demonstração acima podemos perceber quão grave é o estado de coisas atual. E as pessoas que naturalmente, fora do âmbito cultural, possuem um resquício de potencial humano, todo o esforço feito pela educação pública e particular, aliadas ao trabalho incessante da mídia em bombardear as mentes fracas com slogans e paráfrases politicamente corretas, é capaz de destruir completamente esse potencial. Transformamo-nos aos poucos na profética visão de Romero no seu constante cinema de Zumbis. Que ganha mais relevância quanto mais a realidade se aproxima dele. Na verdade é triste percebermos que até nossas classes acadêmicas e pensantes se tornam completos “idiotas úteis” no processo revolucionário, não deixando qualquer espaço para a criação e fomento do ser humano, da alta cultura e consequentemente sua ramificação pelas camadas mais baixas da sociedade. Quando as expressões mais altas da cultura de um povo são os jogadores de futebol, os pobres de rua reformados que agora batucam instrumentos de percussão, pseudo-escritores como Paulo Coelho e os artistas das novelas que espalham a desordem, a desmoralização e a corrupção só podemos concluir que esse povo já não tem mais rumo. E assim só temos que nos decidir sobre o que fazer. Ou ir com a maré e tornar-se um zumbi ou lutar bravamente contra esse ataque à extinção da humanidade como forma de ser completo e complexo. Se a segunda opção é a que lhe parece mais plausível, eu dou algumas rápidas dicas de como começar a se livrar disso, e por tabela tentar ajudar aos mais próximos.

5 Passos para fugir da merda:

1) Desligar a televisão.
Comentário: TUDO o que se vê na televisão é lixo. Rede Globo, SBT, RedeTV e Record não prestam, desde o programa de culinária matinal até o programa dominical de auditório são formas de doutrinação, são meios para a subversão da moral, dos bons costumes e ta inteligência.

2) Manter a televisão desligada.
Comentário: É praticamente impossível conseguir fazer isso. Esse é um dos passos mais determinantes para a transformação e lavagem da mente humana. Querendo ver um programa específico busque-o na internet, veja quando quiser e puder. Nunca compre DVDs desses programas, assim você alimentará essa indústria.

3) Não utilize jornais e revistas brasileiros para informar-se.
Comentário: Todos os jornais e revistas brasileiros do mainstream, da grande mídia, são doutrinários, mentirosos, caluniadores, defensores do crime e da desmoralização. O Globo, Estadão, A Folha de São Paulo e Jornal do Brasil não prestam. IstoÉ, Época, Veja não prestam. Nem preciso dizer de coisas como Jornal O Povo, Meia Hora, Extra e similares. Especial atenção para revistas ditas científicas. PS. Não existe revista científica brasileira que mereça o respeito. Galileu, Super Interessante e similares só fazem é confirmar as doutrinas e a desmoralização com afirmações pseudo científicas.

4) Resgate as bases de nossa cultura.
Comentário: Leia os clássicos da literatura mundial. Leia os gregos, principalmente Aristóteles e Platão. Não se incomode de ficar um ano lendo um livro desses autores, é melhor ler um livro de Aristóteles em um ano que assistir todas as edições do Jornal Nacional. Refine seu gosto musical relembrando os clássicos da música. Aprenda a gostar de música clássica. Diversifique seu ouvido com esses bálsamos. E principalmente reviva o pensamento religioso, mesmo que você não seja religioso. Se você preza o amor, o carinho, a solidariedade, a misericórdia, a democracia, a educação, o respeito, a honra etc., não se preze de buscar referências em obras consagradas.

5) USE A INTERNET.
Comentário: Essa é a única saída que nós temos para nos contrapormos a esses infelizes subversivos das grandes mídias que posam de autoridade. Ignore todas as fontes digitais do que você excluiu antes. Busque sites alternativos de informação. Blogs de comentaristas são bem vindos se lidos à exaustão. Crie o costume de sempre buscar o outro lado de algum comentário. Se 10 fulanos dizem X procure alguém que diga Y e compare, mas nunca tire uma conclusão, fique com as duas idéias na cabeça até que você se sinta confortável para se for o caso desacreditar todos os jornais e a mídia na hora em que eles estiverem mentindo descaradamente.

Sinceramente esses cinco passos são primordiais para a reabilitação do ser humano como potencial e atuante no mundo em que vivemos, longe da doutrinação verás que abre-se um campo de possibilidades muito maior e com o campo de ação maior ganha-se uma maior compreensão de mundo. Compreensão essa que é dura e cruel, mas necessária para fazermos do mundo algo melhor, lembre-se para que a Rede Globo termine, basta que desliguemos nossas televisões. Basta isso: o dedo no POWER OFF. Basta apertar um botão para ganhar a liberdade, mas quem está afim?

Sábado, Dezembro 27, 2008

RETROSPECTIVA 2008


É comum e praticamente uma tradição das mídias fazerem uma retrospectiva no fim de ano. Essas retrospectivas reúnem em um bloco de texto, ou em filme, os acontecimentos mais relevantes que surgiram no ano. Esses apanhados gerais de nada adiantam. A retrospectiva não funciona. E digo por quê. Quando um apanhado de fatos é jogado na frente do cidadão pacato que lê tranquilamente ou assiste ao programa, com a boca cheia de nozes e meio alto da cerveja, aquele amontoado de acontecimentos só o fazem relembrar do momento em que aconteceram. No máximo faz com que o sujeito se lembre do que comentou ou o que sentiu na hora. Assim como uma música desperta algumas lembranças a retrospectiva só faz trazer a recordação à tona.

Para que um apanhado de fatos tenha algum significado eles precisam ser avaliados. Precisam de um sentido. Mas a dita imparcialidade jornalesca dos dias atuais impede que haja um propósito para o que mostram. Quando o fato é mostrado por que é um fato conclua o que quiser quem quiser. Isso seria verdade se vivêssemos numa sociedade de seres pensantes. Se 80% da nossa população é analfabeta funcional imediatamente pensamos que elas mal sabem lidar com a realidade que possuem, a mais imediata, quanto mais avaliar as nuances mais profundas dos fatos. Se alguém mal entende o fato mesmo, como vai tirar daquilo algum sentido?

Então o que farei será uma retrospectiva, mas uma retrospectiva do pensamento. Do meu pensamento. De como os fatos se processaram, de como acho que eles se interligam, de como as coisas tomam um sentido mais amplo ou mais supérfluo. É a primeira vez que farei tal coisa, é a primeira vez na minha vida que vejo a necessidade de tal coisa. Assim deve ser a primeira vez que eu me vejo como ser humano que vive, constata e aprende. Nesse momento uma retrospectiva é o resumo máximo do processo histórico. Só há história para quem vive no presente e se vê como um indivíduo que carrega todo o peso do passado, que necessariamente aconteceu, e tenta, ao refletir sobre ele, se realizar no mundo concreto e partir para a ação, partir para a vida como conhecedor do que já foi, do que é e tomando o rumo do que será. A retrospectiva é o último capítulo da história, que quando é contada passa a ser o penúltimo no movimento eterno que lhe é próprio, vamos contá-la.

Perdão, antes de mais nada, pela total descronologia que adotarei. A avaliação dos fatos traz uma concreção que forma um bloco e esse bloco é dividido pela importância de alguns assuntos, ou temas, que serão muito importantes para a avaliação da vida, da realidade e de nossa situação. Assim esclarecido vamos lá.

Para começar devo relembrar três fatos que analogicamente resumem o ano. Morreu Derci. Morreu o padre dos balões. Morreu Beto Carreiro. Derci era a rainha da baixaria, reconhecida amplamente pelo baixo calão de seu discurso. O padre dos balões foi um ícone da boa vontade que aliada à estupidez termina de maneira trágica. E Beto Carreiro era o maior símbolo do circo brasileiro. O circo brasileiro passou de Beto Carreiro para Brasília e de Brasília para o mundo. Essa realidade não foi notada, como fato, pois as pessoas, em sua grande maioria, procuravam fazer alguma coisa, para sobreviver (ok), mas agindo sem refletir terminamos estourando nossos balões de hélio. Sem planejamento terminamos sem saber para onde vamos, ou sabendo e/ou querendo somos dragados para fora do nosso caminho, e pela simples ignorância de manejar o que temos ocasionamos nossa própria derrota, muitas vezes mortal. E quando tudo está perdido, só há duas saídas. A primeira é tentar romancear a realidade para não perceber a derrota. A outra, dá-lhe Derci, é reconhecer a merda em que se está e dizer em plenos pulmões: É agora fodeu!

E é exatamente esse sentimento que fica nesse fim de ano. Agora tudo foi pro brejo. Mas como sentir-se de uma maneira não é necessariamente estar ou ser dessa maneira, devemos analisar o que se passa, e te digo com certa confiança, a coisa está preta.

Esse ano foram lançados dois livros, de dois brasileiros, que dizem praticamente tudo sobre nossa situação. Lula é Minha Anta do Diogo Mainardi e O País dos Petralhas do Reinaldo Azevedo. Nossa situação está tão surreal que esses livros, apenas dois, podem ser considerados os mais importantes do ano. Esqueça Paulo Coelho e a baboseira do líder. Esqueça Augusto Cury e seu psicologismo de quinta. Esqueça o cachorrinho Marley. Esqueça os vampiros adolescentes. Esqueça Monteiro Lobato e o raio do presidente negro. Esqueça Todas essas pendengas de auto ajuda, reflexão, auto estima, como fazer, 10 passos para..., enriquecer etc., esqueça tudo isso. Jogue no lixo. Leia Mainardi e Azevedo. Assim você entenderá melhor o ano. Para esclarecer melhor a nossa situação essa retrospectiva é fundamental. Vamos lá.

Nosso governo se monta em cima do Bolsa Família. Usa a Petrobrás para manobras políticas. Usa a Telemar para enriquecimento próprio. Apóia governos esquerdistas comunistas da América Latina. Trava contato com guerrilheiros torturadores e seqüestradores. Só isso já basta para arrepiar os cabelos. Esse ano o governo colombiano matou o líder das Farcs e o número dois. Raúl Reyes. Uma revista colombiana obteve acesso ao conteúdo do laptop de Reyes e constatou que ele trocara e-mails com a cúpula do governo brasileiro. Dilma Russef contratou a mulher do contato das Farc e a colocou diretamente dentro do Planalto. Lula tem fotos ao lado de Reyes e Medina. Em qualquer país sério o contato direto do presidente e seus chegados com a narcoguerrilha colombiana seria o suficiente para levar todos presos. Mas o governo se pronunciou oficialmente e disse que nunca travou contato com as Farcs. O bilhetinho de Lula vale mais que fotos, e-mails, contratos e todas as provas e evidências possíveis do seu envolvimento com as Farcs. Nossa imprensa é maravilhosa.

Vejamos então o seu governo. Na área de saúde pública, uma graça só. De todas as medidas podemos destacar duas que fizeram desse ano um dos mais estúpidos desse governo petralha. 1) A compra através de licitação pública de 15 milhões de saches-gel de lubrificante anal para distribuição aos gays e 2) aprovação de que o SUS cubra operações de troca de sexo. Realmente com nossa saúde indo às mil maravilhas esses atos são os únicos que sobraram para permear o ano da saúde pública. Nos nossos hospitais esse ano não morreram muitos recém-nascidos por precariedade de maternidades. Não faltou incentivo para as coisas mais básicas e as reportagens dos jornais sobre teto desabando em hospitais, a falta de gazes, falta de dipirona, greves, reivindicações de médicos e enfermeiros etc., foram todas armações grotescas para sabotar o governo. Não bastasse essas sandices a parada gay em São Paulo recebe 400 milhões em investimentos. Ao mesmo tempo em que as novelas da rede globo (com minúscula de propósito) adotaram o sistema de cotas, mas para personagens homossexuais.

Não sei se, exatamente, no livro do Reinaldo está contido, mas no seu Blog na Veja certamente pode-se encontrar. O Ministério da Educação foi assaltado, desestruturado e desequilibrado. Todas as provas estão lá. Questões de provas mostram a doutrinação nas escolas, nos concursos públicos, nos vestibulares etc. Até em matemática conseguem doutrinar os alunos, falar que o capitalismo é ruim e o socialismo é bom. Nossas crianças estão sendo doutrinadas há muito tempo, mas nesse ano Reinaldo fez um ótimo trabalho divulgando essa petralhada. Assim como se não bastasse doutrinar as crianças, coitadas, uma nova denúncia estarrece nossas mentes. O kit de educação sexual nas escolas públicas contém um pênis de borracha, vulgo consolo, para ensinar as crianças as melhores maneiras de se fazer sexo, assim como o diálogo e o ensino das posições sexuais. E como colocar a camisinha. Imagina uma turma de moleques, vendo a professora pegar um pau de borracha e colocar uma camisinha nele? Incrivelmente essa educação sexual só piorou o número de gravidez na adolescência e a promiscuidade entre os adolescentes. Conclusão do ministério da educação? Os métodos estão muito brandos, há de se intensificar os métodos de educação sexual.

Esse ano aconteceu algo muito curioso. O presidente da ANP, Haroldo Lima, fez uma declaração sobre descobertas da Petrobrás de novos campos de petróleo, descobertas essas que não haviam sido anunciadas oficialmente pela empresa, e depois declara que desconhece a Bolsa de Valores e não sabia que seu comentário iria repercutir diretamente nas ações. O pior de tudo? Ele realmente desconhece, quem viu a entrevista com ele na Globonews percebeu que o presidente da ANP é uma anta, um imbecil completo. Quem indica o presidente da ANP? Deixo para o leitor descobrir.

Nesse ano Gilberto Gil deixou o cargo de ministro da cultura. Deixou Juca Ferreira no seu lugar. Se Gilberto Gil já era uma vergonha para um ministro da cultura, esse Juca é exemplar pro cargo. Vejamos alguns projetos em que ele participou: Coordenador do Projeto de História Oral dos Bairros de Salvador; Assessor do Centro de Estudos da Referência Negromestiça (CERNE); Assessor do Projeto Axé (Projeto Educacional para Meninos de Rua). Então história oral, a negromestiçagem e o projeto axé foram, até 1995, o que de melhor Juca fez na área de “cultura”. Depois disso está envolvido diretamente num sem fim de atividades ligadas ao meio ambiente, todos envolvendo o tema: sustentabilidade. De cultura vamos ter isso, filmes sobre o meio ambiente, livros sobre a sustentabilidade, teatro sobre o desmatamento etc., agora me diga: que raio de cultura é essa?

Chega de falar do governo Lula, já temos retrospectiva demais para um só ano. É tanta coisa surreal que parece mentira. Mas não é. Aí reside o problema. Se tudo isso acontece dessa maneira como é que nós nunca ficamos sabendo dessas coisas da maneira que é verdadeira? Agradeçam a nossa mírdia, ou a nossa mérdia. Tanto faz. Esse ano a mírdia brasileira, que era um fenômeno cultural da nossa terrinha, conseguiu um feito memorável, expandir-se. Seu modus operandis foi devidamente copiado e sua aplicação em larga escala garantiu a eleição de um sujeito obscuro para a presidência americana (com trocadilho por favor).

Há pouco tempo O Globo publicou uma matéria sobre a revista Time, que elegeu Obama o “homem do ano” e o congratulou, pois foi eleito presidente e há dois anos era um ilustre desconhecido. Ao inverter totalmente a ordem da coisa a notícia nos mostra a que nível a imprensa chegou. Primeiro a revista Time nos diz que é bom que elejamos um presidente que desconhecemos completamente. Em seguida O Globo repete isso como filho que imita o que o pai disse. Certamente Obama é o man of the year, o homem desconhecido, sem passado, o homem mais fraudulento, mais mentiroso do ano.

Como disse, a mírdia se expandiu para as terras estadunidenses. Isso quer dizer o que? Que fatos relevantes e preocupantes foram sistematicamente escondidos, tapados, abafados. Para começar: em fevereiro Hillary Clinton, então candidata a vaga democrata para eleição, divulgou fotos de Obama com roupas mulçumanas, fizeram vista grossa para o fato. Durante a campanha um grupo obamista fez um boneco da Sarah Palin, vice do McCain, e tripudiou do boneco, a mostrando enforcada, as autoridades acharam graça da “brincadeira”, e assim foi noticiado. Um outro grupo, a favor de McCain, fez um boneco do Obama. Foram acusados de crime, racismo, instigação à violência e foram considerados indecentes. O encanador Joe, num dos debates públicos, fez a Obama uma pergunta inocente, contundente, sobre a taxação de empresas, e queria esclarecer se o que Obama considerava uma grande empresa não seria exagero, pois o faturamento anual que Obama prometeu sobretaxar era mais ou menos de pequenas e médias empresas. Obama desconcertado com a pergunta se embananou todo para responder, o que acabou não fazendo, desconversou. No dia seguinte a vida do pobre encanador estava acabada. A imprensa juntamente com o governo descobriu que ele não havia pago uma multa há 5 anos e que ele fazia serviços de encanador sem a carteirinha do sindicato, tudo publicado em matéria de capa. Sarah Palin foi processada por uma demissão justa que fizera, dentro de seu mandato, de um policial. O processo alegava que ela o tinha demitido por razões pessoais, um processo pequeno e ridículo. Ele foi estampado nas capas dos principais jornais seguidamente ao longo de dias. Phillip Berg, um democrata, para quem não sabe: um democrata é do partido de Obama, abriu um processo contra Obama. No processo ele alegava que o candidato não havia apresentado a documentação necessária e que sua certidão de nascimento faltava entre os documentos oficiais para a candidatura. O site do cidadão recebeu mais de 30 milhões de acessos em poucos dias. Nem uma palavra sequer foi dita em jornal algum do país. McCain viajou ao Chile no começo de sua carreira, ele se encontrou com Pinochet. O fato foi alardeado por todos os jornais, mesmo que o encontro tenha sido em 1985. Obama estudou em Harvard com dinheiro de um príncipe saudita que apóia grupos terroristas. Obama trabalhou em ONGs de militantes esquerdistas radicais. Obama manteve contato com terroristas nos EUA. Obama apoiou a candidatura de Odinga no Quênia, mesmo depois de Odinga ter queimado igrejas católicas, algumas com pessoas dentro. Nenhuma palavra foi dita sobre esses fatos nos jornais.

Esse quadro de um parágrafo é uma retrospectiva suficiente para mostrar quem é Obama. E o que a mírdia fez com ele. Elegeram um desconhecido. Que só permaneceu assim por conta da mérdia americana. Esse ano será marcado por essa eleição, e pelo ano em que a mídia americana se vendeu, e elegeu o homem negro, o primeiro que vai governar os EUA. Como se o caso de pele fosse importante. Como se um negro por ser negro merecesse estar na Casa Branca. O governo americano foi corrompido, o sistema americano seria o único a salvar a coisa toda. Mas o Supremo se recusou a ver o caso. Apresentou uma desculpa esfarrapada e tirou o corpo fora. E não só de um processo, mas de vários, que ainda analisa e ainda se esquiva de ver. Obama é um desconhecido, aliado exatamente com o discurso da ONU. Ele bate na tecla do meio ambiente, do aquecimento global, da sustentabilidade. A “Onda Verde” nunca foi tão presente em nossas vidas como foi esse ano.

Desde 2006 o documentário de Al Gore, que foi agraciado politicamente com 2 Oscars, tem feito a cabeça de muita gente. Gente normal que acredita no que vê no dia a dia, que vive tranquilamente sua vida. Que passa a crer no que não pode ver, temer o desconhecido, ter medo das coisas invisíveis. O meio ambiente é uma arma, arma de manipulação, arma que pega as pessoas diretamente pelo medo. O medo da desgraça.

Esse também foi o ano das desgraças. Mianmar sofreu. Em maio Mianmar foi atingida por um ciclone e perto de 40 mil pessoas morreram. O caso foi noticiado com requintes de realidade pela mídia. A China foi vítima de um terremoto, 12 mil pessoas morreram, e milhares ficaram feridas. Santa Catarina sofreu o maior desastre da sua história, 100 mortos. Nova Orleans em agosto retirou praticamente sua população inteira com medo do furacão Gustav. Queimadas na Califórnia em julho causaram danos enormes e mais de mil focos foram detectados. Em maio um vulcão entra em erupção no Chile e causa o deslocamento de milhares de pessoas. Todos esses fatos são noticiados com prioridade. São estampados à vista nos jornais impressos. Merecem vários minutos nos jornais televisivos. Causam a impressão que o mundo está caindo, tudo está desmoronando. E especialistas sempre apontam as causas desses desastres: o aquecimento global provocado pelo homem.

Enquanto todos esses desastres que permearam os noticiários o ano inteiro são fixados na mente do espectador com ampla divulgação, dois acontecimentos passaram despercebidos do conhecimento público. A Rússia invadiu a Ossétia do Sul para brigar com o governo da Geórgia que matou cerca de 2 mil pessoas, e desalojou e deslocou milhares de outras. Esse evento fala mais da Rússia e seu processo expansivo. A Rússia é um caso à parte, Putin com sua política de controle total se manteve no poder ao conseguir eleger Medvedev, seu cupincha, e fazer com que fosse nomeado primeiro-ministro. A expansão russa é escondida e abafada dos noticiários. Se a KGB era a maior agência de informação e influência no mundo, com mais de 500 mil funcionários e/ou colaboradores, ao ser sucedida pela FSB desapareceu do conhecimento público e praticamente não se ouve mais falar de sua atuação. Mesmo que esteja envolvida mundialmente com lavagem de dinheiro do tráfico, principalmente latino americano, com atentados terroristas, manipulações internas, controle completo da mídia russa, doutrinação de jovens etc. Quando a Rússia se mostrou solícita e concordou em fazer movimentos militares marítimos com a Venezuela, e foi a mediadora do caso nuclear com o Irã, ninguém viu nisso uma suspeita de que a Rússia está envolvida demais com esses regimes tenebrosos. Nada sai na mídia.

Mas o destaque do ano, pelo menos dos que eu conheci foi o caso do Congo. Nas disputas internas entre governo e grupos de milícias/paramilitares, apelidados de exército pela libertação, forças armadas revolucionárias e coisas do tipo, mais de 250 mil pessoas sofreram danos, seja por mortes, torturas, estupros etc., a Cruz Vermelha garantiu que a situação estava caótica e incontrolável. Certamente o motivo é o mesmo que sempre foi: raça. Tutsis contra hutus. Se somarmos todas as desgraças ambientais do ano nada se compara a esse genocídio do Congo. Mas a mérdia brasileira e internacional noticiou com notas de rodapé e com anúncios breves, como quem diz que nada aconteceu.

Afinal durante todo esse incidente outra coisa era mais importante. Muito mais importante. Primeira coisa de relevância para esse ano de 2008: a destruição do sistema americano com a eleição do inelegível Obama. A segunda coisa que mais ressaltou o ano foi o assalto sistemático de mais de 5 trilhões de dólares das empresas privadas aos cofres públicos dos países do mundo inteiro. Há quem veja pelo ângulo que foi a maior onda de estatização que houve há muito tempo, mas pelo que sei estatizar é tomar controle total, colocar uma empresa nas mãos do Estado. E isso de longe foi feito. Alardearam que a crise financeira só teria solução se os governos interviessem com dinheiro, muito dinheiro. Tudo começou com alguns bancos americanos. Que decretaram insolvência, logo uma série, uma cascata inenarrável de bancos e empresas começaram a abrir o bico e colocar a língua pra fora. Segundo o presidente do FED havia uma crise não só de crédito para o público como também entre bancos. Coisa inusitada para quem viu os documentos que mostravam que naquele mesmo instante os empréstimos subiam em número e quantidade entre os bancos. Assim acreditando na mentira do FED todo o mercado que é gerido pela confiança mútua foi abaixo. Incrivelmente essa crise precedeu exatamente a eleição americana. Foi sincronizado, um mês e meio antes da eleição a crise começou.

Empresas pediram dinheiro aos governos e deram férias coletivas. Bancos quebraram e foram socorridos pelo governo, comprando títulos podres. EUA, UE e China despojaram quase 5 trilhões de dólares nos mercados, nas empresas e nos bancos. Que até agora não pareceram mudar muito suas políticas. Mostrou que o crédito é a força motriz da economia mundial, que um boato do FED pode causar a derrocada mundial, que se para quisermos viver decentemente temos que terminar essa onda de créditos infernal, mas o que fizeram foi justamente reativar o crédito, e tentar se salvar bebendo mais veneno como se fosse antídoto. As conseqüências disso serão sentidas diretamente após o ano novo.

Enquanto isso os americanos assinaram um acordo de retirada das tropas do Iraque até 2011. As autoridades e as pessoas mais sensatas no Iraque dizem que é muito cedo para a retirada dessas tropas. Mas Obama com um senso infalível de oportunidade disse que iria retirar as tropas de lá. Para alocá-las no Afeganistão. Mas já sabemos que grande parte dos soldados americanos permanecerão lá, só que com outros títulos, do tipo: consultor, instrutor etc. E ao falar desse lado do mundo, não podemos esquecer que esse ano um passo decisivo para a islamização da Europa foi dado. Vide o fricote dos mulçumanos em escolas britânicas que atacaram o ensino do holocausto. Uma tevê sueca abriu um programa que é apresentado por três mulçumanas, que chegam as raias da loucura de dizer que os suecos que têm de se adaptar aos modos deles, e não o contrário, quando falavam da imigração mulçumana para o país e o conflito de costumes. Um livro fundamental para o entendimento desse fato é A Tirania da Penitência, do pensador Pascal Bruckner, que foi lançado esse ano aqui no Brasil.

O tema é tão pertinente que todos os filmes de ação e intriga política de Hollywood que se pretendem se alçar da mediocridade nos últimos anos passa pelo islã. E mesmo quando não tocam o assunto diretamente pegam o enredo para se alimentar de seus frutos. Assim, um dos melhores filmes do ano, Batman O Cavaleiro das Trevas, bate na tecla do terrorismo. O Homem de Ferro, considerado pelos críticos como um bom filme, começa com o protagonista sendo seqüestrado por mulçumanos. O filme Rede de Mentiras trata diretamente do assunto. O Traidor também. Só para citar alguns filmes de grande porte que se utilizaram desse tema. Saindo da esfera global e retornando para a nossa terrinha o destaque vai para a continuidade das produções nacionais que privilegiam a temática do pobre e do excluído. Parece não ter fim essa vontade inesgotável de procurar histórias de crimonosos, pobres, coitados da periferia que não tiveram a chance... Ônibus 174 é o representante brasileiro para o Oscar de 2009, e resume perfeitamente nosso clima cinematográfico.

Mas esse clima de coitadismo não é novo. Deveríamos estar acostumados com ele. E o pior é que estamos. Quando vemos um criminoso que é pobre e miserável é bem capaz que o absolvamos com bases em psicologismos baratos ou ao imputar a culpa no sistema cruel. E automaticamente já consideramos empresários pessoas do mais baixo teor moral, corruptíveis etc. Essa mentalidade é notável e está disseminada pela sociedade. Assim, nossos políticos corruptos também são vistos como pessoas imorais, mas consideramos que eles estejam jogando o jogo político, e por isso é plausível que isso aconteça. Que não existe mais jeito de não ser assim e roubar é comum, ordinário. Pelo imaginário popular podemos ver exatamente o que se passa na esfera política, muita roubalheira.

Começamos com nosso expoente internacional de maior envergadura. Esqueça os esportes, esqueça nossos acadêmicos, esqueça nossos músicos, o nosso maior expoente internacional esse ano foi Andréia Schwartz, cafetina brasileira que atuava nos EUA e foi um dos motes da renúncia do governador de Nova York. Foi a brasileira que causou mais efeito fora das bordas de nosso país. Enquanto o mundo gira em tormentos maiores nós nos comprazemos em nos comover com acontecimentos de baixo calibre. Assim o ano foi marcado por alguns eventos que isoladamente nada seriam se não mais uma manifestação da baixeza humana, mas ampliados e retratados do jeito que foram pela nossa mírdia ficamos acuados diante de nossos televisores como se aquela realidade soçobrasse por todos os cantos da realidade.

O casal Nardoni foi acusado de ter jogado a filha pela janela, uma criança de 5 anos. Na verdade ninguém nunca saberá o que aconteceu. Com a exposição da mídia que já de cara os acusou de assassinos, eles serão condenados. Menos um ponto para a imparcialidade da justiça brasileira. Pois me diga, quem é que vai, em sã consciência inocentar o casal? Se toda a mídia já os julgou como culpados, ninguém irá se opor a esse veredicto. Assim outros casos de crianças que foram jogados pela janela apareceram e ficamos achando que brasileiro é mau, e joga crianças pelas janelas. Outro caso de repercussão nacional foi do jovem Lindenberg que seqüestrou a namorada e uma amiga. Diz-se que foi pelo término do namoro. De qualquer jeito a Eloá foi morta, numa invasão meio controversa da polícia a troca de tiros acabou com essa morte. Outro caso de relevância, menor, foi o do jovem Daniel Duque que foi morto a tiros na saída de uma boate, diz-se que um PM a paisana que acompanhava outro rapaz o matou. E temos o caso de Sílvia Calabresi Lima. Ela foi presa porque torturou crianças, e a própria “filha”. Assim o ano foi permeado por quatro casos acidentais que tornaram-se o molde pelo qual as pessoas passaram a avaliar o estado das coisas.

Além de Obama e a crise financeira que só foram dar as caras de setembro em diante, tivemos a China. Os jogos olímpicos foram em Beijing. Repórteres reclamaram dos bloqueios de sites em território chinês. Os conflitos com tibetanos antes do início dos jogos não foi suficiente para embarreirar os jogos. Na abertura da Olimpíada a China contou sua história. As tradições milenares, seus costumes etc., mas ignorou o período da Revolução Cultural. Mao-tsé foi sumamente apagado da história. Ao invés de encarar o problema, jogou-se a sujeita pra baixo do tapete. O Partido Comunista não ia explicitar sua grande inconveniência de 70 milhões de mortos e todas as grandes tradições culturais destruídas. Mas exaltou sua tecnologia, sua abertura para o mundo capitalista. Fazendo assim a síntese do movimento comunista atual. Não interessa mais os mercados, a briga agora não é mais pelo dinheiro, e sim pela cultura. Ao ignorar o processo mortífero de sua revolução comunista o PC da China fez exatamente como nossas mérdias, abafou o caso. Ninguém sabe, ninguém viu e por isso não existe, ou existiu.

Do oriente passamos ao ocidente, nessa parte reduzida que chamamos de América Latina, cujo ano foi frutífero para os movimentos comunistas revolucionários. O Equador aprovou uma constituição feita no estrangeiro. Esta constituição equatoriana vem com todos os tópicos do programa mundial da ONU. Além desse ato meio maluco do Correa ouve a crise diplomática com o Brasil. A coisa envolvendo a Odebrecht terminou no chamado do embaixador brasileiro do Equador para avaliar o problema, ato que não foi bem visto pelo governo equatoriano. Já a Venezuela ordenou em março a expulsão do embaixador Colombiano devido à crise diplomática que envolveu a Colômbia e o Equador. O exército colombiano invadiu terras equatorianas para prender, ou matar, o número 2 das FARCs, Raúl Reyes. Em setembro o mesmo governo Venezuelano expulsou o embaixador americano. Dessa vez foi em represália à expulsão do embaixador boliviano de Washington. Que foi uma represália à expulsão do embaixador americano na Bolívia, cujo governo associou às manobras da oposição. O eixo Bolívia-Equador-Venezuela está criando um verdadeiro governo comunista unificado por essas bandas. Eles aprovam o que querem, manipulam livremente as democracias que insistem em dizem serem legítimas. Se Lula não fosse o fundador do Foro de São Paulo e tivesse contato direto e articulado com todos esses governos seria difícil pensar porque apoiamos esses loucos revolucionários. Com o quarteto Brasil, Equador, Venezuela e Bolívia nada mais nos separa dos anos vindouros que só podem se mostrar perigosos para a liberdade, para a democracia, para os valores mais caros que nutrimos, para todas as religiões sérias e para um funcionamento saudável do nosso modo de vida. Não é à toa que o governo americano foi ignorado no encontro que aconteceu dia 17 de dezembro da Costa do Sauípe, de chefes de estado que participam do Mercosul, não sendo essa reunião diretamente associada ao Mercosul o governo americano se viu pela primeira vez desprestigiado. Agora ele percebe o erro que cometeu ao deixar os revolucionários agirem livre e impunemente por essas bandas.

Com todas essas coisas graves explodindo debaixo de nossos narizes parece, pelos comentários dos comentadores políticos, que nada vai mal, que tudo está bem e que tudo isso não passa da mais normal realidade acontecendo. Assim de tudo o que há de errado na América Latina vamos ter crises com a Espanha, que embarreirou a entrada de vários brasileiros em aeroportos do país. Adotando uma reciprocidade o Brasil também aumentou o nível no “processo seletivo” que deixa estrangeiros espanhóis entrar aqui. Só que quem perde mais adotando tais medidas o Brasil nesse fim de mundo ou a Espanha que em nada depende de nós?

Que a UE já está de conluio com as forças revolucionárias na América Latina não resta dúvida. Basta ver que em julho, se não me engano, o presidente francês Sarkozy ganhou um cargo importante dentro da União Européia, e foi justamente uma ou duas semanas depois que ele assumiu esse cargo que a Betancourt foi liberada pelas FARCs. E recebeu os louros de ter intermediado as negociações. Com os EUA em franca decadência política em termos de articulação e influência no mundo, a União Européia está se deixando islamizar. Está fazendo vista grossa para a expansão russa e tenta se enturmar com a China. Esse processo é deveras preocupante e um novo quadro global de influências políticas está sendo montado. Quando todo o mundo terrorista, esquerdista, revolucionário e comunista aplaude o presidente americano eleito, alguma coisa está errada.

Esse estado de coisas é ajudado diretamente pela ONU. Como todos sabemos a ONU é um órgão internacional apátrido. E pode-se ler diretamente em sua carta constituição que ela não pode interferir em processos internos soberanos dos países. Mas no meio do ano veio um cubano para o Brasil reclamar, com a chancela da ONU, que está na hora do país rever seu posicionamento em relação com os crimes da ditadura. Incrivelmente essa revisão só trataria de rever casos de militares e nunca de militantes. Assim Fidel por questões de saúde renunciou ao governo cubano, seu irmão Raúl Castro assumiu e já fez algumas modificações no quadro econômico cubano. Abriu o mercado para a venda de eletrodomésticos. Essa cartilha é lei. Todos os governos comunistas estão abrindo seus mercados ao capitalismo, ele nada mais fez que seguir o óbvio. Ao mesmo tempo o Brasil, como articulador mor da América Latina disse que agora os EUA devem rever seu posicionamento em relação ao governo cubano. Mesmo antes de Cuba fazer uma revisão de seus crimes e se inserir no âmbito internacional dos direitos humanos. Se a fachada muda devemos alguma modificação em relação à estrutura? Jamais. Mas assim é cobrado.

Mas enquanto esse oba oba revolucionário é posto em prática a todo vapor, os órgãos internacionais regozijam. Assim podem desestruturar os países a hora que quiserem, mas jogam um jogo perigoso, pois se acham no controle da situação, que está longe de ser facilmente contornável. Realmente isso tudo não tem importância, pois a agenda internacional vai muito bem obrigado! Um passo decisivo que foi dado esse ano é a briga pela demarcação em terras contínuas da reserva Raposa Serra do Sol. Dada aos índios e às ONGs que lá atuam. Essa reserva possui a quase totalidade das reservas conhecidas de nióbio no mundo, assim como inúmeras outras riquezas incalculáveis. Dizer que temos que dar terras aos índios é uma falácia do pensamento torto. Ainda mais quando essa área é do tamanho do estado de São Paulo, visa abrigar uns 20 mil índios e faz fronteira diretamente com a Venezuela, que incrivelmente possui uma reserva na mesma divisa. Atuando dessa forma as organizações internacionais que lutam pelos direitos dos índios não fazem nada mais que tirar pedaços de países e dar autonomia para uns tantos explorar aquelas áreas.

Seguindo essa mesma linha o governo brasileiro segue à risca esse projeto da ONU, o chamado Desenvolvimento do Milênio. Segue à risca o projeto da ONU para reformulação da educação, criando um bando de militantes preocupados com o meio ambiente. Abolindo do ensino todas as matérias fundamentais para o pensamento, e colocando apenas aquelas que ajudam ao desenvolvimento do pensamento revolucionário. Assim o Brasil compra anualmente livros mais impróprios para a distribuição nas escolas. Esses livros exaltam as maravilhas do comunismo, do socialismo, atacam diretamente os maus e vis empresários e o capitalismo perverso, enaltecem a luta do ecologismo e faz campanha direta para o PT. Esse tipo de declínio mental estrutural é notável nos vários testes que os alunos brasileiros despontam em quase último lugar, nos piores desempenhos mundiais. Nossas crianças não estudam, não pensam. Pesquisa esse ano mostrou que 80% dos brasileiros são analfabetos, ou analfabetos funcionais. Em oito anos de governo FHC, que é o fundador do Diálogo InterAmericano, e nos oito de Lula, fundador do Foro de São Paulo, só tivemos uma linha de queda acentuada no nível mental dos estudantes, e consequentemente dos professores, em 16 anos o Brasil foi pro lixo.

Basicamente tudo que falei até agora é um resumo bom do ano, e como que os fatos desse ano repercutem na série dos anos passados que culminam nesse, e como deve ser avaliado para que façamos algo de contundente, com conhecimento de causa sobre o que se passa ao nosso redor. Infelizmente mais da metade da mérdia brasileira se dedica exclusivamente ao entretenimento. E grande parte dessa mírdia trata de esportes. Alguns dizem recorrentemente que o esporte é o alívio do povo, é o ópio, é o circus. E se isso é realmente certo devemos ficar preocupados, pois até nos esportes o Brasil nada faz de bom, contundente. Nas Olimpíadas nosso querido amado país ficou atrás da Etiópia, do Quênia, da Jamaica, da Romênia e da Polônia. Dunga fez o favor de esculhambar nossa seleção e perder/empatar vários jogos das eliminatórias para a Copa do Mundo de 2010 deixando claro que nosso time está ruim até o talo. Massa ficou no quase na Fórmula 1, em grande parte a erros grotescos da escuderia Ferrari. Romário se aposentou. Guga se aposentou. E nosso maior símbolo futebolístico dos últimos tempos foi pego com travecos e cocaína em um motel. Ainda, nosso Campeonato Brasileiro de futebol só nos faz envergonhar com as atuações esdrúxulas dos árbitros e bandeirinhas, errado de maneira deliberada, roubando de maneira escancarada. Ao mesmo tempo que nossos dirigentes só querem saber de dinheiro e tratam de crises nos times como ótimas temporadas de fazer dinheiro, negociar jogadores, fazer tramóias etc., se assim continuar o povo brasileiro ficará sem seu circus... só sobrará a luta pelo panis.

Assim terminando essa retrospectiva terminamos na luta pelo panis diário do brasileiro que teve que aturar greves de bancários e dos correios. Em alguns lugares de médicos. Teve que aturar diariamente os casos de violência nas escolas, onde alunos descontrolados além de não estudarem impedem que outros o façam e agridem professores. Ao mesmo tempo em sua luta eterna pelos coitados Lula sanciona a licença maternidade de 6 meses, cria uma lei de alimentos gravidícios. Ao mesmo tempo que essas duas leis pretendem beneficiar o povo só mostram sua forte tendência de prejudicá-los. Temos que ver o uso indevido do dinheiro público no escândalo dos cartões corporativos. A crise interna do governo com sua agência de informação, a Abin, com escutas telefônicas em altos funcionários dos poderes governamentais, agência essa que de uma hora para outra teve toda sua cúpula renovada. Temos que ver o roubo de dados sigilosos da Petrobrás, e a fortuna instantânea que o Soros conseguiu ao entrar no mercado nacional comprando ações que iriam subir descontroladamente dias depois pela divulgação da Petrobrás de dados sobre o pré-sal. Temos que ver parlamentares aumentarem os próprios salários, tentarem aumentar as vagas para vereadores no país inteiro, inflando os gastos públicos em tempos de crise. Temos que ver a CPMF sendo extinta, mas imediatamente a criação de outro imposto para tomar o vácuo deixado.

Enfim a retrospectiva é dura, é medonha e abrange tudo de mais problemático que passou nesse ano. As coisas boas? Apontem uma comparável ao problema gigantesco que passamos e veremos se pode ser enaltecida. Como disse no começo desse texto a situação é grave. E só com base no conhecimento da coisa mesma é que poderemos tomar atitudes para mudar isso. Esses falsos otimistas não me enganam, em tempos em que as coisas ruins se amontoam e as boas nem se comparam em importância a força é primordial, a determinação é essencial, o conhecimento é fundamental. E para isso serve uma retrospectiva. Feliz ano novo a todos que leram esse singelo retrato do ano que passou, e força para aturar o próximo.